Mar de
lágrimas
Billy
Elliot e A Corrente do
Bem não medem
esforços
na hora de "emocionar" a platéia
Isabela Boscov
Warner Bros
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| Haley
e Helen em A Corrente do Bem: só desgraças |
Chorar
no cinema não é errado. Pelo contrário.
Pode ser prazeroso e até saudável. O desperdício
é se desidratar por roteiros tão simplistas
que transformam o choro em pura reação fisiológica,
sem nenhum conteúdo como o de Billy Elliot
(Inglaterra/França, 2000), já em cartaz, e o
de A Corrente do Bem (Pay It Forward,
Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira.
Bem lá no fundo, os dois até partem de boas
idéias. No caso de Billy Elliot, mostrar o misto
de prazer e rejeição que há em se descobrir
dono de um talento que ninguém, nem você próprio,
está pronto para aceitar. A Corrente do Bem,
por sua vez, trata de uma criança que acha que os adultos
falam muito, e fazem pouco, quando o assunto é mudar
o mundo. O propósito dos filmes é que é
ruim: extorquir lágrimas da platéia, ainda que
isso implique manipular seus sentimentos na maior sem-vergonhice.
Tome-se o caso de Billy Elliot (espantosamente indicado
aos Oscar de roteiro, direção e coadjuvante,
para Julie Walters). O inglesinho Billy é filho e irmão
de mineiros de carvão (e órfão de mãe,
claro) e teria de lutar boxe, mas prefere fazer piruetas.
Um escândalo que lhe vale berros e safanões do
pai até que, numa conversão miraculosa,
este se entrega aos maiores sacrifícios para realizar
o sonho do filho. Simples assim. Já A Corrente do
Bem prefere recorrer à desgraceira. O menino Trevor
tem mãe alcoólatra (Helen Hunt), avó
sem-teto e pai ausente. Por incentivo de um professor (Kevin
Spacey), tenta consertar a vida de alguns necessitados, pedindo
apenas que, em troca, eles ajudem outros infelizes. Nem é
preciso dizer que o esquema vai terminar em tragédia.
Só os protagonistas se salvam. Jamie Bell, de Billy
Elliot, é uma graça. E Haley Joel Osment,
de O Sexto Sentido e A Corrente do Bem, não
tem rival na capacidade de projetar sofrimento e inteligência.
Se for para verter lágrimas honestas, aliás,
é só derrubá-las por Kevin Spacey, que
não passa uma cena sem tomar um tremendo banho do pequeno
Haley.
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