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No tempo dos dinossauros

Cameron Crowe relembra sua vida nos
bastidores do rock, nos anos 70, com o
delicioso Quase Famosos

Isabela Boscov

 
Columbia Tristar Pictures
A fictícia banda Stillwater cai na estrada: igual ao Led Zeppelin

É 1973, e o Led Zeppelin está prestes a se tornar a maior banda da década. Imagine então ser escolhido para acompanhá-lo numa excursão, de show em show, de hotel em hotel, de loucura em loucura, durante semanas. Tudo isso a serviço de uma bíblia do rock, a revista Rolling Stone. E, agora, o detalhe que realmente importa: você tem 15 anos e nem um fio de barba no rosto. Impossível? Pois foi assim que começou a carreira de Cameron Crowe, ex-garoto prodígio do jornalismo especializado em música e diretor de filmes como Jerry Maguire. Passadas quase três décadas, Crowe, que hoje tem 43 anos, decidiu tirar a poeira de suas lembranças e transformá-las em roteiro. O resultado é o delicioso Quase Famosos (Almost Famous, Estados Unidos, 2000), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional.

Quase Famosos está repleto das histórias cabeludas que Crowe coletou nos bastidores do rock (veja quadro), mas elas não são a única graça do filme. O que o torna tão singular é que o diretor resistiu a duas tentações típicas de quem se autobiografa: ver o passado com lentes cor-de-rosa ou, pelo contrário, desdenhar de sua ingenuidade. Seu olhar é ao mesmo tempo observador e afetuoso, uma combinação difícil que o ator estreante Patrick Fugit, alter ego do diretor, acerta na mosca.

Nem todos os personagens aparecem no filme com seus nomes reais. Crowe trocou o seu próprio para William Miller, e a banda que ele segue na estrada virou a fictícia Stillwater. Mas todos os episódios foram tirados de sua crônica pessoal. A estrondosa guerra de egos entre o vocalista e o guitarrista do Stillwater, por exemplo, é uma imitação daquela vivida por Robert Plant e Jimmy Page, do Led Zeppelin. Penny Lane, a encantadora groupie (as garotas que seguiam os músicos até em seus momentos mais íntimos) por quem ele é apaixonado, é um amor que ficou na saudade. Penny é interpretada pela ótima (e linda) Kate Hudson, filha da atriz Goldie Hawn, e disputa o Oscar de coadjuvante pelo papel. Por ironia, concorre com Frances McDormand, arrasadora como a excêntrica mãe de William, que não se conforma em ver seu filho "raptado" por astros do rock. A mãe de Crowe garante que 95% do filme é verdadeiro – inclusive a cena em que, ao deixá-lo na porta de um show de rock, ele mata o garoto de vergonha ao gritar contra todas as evidências: "E lembre-se – nada de drogas!"

O maior feito de Quase Famosos, contudo, é não se reduzir a um exercício de nostalgia para quarentões que ainda guardam, no armário ou na memória, seu primeiro par de calças boca-de-sino. O filme trata de como é possível crescer sem trocar a inocência pelo cinismo. Crowe tentou de todas as maneiras assimilar os ensinamentos de seu mentor, o crítico Lester Bangs, que lhe dizia para ser "honesto e impiedoso". A primeira parte da lição ele aprendeu. A segunda, para o bem de Quase Famosos, ficou esquecida.

 

É tudo verdade

Columbia Tristar Pictures
Kate Hudson, linda e boa atriz, como a fã Penny Lane: concorrente ao Oscar


Stillwater, a banda fictícia que é acompanhada de perto pelo repórter William Miller, é uma mistura de três grupos que o diretor Cameron Crowe adorava: o quarteto inglês Led Zeppelin e os americanos Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd.

Penny Lane, a groupie que conquista o coração do adolescente William Miller, se chamava Pennie Lane. Ela e suas companheiras realmente tiraram a virgindade do jornalista.

No filme, Penny Lane e suas amigas são "vendidas" ao grupo de rock Humble Pie por 50 dólares e uma caixa de cerveja. Por mais chocante que isso possa parecer, essa cena aconteceu de fato – e foi relatada ao diretor Cameron Crowe pelo roqueiro Peter Frampton.

Lester Bangs (1948-1982), o crítico de rock que vira "guru" do jovem William Miller, é considerado um dos papas do jornalismo musical contemporâneo. Escrevia textos bem-humorados, entre eles um famoso manual chamado Como Ser um Crítico de Rock.

A cena em que o guitarrista Russell Hammond, turbinado de LSD, grita "Eu sou um deus dourado" foi protagonizada por Robert Plant, cantor do Led Zeppelin, no topo de um hotel de Los Angeles.

Polygram
O quarteto inglês The Who: lavação de roupa suja no avião


Num dos melhores momentos do filme, os roqueiros do Stillwater promovem uma lavagem de roupa suja enquanto seu avião atravessa uma terrível tempestade. Quem passou por essa provação foram os músicos do quarteto inglês The Who. Na vida real, o piloto que transportava o grupo estava sob efeito de drogas, tentou agarrar uma das acompanhantes da banda e com isso quase provocou a tragédia.

 

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