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Soltinho da Silva

O ex-senador Luiz Estevão é libertado
depois de passar três noites na prisão

Alexandre Secco

Marcelo Alves/Futura Press/AE
A liberdade na sexta-feira: antes de sair, jantar com os outros presos

O senador Luiz Estevão, 50 anos, teve o mandato cassado e foi preso uma primeira vez. Na semana passada foi preso novamente, detido na Superintendência da Polícia Federal em São Paulo, mesmo edifício onde está o juiz Lalau. A dupla é acusada de desviar 169 milhões de reais durante a construção do prédio do TRT paulista. Na sexta-feira, depois de se deixar fotografar lendo livros de Leonardo Boff e José Saramago, Estevão conseguiu um habeas-corpus e pôde sair da cadeia. Antes de se retirar, pediu para jantar com os presos e deixou o prédio a bordo de um Mercedes com motorista, em companhia da mulher, Cleucy. Promotores experientes que acompanham o processo apostam que duas coisas vão acontecer no final deste caso: uma parcela pequena do dinheiro desviado vai ser recuperada e pouca coisa será provada. Desse modo, as penas serão relativamente leves. Motivo: embora se tenha detectado um desvio de 169 milhões de reais, o Ministério Público só conseguiu reunir provas de que Estevão e Nicolau movimentaram 8 milhões de reais.

A Justiça brasileira dispõe de dois mecanismos para lidar com a corrupção. Um é prender os envolvidos. O outro é tornar seus bens indisponíveis, como forma de reaver ao menos uma parte do prejuízo. A legislação dos países mais avançados nessa área oferece um terceiro instrumento de trabalho: a negociação. Em troca de informações que levem aos chefões da quadrilha ou que ajudem a recuperar o dinheiro surrupiado, o réu menos importante pode até ganhar o perdão total para seus crimes. Na Alemanha, nos Estados Unidos, Inglaterra e Itália, leis desse tipo estão em vigor. Nesses países, mais de 90% dos casos são resolvidos mediante algum tipo de acordo entre o culpado e os promotores. O Estado começou a barganhar com acusados quando as autoridades se deram conta das enormes dificuldades que envolvem o trabalho de investigação policial. Primeiro porque investigar é caro, demora demais e demanda muita gente. Depois, porque não há nada mais eficiente do que estimular um pequeno vigarista da quadrilha a delatar o chefão em troca de um benefício. Só ele sabe onde está aquele papel comprometedor, aquele documento essencial, a conta no exterior... A experiência internacional tem mostrado que, sem a delação, a investigação não avança tanto quanto poderia, tornando a vida dos réus mais tranqüila, diminuindo juntamente as chances de condenação.


Celso Junior/AE
Fazendo pose: na prisão, Estevão se deixa fotografar lendo Leonardo Boff e José Saramago


A chamada "transação criminal", como é conhecido tecnicamente esse mecanismo, suscita sérias polêmicas nos meios jurídicos. Muitos acreditam que não se pode permitir que autoridades policiais ou promotores se sentem à mesa oferecendo vantagens aos marginais. Já se disse que a história da Máfia italiana pode ser dividida em antes e depois de Tommaso Buscetta, o chefão que acabou preso no Brasil nos anos 80 e delatou seus ex-companheiros. Buscetta aceitou colaborar com a polícia em troca de perdão e proteção e ajudou a condenar mais de 400 ex-comparsas. Sozinha, a polícia não conseguiria aplicar um golpe tão forte. Nos Estados Unidos, os poderosos que atuam no mercado das finanças se lembram bem de outro caso célebre. No fim da década de 80, o governo americano suspeitava que o financista Michael Milken estava por trás de uma série de operações fraudulentas envolvendo a negociação de ações de segunda linha. Todos sabiam que se tratava de uma presa difícil. Milken não só era reverenciado no mundo das finanças como era chamado para aconselhar celebridades e políticos. Chegou a ser comparado ao legendário banqueiro JP Morgan. Para chegar a ele, os investigadores conseguiram convencer seus ex-colaboradores a revelar os segredos de suas operações. Foram colhidas pilhas de provas, e ele foi formalmente acusado de fraudes bilionárias contra o sistema financeiro. Condenado, pagou uma multa equivalente a 1,2 bilhão de reais e passou três anos na cadeia.

Em 1994, o ex-banqueiro Ângelo Calmon de Sá foi acusado de operações fraudulentas que levaram o Banco Econômico para o buraco, deixando um rombo de 2 bilhões de reais. Em quase dez anos de investigações, os promotores ainda não conseguiram reunir provas significativas para condená-lo. A defesa do banqueiro baiano sustenta que ele é 100% inocente. E ponto. Ninguém sabe quando o julgamento vai acabar. Mas muitos suspeitam como: em pizza. "Somos uma nação de santos injustiçados", ironiza um juiz acostumado com casos rumorosos. Diante dos tribunais americanos, os advogados preferem ser mais cautelosos, a fim de evitar surpresas. Eles costumam tomar a iniciativa de solicitar um acordo. Trabalha-se com a possibilidade objetiva de que sempre pode aparecer uma testemunha de última hora disposta a contar tudo. Flagrado na mentira, o réu é punido com muito mais severidade. Talvez esteja na hora de chamar os acusados para uma conversa.


Com reportagem de Patrícia Queiroz

 

 
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