O PMDB chega à Esplanada,
mas o ministro da Agricultura da legenda pode não germinar
Otávio Cabral
Fotos Celso Junior/AE e Dida Sampaio/AE
O peemedebista Geddel Vieira Lima (à
dir.) já foi empossado por Lula. Já o colega Odílio Balbinotti,
indicado para a Agricultura...
O
segundo mandato do presidente Lula começou a tomar forma na semana passada
com a confirmação dos primeiros sete novos ministros. Três
deles – José Gomes Temporão, Saúde, Geddel Vieira Lima,
Integração Nacional, e Odílio Balbinotti, Agricultura –
são do PMDB. O partido, que já ocupa os ministérios das Comunicações
e Minas e Energia, se converte assim no maior e mais poderoso fiador do governo.
Vai administrar um orçamento de 45 bilhões de reais e poderá
indicar correligionários para ocupar uma infinidade de cargos em empresas
e órgãos estatais. O bônus dessa coalizão de interesses
é que o governo vai poder contar com os votos de noventa deputados e vinte
senadores peemedebistas no Congresso, o que dará ao presidente Lula tranqüilidade
para governar. O problema é que existe também um gigantesco ônus.
O PMDB, como se sabe, é um complexo ecossistema político. Convivem
em seu interior gente honrada e preocupada com o país e aventureiros que
usam a política para se locupletar. O partido esteve presente em todos
os grandes escândalos políticos das últimas duas décadas.
É esse o pacote que está desembarcando em massa na Esplanada dos
Ministérios – e que já constrange o governo logo na estréia,
na figura de Odílio Balbinotti.
O futuro ministro da Agricultura foi o único dos indicados do PMDB a não
tomar posse na sexta-feira passada. Oficialmente, por uma questão burocrática.
Na verdade, o governo está ganhando tempo para se certificar se o deputado
Balbinotti tem mesmo condições de assumir o cargo. Empresário
bem-sucedido, o deputado, que tem entre seus padrinhos o mensaleiro José
Borba, viu surgir contra ele suspeitas e acusações que se espalharam
como pragas de lavoura. Uma delas, no Supremo Tribunal Federal, aponta o deputado
como falsificador. Para conseguir um financiamento do Banco do Brasil, a empresa
de Odílio teria forjado um pedido de empréstimo de 1,7 milhão
de reais em nome de treze parentes e funcionários. O caso só foi
descoberto porque um dos funcionários envolvidos foi preencher um cadastro
e descobriu que era devedor de uma fortuna. Procurou a polícia e processou
Balbinotti. O deputado se defendeu dizendo que, quando do crime, estava formalmente
afastado da direção da empresa. Não convenceu nem mesmo seus
correligionários.
A sensação
é que Odílio deixa um cheiro estranho por onde passa. A Embrapa,
uma das empresas estatais do Ministério da Agricultura, já acusou
o futuro ministro de ter se apropriado indevidamente de um trabalho de pesquisa
da companhia. Em 1993, a Embrapa assinou um contrato de parceria com a Fundação
Mato Grosso para desenvolver um tipo de semente de soja melhorada geneticamente.
Ao final do trabalho, a fundação, criada por Balbinotti, simplesmente
se apoderou da tecnologia e do material genético. A Justiça determinou
que a fundação devolvesse o material genético. O deputado
também presidiu um time de futebol, o Grêmio Maringá. Não
conquistou nenhum título, mas responde a seis processos por ter deixado
de recolher o INSS de funcionários e jogadores. Milionário, Balbinotti
é o segundo deputado mais rico do Congresso, com um patrimônio declarado
de 123 milhões de reais. Ele ainda é acusado de ter desviado 91.000
reais dos cofres públicos da prefeitura de Maringá (PR).
Em 1998, o Ministério Público descobriu
um cheque da prefeitura depositado na conta da empresa Produquímica Indústria
e Comércio, de Suzano (SP). Chamados a se explicar, os responsáveis
pela companhia paulista revelaram que o depósito se referia à quitação
de uma dívida das empresas de Odílio Balbinotti. Ou seja: o dinheiro
dos impostos dos moradores de Maringá teria sido usado para pagar despesas
particulares das empresas do futuro ministro da Agricultura. A operação
foi autorizada pelo então prefeito da cidade, aliado político do
deputado. "Balbinotti é correto e transparente", garantiu o próprio
Balbinotti. Nomear ministros peemedebistas de biografia controversa não
é exclusividade de Lula. Aliás, em se tratando de Agricultura, Odílio
pode até bater um recorde. Em 1993, Itamar Franco empossou o empresário
Nuri Andraus na Agricultura. Ele ficou três dias no cargo, até se
descobrir que, além de problemas com a Receita Federal, o ministro também
era réu em um processo de assassinato. O governo Fernando Henrique, que
teve o PMDB como aliado, amargou até o fim o desgaste por denúncias
de corrupção, na maioria oriundas das pastas ocupadas por peemedebistas.
Ao abrir as portas do governo ao partido, a única coisa que Lula não
poderá alegar é surpresa com o que vier a acontecer.