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Jipão brasileiro

O Troller, uma fera feita no Ceará,
seduz os motoristas urbanos e ganha
versão requintada

Adriana Negreiros

 
Claudio Rossi
O comerciante Antônio Fidalgo com seu quarto jipe da marca: "Abandonei a Cherokee"

O Troller está tirando as rodas da lama. Das trilhas dos ralis, para as quais foi desenhado, o carro rústico fabricado no Ceará desde 1996 tem se deslocado cada vez mais para o asfalto, como é fácil constatar nas ruas de qualquer capital. Essa mudança, ditada pelos compradores, está fazendo com que ele seja também cada vez menos rústico. Os modelos 2001 têm versão com opcionais como CD player, vidros e travas elétricas, direção hidráulica, bancos de couro e até DVD, entre outros acessórios inúteis nos terrenos que combinam com o visual agressivo e a mecânica robusta de um carro feito para vencer dunas, atoleiros e caminhos pedregosos. Vendendo imediatamente cada uma das 100 unidades produzidas por mês, a maioria delas na versão mais urbana e para motoristas que jamais vão conferir pessoalmente as vantagens da tração nas quatro rodas, o veículo já ultrapassa alguns jipes importados. Em 2000, foi mais vendido que o Nissan Pathfinder e o Subaru Forester.

Mesmo com as mudanças, a maioria dos concorrentes deixa o Troller na poeira em termos de conforto, suavidade ao dirigir e avanço tecnológico. Mas ele tem dois trunfos: o exotismo e o preço. O jipe do Ceará custa entre 32.000 e 49.000 reais. Sua faixa de preço mais alta é a menor entre os importados. O Troller mais caro tem motor a diesel de 115 cavalos. Um equivalente de outra marca custa pelo menos 15% a mais. Mesmo entre quem pode pagar pelos enormes e confortáveis utilitários esportivos fabricados lá fora, há gente preferindo o jipe cearense. "Deixo encostada na garagem uma Cherokee novinha", conta o comerciante paulista Antônio Ermírio Fidalgo, de 44 anos, que está em seu quarto Troller. Um diferencial adotado pela empresa para agradar ao consumidor é o catálogo de cores. Pode-se pintá-lo de acordo com a escolha do cliente, sem acréscimo nenhum, se não houver aumento na quantidade de tinta. Rosa-choque? Sim. Já há pelo menos um circulando por aí com essa cor.

A fábrica cearense investe em dois caminhos para popularizar seu carro. Empresta veículos para produções de TV e põe o jipe para correr nas grandes provas de rali. Um Troller chegou em segundo lugar neste ano no lendário Paris–Dacar. Outros venceram o Rally dos Sertões do ano passado e provas como a Copa Dunas, a Baja Brasil e a Fenajipe. O jipe está em segundo lugar, atualmente, no mundial off-road. Nessa onda de sucesso, a empresa já soma 1.700 unidades vendidas, fatura 60 milhões de reais por ano, dá emprego a 350 pessoas e usa dezenas de componentes desenvolvidos exclusivamente para o carro. Quando ele começou a ser fabricado, eram quinze funcionários usando peças adaptadas de outros veículos. Mesmo crescendo, os empresários mantêm-se, por enquanto, longe dos sonhos pouco prudentes que anos atrás levaram à lona a fábrica de jipes do empresário paulista João Conrado do Amaral Gurgel. Ele alcançou relativo sucesso com um jipinho que carregava seu sobrenome. Mas pulverizou poupanças alheias no momento em que quis abrir o capital de sua companhia para enfrentar as multinacionais de igual para igual.

 

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