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Bel Moherdaui

Um velho conhecido, que parecia relegado ao guarda-roupa de conhecidas velhinhas, vai invadir as vitrines neste inverno: o xadrez. Criada pelos escoceses por volta do ano 300, a padronagem dos quadradinhos virou roupa chique no começo do século XX, período em que suas diversas variações ganharam nome e respeito, e desde então passou por várias reencarnações. Depois da última, na esteira dos roqueiros grunges e suas indefectíveis camisas de flanela, andava confinado ao terreno da terceira idade. Ressurgiu com furor, espalhando-se por peças que vão de calças e casacos a lingerie, camisetas, sapatos, bolsas, bonés, chaveiros, arcos de cabelo e roupinhas de cachorro. Tudo moderno ou, como se prefere no mundo da moda, repaginado. Camisa xadrez existe desde que o primeiro lenhador gritou "madeira" nas florestas dos Estados Unidos, mas a de agora, justinha no corpo, leva aplicações de cristal. Xadrezes também ilustram jaquetinhas tipo jeans, formam estampas inusitadas em blusas e vestidos e brilham em regatinhas de lurex. A prova maior do sucesso, porém, está nas esquinas, em tardes de temporal: ao primeiro pingo, surgem os camelôs com guarda-chuvas copiados da tradicional grife inglesa Burberry, a mãe dos xadrezes na moda.

Fotos André Rolim
Vestido, jaqueta, camisetas e camisa com o brilho do lurex e dos cristais: versão nova para desenho antigo

Se Burberry é a mãe, o patriarca ancestral de todos os xadrezes é o tartã escocês, um tecido feito em tear manual que combinava as cores de forma que as listras de diferentes espessuras se cruzassem, formando desenhos. Os tartãs viraram kilt, o saiote dos homens da Escócia, no século XVIII, quando a industrialização permitiu a reprodução em série das padronagens e elas passaram a ser símbolo de um clã, uma empresa, uma cidade ou região. As listras vermelhas, brancas e pretas sobre fundo bege da mais que centenária Burberry são cópia, justamente, do tartã da família do fundador – devidamente registrado na Sociedade Escocesa de Tartã. Sim, ela existe, e não pára de progredir: na virada do século XIX, eram noventa tartãs; atualmente, já são mais de 2.500 desenhos registrados, com trinta a quarenta novos padrões adicionados a cada ano. Até Madonna tem um, adquirido junto com o marido, Guy Ritchie, neto de escocês, que vestiu kilt no casamento com a cantora, em dezembro passado, em um castelo na Escócia.

Renovação – Embora aos olhos destreinados todos se pareçam, os xadrezes são muitos, e variados. Além do copiadíssimo tartã Burberry, há o vichy (criado na cidade francesa do mesmo nome, forma quadradinhos de duas cores e se imortalizou nas toalhas de mesa das cantinas), o argyle (losangos multicoloridos muito presentes em meias, cachecóis e suéteres masculinos), o príncipe de Gales (cada quadrado é composto de várias linhas), o pied-de-poule (xadrezinho mínimo, imitando a marca de um pé de galinha). A volta do xadrez está diretamente ligada à ressurreição da Burberry, que já havia recentemente tirado do museu outra peça típica da marca, o trench coat. Esse casaco impermeável usado pelos soldados ingleses na I Guerra Mundial foi transformado, em tempos de paz, em capa de chuva por excelência de homens e mulheres. Em 1924, ganhou a forma que lhe deu charme: por fora, cinza-apagado; por dentro, o tartã Burberry. Fez um sucesso tremendo e foi copiado no mundo inteiro, mas, com o tempo, cansou. Há três anos, em decadência, a Burberry seguiu o caminho das marcas agonizantes necessitadas de um sopro de vida nova e contratou um jovem estilista italiano, Roberto Menichetti. Num lance que combinou brilhantemente marketing com estilo, ele recuperou o glamour da grife. O resultado final foi o festival de xadrezes que tomou conta do Hemisfério Norte no inverno e agora desembarca, com malas e bagagens (que também podem ser xadrez), no Brasil.

 

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