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Eles fazem dinheiro em casa

Jovens descobrem o home broker, que
permite investir em ações pela internet, e
fazem do quarto uma corretora de valores

Neide Oliveira

Claudio Rossi
Antonio Milena
Em dois anos, Raphael (à esq.) multiplicou por dez os 5 000 reais emprestados pelo pai. Em São Paulo, os irmãos Marcelo e Thiago de Carvalho fazem negócios via computador com uma instituição da qual nem mesmo conhecem o endereço

O estudante Raphael Bettin, de 18 anos, ex-campeão paulista de jiu-jítsu, já golpeou e venceu muitos adversários no tatame. Atualmente, ele continua lutando, mas a vitória equivale a encher o bolso de dinheiro, os golpes têm de ser estudados com muito mais cuidado e o cenário é a tela de alguns computadores. Bettin aderiu à onda do operador doméstico (não use essa expressão em português na frente deles. Diga home broker, como fazem os gerentes pedantes que enfiam cacos em inglês em seu português claudicante). Simplificando, o home broker é um sujeito que negocia ações pela internet. O sistema que permite essa operação foi implantado em março de 1999 pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Desde então, o mercado de capitais on-line já foi utilizado por mais de 30 000 investidores, com um total de transações na casa dos 200 milhões de reais por mês. Cerca de 30% desses aplicadores via internet (atenção, chame-os de players que eles vão adorar) são jovens com idade entre 16 e 29 anos. "Com a ajuda da rede, a bolsa de valores está deixando de ser encarada como um bicho-de-sete-cabeças", diz Waldir Corrêa, presidente da Associação Nacional dos Investidores do Mercado de Capitais.

Oscar Cabral

A carioca Carolline Cupello começou no simulador, aprendeu os truques do mercado de capitais e agora administra a carteira de investimentos dos colegas de trabalho

Raphael Bettin foi um dos primeiros jovens do país a navegar na bolsa virtual. Com o incentivo do pai – que lhe emprestou 5 000 reais –, deu a primeira tacada no mundo dos negócios aos 16 anos. Começou comprando 1 000 reais em ações do grupo Gerdau. O lucro de 10% em duas semanas o entusiasmou. Comprou 2 500 reais em papéis da Tele Centro Sul. Dois meses depois, Bettin tinha dobrado o capital. Tem agora 50 000 reais em ações e tornou-se corretor de aplicações financeiras do pai. Já é o que se pode chamar de investidor arrojado, com negócios também na Bolsa de Mercadorias e Futuros, onde se negociam opções de compras de produtos agropecuários. Largou a faculdade de economia e transformou o quarto num escritório, com dois computadores, duas linhas telefônicas e um aparelho de TV sintonizado nas informações financeiras. "Tenho de estar bem informado, pois o mercado é arisco e volátil", ensina, como um calejado operador de pregão.

O mercado virtual de ações proporciona o ingresso de mortais comuns num negócio antes restrito a profissionais do ramo ou ricos desocupados. O interessado só precisa cadastrar-se no site de uma corretora credenciada pela Bovespa para ter acesso ao pregão. Sem intermediação, o investidor compra e põe à venda seus papéis por meio do computador. Com 100 reais, já se pode começar. Quase trinta corretoras têm sites na internet, cada um mais didático que o outro. Além de dar acesso às operações, eles ensinam o bê-á-bá do mercado, informam sobre empresas e ações e promovem chats com especialistas. Alguns oferecem até simuladores, para que os novatos treinem antes de arriscar dinheiro vivo. A publicitária carioca Carolline Cupello, de 22 anos, começou a carreira de investidora on-line num simulador da InvestShop, corretora do grupo Bozzano. Só depois de afinar a performance entrou no pregão de verdade. Hoje, administra uma carteira de 12 000 reais, com recursos próprios e de quatro colegas.

Investir em ações é rotina para cidadãos do Primeiro Mundo. Nos Estados Unidos, 60% das famílias têm ações, e a maioria delas já usa a internet para mandar suas ordens de compra e venda. "Lá, a queda da bolsa é assunto na mesa do jantar", diz o analista de investimentos Manfred Back, coordenador do curso de economia da universidade paulista Nove de Julho. Pesquisa recente da corretora Merrill Lynch revela que 12% dos americanos entre 12 e 17 anos têm ações. São 3 milhões de jovens. Essa febre chegou ao máximo quando a bolsa que negocia ações de empresas de tecnologia, a Nasdaq, batia todos os recordes. No final de 1999, o lançamento de papéis de um site de produtos para cães e gatos rendeu 90 milhões de dólares em poucos dias. Muitos se lançaram nesse negócio como quem joga num cassino. E a maioria perdeu como num cassino.

A quebradeira de empresas da internet pôs um freio na jogatina, mas isso tem pouca relação com a ação dos melhores home brokers. Como operadores de carne e osso, eles ganham com a compra e venda de oportunidades, e não porque os índices do mercado sobem ou descem. Raphael Bettin passa até dezoito horas navegando em sites de análise econômica. Os mais empenhados estudam os balanços das companhias, assinam os informativos mais atualizados, vivem entre gráficos e projeções. A MTV deles é o canal financeiro Bloomberg, que tem 35% de seu público no Brasil na faixa etária até 29 anos. A privatização trouxe as linhas telefônicas necessárias à atividade. Agora a garotada está fazendo sua parte, entrando com a ousadia. Há quatro meses, os irmãos Marcelo e Thiago de Carvalho retiraram as economias da poupança e compraram 1 500 reais em ações da Usiminas, da Brasil Telecom e da Aracruz Celulose. Lucram 3% em média a cada negócio. "Estudamos o portfólio das empresas e temos estratégias bem definidas", informa Thiago, do alto de seus 20 anos, mesmo sem saber onde fica a Bovespa. "Com a vantagem de que podemos operar de camiseta e bermuda."

 
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