Um rolo no porto
Um processo de separação fala de
caixinha
e,
no meio, surge o nome de Michel Temer
Rudolfo
Lago, de Brasília
O
deputado Michel Temer, do PMDB paulista, passou quatro anos na presidência
da Câmara em Brasília e saiu do cargo sem carregar
atrás de si as suspeitas que hoje cercam boa parte da cúpula
de seu partido. Na semana passada, em vista da folha de bons serviços
que Temer sempre carregou, ele estava preocupado com a inclusão
de seu nome num processo judicial registrado na 3ª Vara de
Família e das Sucessões, em São Paulo. Na minuta
do processo, à qual VEJA teve acesso, Michel Temer aparece
como se fizesse parte de uma tróica clandestina, que rateia
entre si pagamentos de propinas arrancadas de empresários
que lidam com o Porto de Santos, no litoral paulista. Segundo a
denúncia escrita no processo, a sociedade é formada
por Marcelo de Azeredo, que por três anos presidiu a Companhia
Docas do Estado de São Paulo (Codesp), entidade responsável
pela administração do Porto de Santos, pelo deputado
Michel Temer e por uma terceira figura, citada apenas como "um tal
de Lima". Há seis neg&s no processo
nos quais a divisão do butim é sempre na mesma proporção:
25% para Azeredo, 25% para o tal de Lima e 50% para Michel Temer.
O processo da 3ª Vara de Família menciona o nome de
Michel Temer à margem do verdadeiro assunto da disputa. A
papelada trata de uma separação litigiosa entre Marcelo
de Azeredo e Erika Santos, uma estudante de psicologia que tenta,
na Justiça, obter uma pensão de 10.000 reais mensais
do ex-companheiro. De início, seus advogados historiam a
relação de ambos, de modo a caracterizar que havia
entre eles uma "união estável", que durou três
anos. Falam de viagens, festas familiares, bilhetes e cartões
de juras de amor. Em seguida, com o intuito de provar que Azeredo
tem condições de pagar a pensão, a minuta do
processo narra a vida financeira do réu de modo a caracterizá-lo
como um homem rico, mesmo ganhando um salário que mal passa
da metade da pensão pretendida pela ex-mulher. É aí
que ela revela um esquema de propina no porto de que o ex-companheiro
se beneficiaria.
Na minuta do processo, os advogados da mulher informam que boa parte
do patrimônio de Azeredo não está em seu próprio
nome porque "o grosso dos recursos vem de caixinhas e propinas"
que recebeu quando presidia a Codesp, cargo que deixou em maio de
1998. Diz, por exemplo, que Azeredo colocou seu Porsche, modelo
Carrera, ano 1997, no nome de uma irmã. Um apartamento, em
São Paulo, consta como se fosse do pai e da mãe de
Azeredo. Seu Mercedes-Benz, adquirido em 1998, aparece no nome apenas
do pai. Em seguida, a ação demonstra as fontes de
renda invisível e aí começa a detalhar
o suposto esquema de propinas. Diz que a empresa Libra, por exemplo,
que ganhou a concessão dos terminais 34 e 35 do Porto de
Santos, brindou a tróica com 1,28 milhão de reais.
Azeredo ficou com 320.000, o tal Lima com outra parcela do mesmo
valor e Michel Temer com 640.000. Ao relatar esse negócio,
o processo remete para um dos anexos, o de número 83.
VEJA também teve acesso ao anexo. Ali, aparecem os detalhes
da propina da Libra e também de outros cinco negócios,
todos, aparentemente, envolvendo o Porto de Santos. Para se municiar
dessas informações, Erika Santos entrou no computador
pessoal de Azeredo e copiou as planilhas de controle da divisão
do dinheiro. É a cópia dos dados do computador que
compõe o anexo 83. Lê-se, ali, que as obras civis do
terminal de grãos e do terminal ferroviário do Porto
de Santos resultaram no pagamento de uma propina assim repartida:
780.000 reais para Azeredo, a mesma quantia para o tal de Lima e
1,56 milhão de reais para Temer. Nessa planilha, Marcelo
de Azeredo sempre aparece como "MA", Michel Temer como "MT" e o
tal de Lima apenas com um "L".
Em outro negócio, aparentemente relacionado ao lixo do porto,
a planilha sugere que se trata de uma propina mensal. No caso, de
26.750 reais para MT e de 13.130 reais para cada um dos outros dois,
MA e L. Há uma transação, cuja natureza não
é especificada, na qual a empresa Rodrimar desembolsa 600.000
reais. Na lista do computador, consta que Michel Temer ficou com
a metade, 300.000 reais, e os outros receberam 150.000 reais cada
um. Ao lado das iniciais de Temer, aparece a observação:
"+ 200.000 p/ camp", que os advogados, na minuta do processo, afirmam
tratar-se de 200.000 reais para a campanha eleitoral do deputado.
Essa contribuição não consta da prestação
oficial de contas que Temer entregou à Justiça Eleitoral
referente ao pleito de 1998. Indignado com as acusações
de que foi vítima e que já circulam há tempos
na área de Santos, o deputado Michel Temer conta que nunca
se envolveu com Marcelo de Azeredo. Para começar, não
o nomeou. Disse que, ainda no primeiro governo, o presidente FHC
avisou-o de que entregaria o comando do Porto de Santos ao PMDB
e informou que o nome que lhe haviam indicado era o de Marcelo de
Azeredo. "Eu nem conhecia. Consultei a bancada, que não apresentou
objeção, e aí o Azeredo foi nomeado", conta
Temer. "Nunca tive nenhuma interferência na carreira desse
rapaz, e quando esses rumores surgiram em Santos, procurei o ministro
dos Transportes (Eliseu Padilha) e pedi que Azeredo fosse substituído
porque os comentários estavam prejudicando meu nome. Padilha
tirou a diretoria e pôs outra e tudo foi feito a meu pedido",
diz Temer.
O deputado afirma que soube do conteúdo do processo há
uma semana. Por meio de um amigo comum, procurou Azeredo. "Isso
me embaraça", declarou Temer. Em seguida, o deputado disse
que não lhe interessava a natureza da relação
de Azeredo com Erika, mas que se o assunto viesse a público
ele, Temer, entraria com uma queixa-crime contra a mulher. Azeredo
informou, então, que estava prestes a fechar um acordo. Talvez
tenha até conseguido. Há duas semanas, Erika Santos
destituiu seus dois advogados na expectativa de um acordo. Na segunda-feira
passada, ela comunicou ao juiz da 3ª Vara da Família
que estava desistindo do processo. Mas nem todo o processo poderá
ser arquivado. Pela lei, sempre que um juiz, no corpo de um processo,
achar indícios de um outro crime qualquer como caixinhas
ou propinas deverá enviar o material ao Ministério
Público.
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