Luiz
Felipe de Alencastro
O
inferno do tráfico
"A
queda na demanda de drogas nos Estados
Unidos redundará num aumento da oferta em
outros países e dias difíceis virão
para os
brasileiros"
Ilustração Ale Setti
 |
O filme Traffic, de Steven Soderbergh, dá
uma idéia da inferneira em que se enfiará
nosso país se o narcotráfico tupiniquim medrar
um bocadinho mais. O filme está sendo projetado no
Brasil e não tenho nada a acrescentar ao comentário
perspicaz que Isabela Boscov escreveu sobre ele (VEJA, 14
de março) senão o fato de que a poeira
vermelha, o espanhol suave dos mexicanos e a cara meio maranhense
de Benicio Del Toro dão uma abrasileirada ao filme,
tornando-o ainda mais inquietante. Pelo menos para quem
está longe, assistindo a tudo no meio de uma fleumática
platéia estrangeira.
Já faz bastante tempo que o narcotráfico se
transformou num componente geopolítico essencial
do mundo contemporâneo. Agora, as estratégias
de repressão confrontam-se com o enorme poder de
fogo acumulado pelos capitais e pelas redes de proteção
dos narcotraficantes. No horizonte, o surgimento de países
comprometidos de cima a baixo nesse lucrativo ramo do comércio
internacional. Reides nas zonas produtoras, ataques à
logística dos cartéis e aos distribuidores
de drogas compõem a panóplia da comunidade
internacional nessa guerra. Economistas e estrategistas
de renome elaboraram análises sofisticadas sobre
a eficácia relativa dessas ações repressivas.
Entretanto, nos cabedais de sua História, os brasileiros
detêm uma excelente lição sobre o assunto.
De fato, de 1822 a 1850, o Brasil foi o maior país-traficante
do mundo. A economia, a sociedade, o regime político,
todos tiravam proveito do tráfico negreiro. O negócio
era de porte: os cerca de 335.000
africanos contrabandeados para o país entre 1841
e 1850 valiam uma quantia correspondente a 28% do valor
das importações legais brasileiras.
Em volta agiam cartéis traficantes de brasileiros
e portugueses, americanos, espanhóis e até
de napolitanos. Muita gente enriqueceu nessas atividades
criminosas. Em Os Maias (1888), Eça de Queiroz
diz que Maria Monforte, a mãe de Carlos Eduardo e
Eduarda, era chamada "a negreira" porque seu pai fizera
fortuna no tráfico de africanos para o Brasil. De
saída, o romance sugere a sinistra associação
entre a herança negreira e a sina dos amantes malditos.
Resta que a pirataria brasileira parou de pronto em 1850,
quando ainda dava muito dinheiro. Por quê? Por causa
das negociações, comandadas pelo hábil
Eusébio de Queiroz, entre negreiros, fazendeiros
e o governo imperial. No acordo, a cessação
do tráfico negreiro foi compensada pelo pacote do
governo em favor dos fazendeiros: baixa das tarifas de exportação,
política imigratória e financiamento das estradas
de ferro (fundamental para os fazendeiros de café
dependentes das tropas de mulas). Trocando em miúdos:
o tráfico negreiro transatlântico acabou porque
a demanda acabou.
É
nessa direção que o New York Times (28
de novembro de 2000) dirige suas críticas à
política de repressão ao tráfico de
drogas nos Estados Unidos. Comentando justamente o filme
Traffic, o jornal registra que o governo gasta 19,2
bilhões de dólares anuais na luta contra o
narcotráfico, mas o número de viciados "duros"
de cocaína não diminuiu (3,5 milhões)
e o de heroína aumentou (de 600.000
para 980.000) na última
década. Ora, escreve o NYT, todos os estudos
mostram que o tratamento dos usuários tem muito mais
efeito que a repressão na redução do
uso de entorpecentes. Ou seja, o tráfico de drogas
para os Estados Unidos diminuirá quando a demanda
americana se reduzir, como reconheceu o próprio presidente
Bush em sua recente visita ao México. O problema
é que toda queda na demanda americana redundará
num aumento da oferta em outros países. Foi assim
com o tráfico negreiro: o negócio tornou-se
quase incontrolável no Brasil e em Cuba depois de
1808, quando os americanos e os ingleses proibiram a entrada
de africanos em seus territórios. Se as mesmas causas
produzirem os mesmos efeitos, outros dias difíceis
virão para os brasileiros.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)