O apartheid
daqui
Pesquisa
mostra que a educação
dos negros no Brasil é pior que
na África do Sul

Márcio
Pacelli, de Brasília
Fernando Vivas

Baixa
escolaridade acaba reduzindo chances de emprego
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Acaba
de sair do forno outra pesquisa sobre racismo no Brasil. Como
as anteriores, o estudo, feito desta vez pelo Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), constata a situação
de inferioridade econômica e social dos negros em relação
aos brancos no Brasil. Mas tem duas novidades desalentadoras:
a pesquisa revela que a diferença de anos de escola
entre negros e brancos ficou praticamente igual consideradas
as três últimas gerações. Ou seja:
um negro com 70 anos hoje estudou, em média, 2,2 anos
a menos que um branco da mesma idade. E um negro de 30 anos
mantém quase a mesma desvantagem em relação
ao branco de igual idade: 2,1 anos a menos de escola. A outra
novidade é que, em matéria de progresso contra
a discriminação, essa relação
coloca o Brasil atrás até da África do
Sul, onde até 1994 vigorava um feroz regime racista,
o apartheid. Na África do Sul, os negros também
estudam menos que os brancos mas a diferença
vem diminuindo de forma mais acentuada que no Brasil com o
passar do tempo. Antes, a diferença era de sete anos.
Agora, caiu para três. No Brasil, não há
queda.
A pesquisa, realizada em conjunto com a Organização
das Nações Unidas, é parte de um trabalho
que pretende diagnosticar o problema racial no país
e servir de apoio aos representantes brasileiros que vão
participar, em setembro, da Conferência Mundial contra
o Racismo, em Durban, na África do Sul. Seria até
um alento supor que os negros sul-africanos viviam uma situação
tão precária, diante das quase cinco décadas
de apartheid, que seus sucessos só podiam ser mais
vigorosos que os dos negros brasileiros. Mas nem isso é
verdade, considerando que, no Brasil, tanto os brancos quanto
os negros estudam muito pouco mesmo comparados aos
de países bem mais pobres. Na África do Sul,
um branco de 25 anos estuda, em média, doze anos, enquanto
o negro fica nove anos na escola. No Brasil, a situação
fica assim: um branco de 25 anos estuda 7,5 anos, e um negro,
5,5 anos. Conclusão: o negro sul-africano estuda muito
mais que o negro do Brasil mais até que os brancos.
É
de levar em conta que quando se fala em educação
se está falando de futuro, trabalho, salário.
"A diferença de escolaridade repercute, de geração
em geração, diretamente na diferença
salarial entre brancos e negros", explica o economista Ricardo
Henriques, o responsável pela pesquisa. Sabe-se que
a educação está entre os principais fatores
que determinam o salário de um trabalhador. Outro estudo
do Ipea mostra que, de todos os fatores que reduzem o salário
de um trabalhador negro, a educação entra com
um peso equivalente a 27% do problema e nenhum outro
dado tem impacto tão alto. "Fizemos um estudo científico
sem qualquer viés político", diz o embaixador
Gilberto Saboia, secretário de direitos humanos do
Ministério da Justiça. O difícil vai
ser convencer, com ou sem viés político, que
o Brasil está fazendo sua parte para resolver as diferenças
raciais.
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OS
NEGROS E A ESCOLA
Os dados da pesquisa do Ipea mostram que os negros da
África do Sul, apesar dos 46 anos de regime racista
do apartheid, abolido em 1994, melhoraram mais sua escolaridade
que os negros brasileiros
A ÁFRICA DO SUL AVANÇA...
Na África do Sul, os negros com 70 anos de idade
estudaram, em média, 7 anos a menos que os brancos,
mas no caso dos negros com 30 anos de idade essa diferença
cai para 3 anos
...E O BRASIL FICA NA MESMA
No Brasil, a diferença de escolaridade entre
negros e brancos com 70 anos de idade é bem menor,
de 2,2 anos. Entre negros e brancos com 30 anos, porém,
a diferença se mantém quase a mesma: é
de 2,1 anos
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