O melhor
do melhor
Como
o Guia Michelin consegue diferenciar
o ótimo do excelente na culinária francesa
Tatiana
Chiari
Anualmente,
os críticos do Guia Michelin avaliam os melhores
restaurantes da França, concedendo a cada um deles
cotações que vão de uma a três
estrelas. Esse ranking serve de referência mundial de
qualidade e costuma elevar aos píncaros da fama os
nomes que recebem a nota máxima. Ao mesmo tempo, pode
manchar a reputação de muitos cozinheiros badalados.
A nova edição do Michelin, que começou
a circular neste mês, trouxe duas grandes surpresas.
O mais genial chef dos últimos tempos, Alain Ducasse,
saiu chamuscado. Ele era o único a ostentar duas vezes
a cotação máxima, em dois restaurantes
diferentes no mesmo ano. Na última edição
do guia, um desses estabelecimentos, o Le Louis XV, perdeu
uma estrela. Ducasse, portanto, "só" tem cinco estrelas
agora que horror! Foi substituído na posição
de chef mais estrelado do momento por um conterrâneo,
Marc Veyrat, que possui dois restaurantes. Ambos os endereços
receberam a cotação máxima do Michelin.
Além da fama instantânea, uma boa posição
no ranking é garantia de mesas cheias. Da noite para
o dia, o movimento de uma cozinha que sai do patamar de duas
para três estrelas aumenta em 40%. As casas de Veyrat
só estão aceitando reservas a partir do final
de abril. Uma refeição nesses locais não
custa menos que o equivalente a 260 reais por cabeça
sem contar o vinho.
Definir a diferença de qualidade entre um restaurante
francês de duas e um de três estrelas não
é tarefa para paladares leigos. O guia conta com um
time de especialistas que freqüenta regularmente os estabelecimentos.
Eles nunca se identificam e sempre pagam a conta como qualquer
cliente comum. Em cada visita, checam o sabor, a temperatura
e a apresentação dos pratos. Conferem também
o ambiente, a limpeza e o serviço dos estabelecimentos.
Essa rodada de avaliação é repetida três
ou quatro vezes por ano. Para os especialistas do Michelin,
de nada adianta o chef oferecer um jantar inesquecível
e, no outro dia, salgar o tempero da comida na hora do almoço.
"A marca das grandes cozinhas é a qualidade constante",
afirma o francês Laurent Suaudeau, um dos mais respeitados
chefs em atuação no Brasil.
Como o ranking Michelin não é uma lista
no estilo "dez mais", as avaliações feitas aos
chefs são sempre independentes. Não se trata
de um embate entre a caldeirada de abobrinha, um dos carros-chefes
da cozinha de Ducasse, e o "último peixe pescado no
lago servido com a criatividade do momento", especialidade
do cardápio de Veyrat. Os críticos nunca comparam
as cozinhas. As estrelas são distribuídas segundo
o brilho individual de cada uma. Nas melhores cozinhas francesas
comenta-se que a perda da estrela do Le Louis XV foi um puxão
de orelhas na megalomania de Ducasse. Depois de ficar famoso,
o cozinheiro passou a comandar casas em Mônaco, Tóquio,
Nova York e nas Ilhas Maurício, entre outros lugares.
De acordo com os especialistas, é impossível
controlar a qualidade de tantos estabelecimentos. Apesar de
ser proprietário de dois restaurantes, Veyrat adotou
uma sábia medida não os mantêm
funcionando ao mesmo tempo. Um abre no inverno e o outro,
no verão.
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