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Uma piadinha só não dói

Marcos Mion ganha fama por
satirizar videoclipes na MTV

Ricardo Valladares

 
Antonio Milena
Mion: humor e autoconfiança depois da morte trágica do irmão

Dois traços são muito marcantes na personalidade do ator paulistano Marcos Mion. Primeiro: ele é dono de um humor afiadíssimo. Segundo: é um poço de autoconfiança. O resultado, intrigante, é um sujeito metido e, ao mesmo tempo, engraçado, qualidades que Mion tem demonstrado fartamente à frente do programa Os Piores Clipes do Mundo, que vai ao ar todas as terças, a partir das 22 horas, na MTV. Figurinos, coreografias, enredos absurdos – nada escapa do deboche do apresentador, que faz imitações e enfileira tiradas muitas vezes de improviso. No ar há pouco mais de um ano, a atração é campeã de audiência na emissora e já recebeu elogios da matriz americana. No começo, porém, a idéia de ridicularizar vídeos de seu próprio acervo deixava aflita a direção da MTV, que hesitou em entregar o Piores Clipes a Mion. E foi aí que pesou sua autoconfiança. Mion, que tem apenas 21 anos, bateu o pé, disse que transformaria o programa em sucesso – e conseguiu. Hoje, comanda outra atração, o Uá-Uá, e recebeu sinal verde para desenvolver uma terceira, que será uma espécie de show de pegadinhas. "Vou ter mais liberdade que o pessoal do Casseta & Planeta na Globo", diz o apresentador, que obviamente não se intimida nada em levantar a própria bola.

Tanto o bom humor quanto a segurança foram adquiridos a duras penas por Mion. Menino de classe média, filho de médicos, ele passou por uma experiência traumática no começo da adolescência. Perdeu o irmão mais velho, Marcelo, que despencou do vão livre do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, quando comemorava a aprovação no vestibular. Deprimido, Mion passou a fumar maconha compulsivamente e engordou 20 quilos. Virou garoto-problema e chegou a ser preso pela polícia por desacato à autoridade. "Nessa época, minha mãe me incentivou a fazer teatro para relaxar", conta ele. "No palco, aprendi a rir de minhas tragédias." Seu primeiro trabalho na televisão, embora ele não goste de mencionar o fato, foi uma ponta numa pegadinha com o boxeador Maguila, para o antigo programa de Luciano Huck na TV Bandeirantes. Depois veio o papel de Max, na série Sandy & Junior, da Globo, e finalmente a contratação pela MTV. "Estou muito bem aqui e só sairia em condições muito proveitosas", insinua. "Não quero ser outro Cazé, que foi para a Globo para ficar na geladeira."

Mion recebe atualmente mais de 300 mensagens de fãs por semana. Namora há seis meses a cantora Patrícia Coelho, o que não impede o crescimento contínuo de seu séquito de admiradoras, hoje em dia encantadas também com o novo visual fortão do apresentador. "Faço musculação todos os dias e tomo vitaminas", diz ele. Aos poucos, alguns músicos atingidos por suas sátiras também vão se convertendo em fãs. O caso do cantor Supla é emblemático. Transformado por Mion em rei das "pérolas videoclípticas", ou seja, de grandes bobagens musicais, ele primeiro pensou em partir para a ignorância. Depois, percebeu que o programa o estava ajudando a vender mais discos, sobretudo entre os aficionados do trash – aquele gênero de produto cultural que, de tão ruim, acaba por se tornar divertido e até cultuado. "Nós nos ajudamos", diz Supla, que hoje lança seus vídeos no Os Piores Clipes do Mundo. Também a banda Tihuana, que teve o clipe da canção Pula! desconstruído por Mion, fez ameaças de violência antes de perceber que era tudo brincadeira. Hoje, Rita Lee, Ivete Sangalo e Skank são alguns artistas consagrados que chegam a pedir para ser alvo de zombaria – e ninguém duvida que o apresentador encontraria material farto em seus clipes para fazer comédia. No interior da MTV, contudo, há quem se sinta incomodado pelo estilo de Mion. "Às vezes ele exagera, não só nas graças mas no auto-elogio", diz um funcionário da emissora. Marcos Mion segue impávido. "Estou fazendo uma releitura do trabalho de Tom Green e Andy Kaufman, dois grandes comediantes jovens dos Estados Unidos", jacta-se. "Será minha contribuição para a linguagem da MTV."

 

"Pérolas videoclípticas"

Green Hair, do Supla:
"É a coisa mais tosca que temos no arquivo.
É o nosso melhor clipe"
Mama África, de Chico César:
"É a São Silvestre em Catolé do Rocha. Está todo mundo louco para aparecer"
Satisfaction, de Edson Cordeiro e Cássia Eller:
"Está tudo invertido. Ele parece uma menina. Ela, um meninão"

 

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