Primeiro ela saiu da Grécia
e conquistou a Inglaterra, onde foi a primeira mulher a presidir
(com sotaque) o clube de debates da Universidade de Cambridge.
Depois, mudou-se para Los Angeles e conquistou a América:
casou-se com um bilionário, envolveu-se na política
e fundou um influentíssimo site anti-Bush. No meio
tempo, Arianna Huffington, 56 anos, escreveu onze livros,
dos quais o último, Mulheres Corajosas Sempre Vencem,
auto-ajuda com recheio autobiográfico, está
sendo lançado no Brasil. Sobre ele, Arianna falou à
editora Lizia Bydlowski.
DO QUE AS MULHERES TEM MEDO?
Por incrível que pareça, elas continuam tendo
os mesmos medos de sempre. Esse é um dos motivos pelos
quais resolvi explorar o conceito de coragem. Fiquei chocada
ao ver que minhas duas filhas tinham os mesmos temores que
me atormentaram na adolescência – será que sou
atraente, será que gostam de mim? Pensava que, com
todas as conquistas feministas, minhas filhas não iriam
sofrer como eu. Mas aí está a nova geração,
tão insegura, cheia de dúvidas e desesperada
quanto a minha, sempre preocupada com os outros.
SEU PRIMEIRO LIVRO, ESCRITO
HÁ TRINTA ANOS, TRATAVA DE FEMINISMO. ESTE AGORA, DE
CERTA FORMA, TAMBÉM. O QUE MUDOU DE LÁ PARA
CÁ?
Nos anos 70, havia no feminismo uma falta de respeito para
com a mulher que prezava a maternidade. Com o tempo, foi-se
percebendo que ela não queria abrir mão desse
papel, que queria ser valorizada tanto como profissional quanto
como mãe. O problema agora é justamente conciliar
os múltiplos desafios. Além dos obstáculos
presentes na sociedade, existe também aquela voz interna,
crítica, que impede que a mulher vá atrás
do que realmente deseja.
HOMENS TAMBÉM NÃO
TEM ESSA VOZ INTERNA? Têm. Mas a calam com a maior facilidade. Ligam
a televisão, assistem a um jogo de futebol e pronto.
QUAIS OS TRÊS CONSELHOS
FUNDAMENTAIS QUE UMA MÃE DEVE DAR À FILHA?
Primeiro, ter senso de humor e manter as coisas dentro da
devida perspectiva. Em segundo lugar, ter em mente que cada
pessoa é única, diferente das outras, e comparar
não leva a nada. Por último, lembrar sempre
de fazer coisas para os outros, e não só para
si mesma.
SER ATRAENTE E RICA, COMO
A SENHORA, É MEIO CAMINHO ANDADO PARA O SUCESSO?
Beleza pode ajudar, mas não tanto quanto ter charme,
personalidade. E essas são qualidades que se adquirem,
são produtos da confiança em si mesma. Quanto
a dinheiro, nem sempre fui rica. Pelo contrário. Quando
estudei, como bolsista, em Cambridge, eu e minha mãe
éramos bem pobres e passamos muita dificuldade. Agora,
não há dúvida de que a melhor coisa do
dinheiro é a independência que ele traz. O dinheiro
compra tempo.
SEU LIVRO DIZ QUE AS MULHERES
TEM DE LIDAR COM DINHEIRO E DEIXAR DE PENSAR QUE ISSO É
COISA DE HOMEM. COMO A SENHORA LIDA COM O SEU?
Para dizer a verdade, eu não me interesso muito por
investir, cuidar de dinheiro. Acho que não está
na minha personalidade.
A SENHORA ERA REPUBLICANA
E AGORA É DEMOCRATA. COMO FOI A PASSAGEM?
As questões realmente importantes hoje em dia não
podem ser divididas entre direita e esquerda, republicano
ou democrata. Veja a guerra no Iraque, à qual me opus
desde o começo: algumas das principais vozes contra
ela são de conservadores. Mas eu troquei de partido,
há dez anos, porque não tinha mais espaço
para trabalhar com questões que realmente me empolgam.
Foi difícil. Perdi amigos, que não entendiam
minha transformação. Mas eu precisava dar continuidade
à minha evolução pessoal.
SE FOSSE ESCOLHER UMA MULHER
HOJE PARA UM DEBATE SOBRE QUESTÕES IMPORTANTES, QUEM
SERIA?
A secretária de Estado Condoleezza Rice, para discutir
a trágica decisão de invadir o Iraque. Ela ajudou
a vender essa idéia imoral ao público americano.
Tenho a impressão de que seria um debate bem animado.