EDIÇÕES
863 a 869 | 20/MAR a 1/MAI/1985 As
sete estações da agonia
EBN
- Empresa Brasileira de Notícias
Nenhum
outro assunto ganhou tantas capas seguidas de VEJA quanto a agonia e morte de
Tancredo Neves. Foram sete, retratando o extraordinário drama do
primeiro presidente pós-regime militar, que, a apenas um dia da posse,
foi operado às pressas, vitimado por um tumor perfurado no intestino, pela
anarquia médica e pelo profundo pavor dos políticos de ter sua imagem
tisnada por problemas de saúde. De figura simpática e atilada, com
um sorriso avuncular, Tancredo foi alçado a herói e mártir,
transformações que VEJA retratou mas sempre concentrando
a linha de fogo das reportagens em desvendar a teia de mentiras tecida para mascarar
a sofrida jornada do presidente rumo ao fim. Semana após semana, comprovou-se
como jornalistas competentes abominam enganações. "Tancredo Neves
poderá completar em paz sua convalescença, calculada em oito dias,
para então assumir o cargo que é seu", dizia a primeira capa, ressaltando,
no entanto, que seu médico havia omitido "o dado essencial, de que ele
tinha uma ameaçadora infecção no abdômen". Na segunda,
o tom algo sarcástico que se tornou marca registrada de VEJA aflora com
plena força: "Se cobrassem ingresso para entrar, o Hospital de Base de
Brasília seria um circo na última semana. Se o cercassem, viraria
um manicômio". Na quarta, a desesperança é inescapável:
"Depois de seis cortes e diversas crises pulmonares e circulatórias, Tancredo
terminou a sua terceira semana de sofrimento sem justificar as sucessivas recaídas
de otimismo que se seguem às horas de dificuldades". A chamada da sétima
capa, uma edição especial sobre sua morte, tinha uma única
palavra: "Adeus". E uma comparação eloqüente, especialmente
indicada para um conhecido admirador a posteriori dos personagens
mencionados: "A morte de Tancredo foi o exato oposto do suicídio de Getúlio
Vargas, em 1954. O ditador do Estado Novo matou-se quando boa parte da população
queria vê-lo fora do Catete, enquanto Tancredo morreu diante de uma nação
que desejava vê-lo na Presidência. O tiro que matou Vargas fortaleceu
seus aliados (...). A infecção que matou Tancredo entregou a Sarney
uma sociedade unida".