
Livro
mostra o melhor da produção do
húngaro Robert Capa, o fotógrafo que
retratou a face trágica
do século XX
Flávio
Moura
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nas imagens para ampliá-las
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Fotos Robert Capa
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| Aliados
tentam se proteger das balas alemãs na libertação de Paris:
grudado nos acontecimentos |
Robert
Capa costumava dizer que, se uma foto não ficava boa,
era sinal de que o fotógrafo não havia chegado
suficientemente perto do acontecimento. Em toda a história
da fotografia, ninguém levou a máxima tão
ao pé da letra quanto ele. Entre as décadas
de 30 e 50, Capa esteve no front das piores guerras e chegou
mais próximo dos fatos do que qualquer fotógrafo
havia ousado até então. À coragem exigida
por essa proximidade somavam-se um impressionante senso de
composição e, principalmente, um olhar de comovente
humanidade. Esse conjunto de qualidades resultou nos espetaculares
registros de vários dos acontecimentos mais importantes
da história do século XX, como o cerco a Madri
durante a Guerra Civil Espanhola ou o desembarque dos aliados
na Normandia em 6 de junho de 1944, o Dia D. Na definição
do escritor e amigo John Steinbeck, Capa "mostrava o horror
de todo um povo no rosto de uma criança". O fotógrafo
Henri Cartier-Bresson, ao lado de quem Capa fundou a legendária
agência Magnum, em 1947, lamentou a fatalidade que o
atingiu "em plena glória", aos 40 anos. É a
melhor produção desse homem, a quem ninguém
recusa o posto de maior fotógrafo de guerra de todos
os tempos, que está impressa no livro Robert Capa
Fotografias (Cosac & Naify; 191 páginas;
78 reais). Organizado pelo biógrafo Richard Whelan
e por Cornell Capa, irmão do fotógrafo, o livro
abre com fotos de uma conferência do revolucionário
russo Leon Trotsky feitas na Dinamarca, quando Capa ainda
era um frangote de 19 anos. Na última página
estampa a imagem de soldados franceses caminhando por uma
estrada na Indochina, em 25 de maio de 1954. Minutos depois
de bater essa chapa, a tal fatalidade aconteceu: Capa morreu
ao pisar em uma mina. Estava, como sempre, muito próximo
dos acontecimentos talvez até um pouco à
frente. A ocupação francesa daria lugar à
guerra dos americanos no Vietnã, a primeira em que
a força das imagens jornalísticas mudou os rumos
do conflito.
Ruth Orkin
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| Capa:
romance com Ingrid Bergman inspirou filme |
Entre as imagens de guerra, destacam-se duas, gravadas na
memória coletiva da humanidade. A mais famosa de todas,
de 1936, mostra um combatente antifranquista na Guerra Civil
Espanhola no exato momento em que leva um tiro. Ligeiramente
fora de foco e mal enquadrada, essa imagem é um dos
maiores libelos humanistas da história da fotografia;
é o Guernica de Robert Capa. A outra foto, impressa
no livro em duas páginas, mostra soldados aliados,
no Dia D, tentando alcançar a praia em meio à
arrasadora barreira de fogo dos inimigos alemães (para
conseguir o ângulo, Capa teve de virar as costas para
os tiros). Semelhanças com as cenas iniciais de O
Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, não
serão mera coincidência. O próprio diretor
a reconheceu como fonte de inspiração
sem nenhum desdouro, pois as imagens de Capa são a
matriz onde todos vão beber. As duas fotos são
justamente as mais controversas do autor. Muito se escreveu
na tentativa de provar que a do combatente espanhol foi uma
fraude. O argumento mais sério é o do jornalista
Phillip Knightley, para quem o ângulo indica que Capa
teria de estar na linha de tiro para consegui-la, e portanto
seria um alvo ainda mais fácil que o soldado. Também
persiste a afirmação de que as fotos do Dia
D não foram tiradas ao lado da primeira e mais dizimada
leva de soldados que desembarcaram na praia chamada de Omaha,
como Capa sempre sustentou, mas nas últimas levas,
quando o ritmo da carnificina diminuiu. Nenhum desses céticos,
porém, conseguiu abalar a reputação do
fotógrafo.
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Francesa
que teve filho com alemão de cabeça raspada (acima
à esq.), o combatente antifranquista na hora
da morte (acima) e cena célebre do Dia D: imagens
gravadas na memória coletiva |
Entre
guerras, Robert Capa teve uma vida de novela. No fim dos anos
40, com a reputação firmada e Paris ressurgindo,
passava as tardes no jóquei, as noites em boates com
lindas mulheres e as férias esquiando na Suíça.
Era amigo dos escritores Ernest Hemingway, William Faulkner
e Truman Capote, dos pintores Pablo Picasso e Henri Matisse,
do cineasta John Huston e do ator-dançarino Gene Kelly,
todos eles retratados em magníficas fotos no livro.
Em 1945, no lobby do hotel Ritz, ele conheceu a atriz sueca
Ingrid Bergman, ali hospedada para fazer um show para os soldados
aliados. Ingrid, provavelmente a mulher mais linda do mundo
na época, viveu com o fotógrafo bonitão
um caso que durou dois anos. Reza a lenda que ela queria casar
e ter filhos e Capa não abria mão da vida que
levava. Verdade ou não, foi assim que Ingrid relatou
o caso para o cineasta Alfred Hitchcock. Estava ali a inspiração
para os protagonistas do filme Janela Indiscreta, no
qual um fotógrafo de guerra, com a perna imobilizada,
espia os acontecimentos na casa vizinha e resiste às
investidas da namorada para casar. Um outro vínculo,
anedótico, liga Capa ao cinema. Fã do ator Robert
Taylor e do diretor Frank Capra, o jovem judeu húngaro
nascido Endre Erno Friedmann uniu-os em seu nome fictício.
No começo dizia ser um fotógrafo americano tão
rico que não vendia seu trabalho pela tabela normal.
Em
ao menos dois aspectos Capa esteve na vanguarda da fotografia
do século XX. Na década de 30, quando a foto
do soldado espanhol sendo baleado foi publicada, ninguém
jamais havia visto coisa parecida. Até ali, as fotos
de guerra eram feitas com câmaras enormes e teleobjetivas
acopladas, que tornavam a espontaneidade quase impossível
e dificultavam a mobilidade do operador. Capa foi dos primeiros
a trabalhar com câmaras menores ele tinha uma
Leica 35mm , sem as quais seria impossível chegar
ao resultado que chegou. Além disso, Capa "reinventou"
as guerras do século XX. Ao fotografar de perto a barbárie
do campo da batalha, ele deu um rosto e uma expressão
ao sofrimento. Uma imagem como a do soldado americano baleado
por alemães em Leipzig particulariza a morte e intensifica
a dimensão trágica do acontecimento.
Fotos Robert Capa
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os Robert
Capa
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A
Bolsa de Paris, um exército de mulheres na China invadida
pelo Japão e uma festa em Biarritz: mais que um fotógrafo
de guerra |
Justamente
por isso, por esse "humanismo" que perpassa a obra do início
ao fim, "fotógrafo de guerra" é uma definição
redutora demais para dar conta de sua importância. Fotos
como as do pintor Pablo Picasso na praia, do escritor Ernest
Hemingway caçando ou de uma festa em Biarritz mostram
que Capa tinha técnica, percepção e preocupação
com o equilíbrio estético da imagem suficientes
para fazê-lo figurar no panteão dos raros fotógrafos
que tornaram seu metiê uma arte. O próprio Capa,
no entanto, não ligava muito para isso. "Quem se considera
artista não consegue trabalho. Considere-se um fotojornalista
e, então, faça aquilo que quiser", aconselhou
ele ao amigo Cartier-Bresson, que disputa com ele o posto
de maior fotógrafo do século XX.
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Momentos
de glamour
Entre
os anos 40 e 50, Robert
Capa viveu tranqüilo
em Paris. Nessa
época, ele passava
as tardes no
jóquei e as noites em
grandes bailes. Foi
amigo de alguns dos
maiores artistas do
século XX

O
ator Gene Kelly (acima) e o escritor Ernest
Hemingway (à dir.): Capa foi um dos raros
fotógrafos que fizeram de seu metiê uma arte |
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| O
pintor Henri Matisse com gato e a famosa foto de
Pablo Picasso com a mulher, Françoise Gilot, e o
sobrinho ao fundo: senso de composição e humanidade |
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