O
ex-ministro José Dirceu já mostrou ser capaz de feitos notáveis.
Na clandestinidade, viveu por quatro anos no Paraná sob identidade falsa,
conseguindo enganar a própria mulher. Como dirigente do PT, mudou as feições
do partido ao esmagar com mão-de-ferro as correntes internas radicais.
No governo, acumulou mais poder do que todos os outros ministros juntos e manteve
o status de segundo homem da República até cair, em junho de 2005,
com o escândalo do mensalão. Hoje, dois anos depois da queda, José
Dirceu realiza mais uma proeza: a de, num período de vinte meses, passar
de desempregado a consultor de empresas com ganhos de seis dígitos –
ainda que toda a sua experiência empresarial se resuma à administração,
nos anos 70, de uma alfaiataria e de uma loja de roupas masculinas, a Magazine
do Homem, na pequena cidade de Cruzeiro do Oeste, no Paraná. A escassez
de credenciais não impediu que o ex-chefe da Casa Civil formasse, em tempo
recorde, uma portentosa carteira de clientes. Entre os já revelados, estão
o empresário Nelson Tanure, dono do Jornal do Brasil, a Odebrecht,
gigante da construção civil, e o banqueiro Daniel Birmann. Na Telemar,
o papel do consultor José Dirceu é "ajudar" a empresa no projeto
de fusão com a Brasil Telecom. Em relação a Birmann, sabe-se
que o banqueiro continua interessado no setor de biodiesel – a menina-dos-olhos
do governo Lula. Só a soma das atividades conhecidas de Dirceu rende ao
ex-militante do Molipo (Movimentação de Libertação
Popular, grupo guerrilheiro surgido a partir de uma dissidência da ALN,
Ação Libertadora Nacional) ganhos mensais de, pelo menos, 150.000
reais. "Eu sou capitalista", tem dito o ex-ministro a amigos. A VEJA, ele não
confirmou nem negou o valor de seus ganhos. Sua resposta: "Tenho um contrato de
confidencialidade com meus clientes".
A agenda de Dirceu registra contatos empresariais e políticos. Só
no dia 8 deste mês, ele tinha encontros marcados com um executivo da área
financeira da Telemar e um diretor da companhia aérea TAM. No outro lado
do balcão, estavam previstas reuniões com petistas ocupantes de
altos postos no governo federal, como Guilherme Lacerda, presidente da Funcef,
fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal.
Freqüentemente, o consultor Dirceu trata de juntar esses dois mundos. Há
três semanas, ele foi visto almoçando com Lacerda e um empresário
do setor de transportes ferroviários em um restaurante em São Paulo.
O ex-ministro nega que seu atual negócio envolva tráfico de influência:
"Não faço lobby, faço consultoria".
Dida Sampaio/AE
Arlindo Chinaglia: eleito presidente da Câmara
com a ajuda de Dirceu, é peça-chave no projeto de anistia do ex-deputado
A conversão
do ex-guerrilheiro ao capitalismo não é a única novidade
na biografia recente do ex-chefe da Casa Civil. No fim do ano passado, Dirceu
se separou de sua terceira mulher, Maria Rita Garcia, e, logo em seguida, anunciou
o namoro com Evanise Santos, uma amiga dos tempos de governo. Os dois se conheceram
em 2003. Na ocasião, Evanise, ex-professora primária, trabalhava
na área de comunicação do Ministério dos Transportes.
Por causa da crescente amizade com o ministro, conseguiu um posto no cerimonial
do Palácio do Planalto e, logo depois, foi alçada ao cargo de assessora
especial da Casa Civil, chefiada por Dirceu. Juntos, os dois rodaram o mundo –
ele, como ministro, ela, na qualidade de assessora. Viajaram para Egito, Estados
Unidos, Portugal e Espanha. Evanise sempre se destacou entre as funcionárias
do governo pela aparência vistosa. Loira química, gosta de usar terninhos
coloridos (preferencialmente nas cores rosa-bebê e azul-claro) e de ousar
na escolha de adereços, sempre em tons dourados.
Em 2005, quando Dirceu, atingido pelas denúncias de Roberto Jefferson,
deixou o governo, Evanise foi transferida para a coordenadoria de Relações
Públicas do Palácio do Planalto. "Foi uma medida de precaução.
Pela convivência que teve com o Zé, Evanise era vista pelo PT como
uma 'mulher-bomba'", diz um deputado petista próximo de Lula. Em fevereiro
deste ano, já separado de Maria Rita, Dirceu assumiu o namoro com Evanise.
Para comemorar, o casal fez uma viagem de dez dias à Argentina. Visitaram,
na Patagônia, as cidades de Ushuaia e El Calafate. Nessa última,
participaram de uma excursão de barco à geleira Perito Moreno e
passaram noites animadas, regadas a bom vinho argentino, no restaurante Barricas
de Enopio. Sinal de que o romance segue de vento em popa é o fato de que,
agora, quando está em Brasília, o ex-ministro dispensa hotéis.
"Ele fica na casa da Evanise e todas as reuniões políticas são
feitas lá", conta outro deputado petista.
Em São Paulo, a base do ex-ministro é a casa que ele e a ex-mulher
Maria Rita construíram no município de Vinhedo. Na capital paulista,
Dirceu circula com motorista particular em um Vectra e gosta de marcar encontros
no restaurante Massimo, outrora símbolo da alta gastronomia italiana, ou
no português A Bela Sintra. Viagens internacionais, bons vinhos, ótimos
restaurantes: o dinheiro farto tem proporcionado muitos prazeres ao consultor
Dirceu, mas quem o conhece sabe que o poder ainda é sua maior ambição.
No momento, o ex-ministro tem um projeto audacioso: recuperar seus direitos políticos
para concorrer ao governo de São Paulo em 2010 e preparar o caminho para
a Presidência da República, seu sonho. O ex-ministro chegou a pensar
em disputar a sucessão de Lula já em 2010, mas a idéia não
resistiu aos resultados de uma pesquisa de opinião pública que mostrou
que dois terços do eleitorado rejeitariam seu nome. Outro levantamento,
esse encomendado pelo próprio Dirceu, indicou que quase 70% da população
considerou justa sua cassação.
Antes da divulgação dessas pesquisas, o plano de Dirceu era o de
tentar retomar o direito de concorrer a cargos públicos, suspenso até
2015, por meio da colheita de 1,5 milhão de assinaturas de apoio. O projeto
foi descartado. A tática agora é conseguir sua absolvição
no inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal (aquele em que o ex-ministro
é apontado pela Procuradoria-Geral da República como o chefe da
quadrilha do mensalão) e usá-la para pressionar a Câmara a
conceder sua anistia. Só que, em vez de dar início ao processo por
meio de assinaturas, a idéia é que deputados aliados, como Cândido
Vaccarezza ou Carlos Zarattini, ambos do PT de São Paulo, apresentem um
projeto de lei propondo o perdão. Nesse plano, o presidente da Câmara,
Arlindo Chinaglia (PT-SP), que Dirceu se esforçou para eleger, desempenha
papel fundamental. Caberá a ele decidir se colocará ou não
na pauta de votação o projeto que poderá viabilizar a ressurreição
política do ex-ministro. A iniciativa, no entanto, não é
para agora. O petista vive um momento que, nos tempos do Molipo, chamaria de "acumulação
de forças". Ele conversa com aliados, sonda adversários e ensaia
aproximações com líderes da oposição. Sabe
que, para que o projeto de anistia tenha chances de ser aprovado, precisará
contar com o apoio de parlamentares da oposição. Ocorre que tanto
tucanos como pefelistas já se comprometeram com o governo a votar a favor
do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – e Dirceu
avalia que não estariam dispostos a ajudar o PT na aprovação
de um segundo projeto de interesse do partido.
Se já teve mostras de que a opinião pública ainda o considera
a "face negra" do PT, dentro do partido a imagem de Dirceu segue inabalável.
Em fevereiro, a festa de 27 anos da sigla, realizada em Salvador, transformou-se
em ato de desagravo ao ex-ministro. "Dirceu foi ovacionado, as pessoas se atiravam
para posar em fotos ao lado dele. Foi uma demonstração de força
tão grande que o Lula teve de fazer uma referência a ele em seu discurso",
diz um deputado petista. Nesta semana, o ex-ministro completa 61 anos. Sua festa
de aniversário, em São Paulo, deverá reunir 600 pessoas,
na maioria militantes ou dirigentes do partido. É com base no controle
da máquina petista – além da fé na máxima do
escritor Ivan Lessa, de que a cada quinze anos o Brasil esquece o que aconteceu
nos últimos quinze – que Dirceu planeja seu retorno. Entre as articulações
para retornar à vida pública e as novas atividades empresariais,
o ex-deputado e atual consultor curte a vida. Programou para o fim deste mês
uma ida ao show de Roberto Carlos, no Rio. São mesmo muitas emoções.
O mau cheiro ficou
Beto Barata/AE
A ex-deputada Angela Guadagnin e a dança da
pizza: ninguém esquece
Os escândalos de corrupção que envolveram o PT podem não
ter impedido a reeleição do presidente Lula, mas não passaram
em branco aos olhos da população. Na semana passada, uma pesquisa
da Fundação Perseu Abramo, instituto ligado ao PT, surpreendeu desagradavelmente
o governo e as lideranças petistas. Embora ainda seja apontado pela maioria
das pessoas como o partido que mais "defende os pobres e a justiça social",
o PT é, na opinião dos entrevistados, a agremiação
que abriga mais políticos corruptos. Declararam partilhar da opinião
30% dos pesquisados. Há dez anos, levantamento semelhante, também
feito pela Fundação Perseu Abramo, dava apenas 4% de citações
à legenda, no mesmo quesito. O PMDB aparece como o segundo partido com
o maior número de políticos corruptos, seguido pelo PFL.