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O crime de JK

Ilustração Pepe Casals

Encomendaram a Oscar Niemeyer um templo da Igreja Universal em Niterói. Como arquiteto, Niemeyer topa qualquer parada. Já projetou igreja católica em Belo Horizonte e mesquita em Argel, universidade em Haifa e cassino na Ilha da Madeira, terminal rodoviário em Londrina e assembléia legislativa em Vitória, passarela do samba no Rio de Janeiro e estádio de rodeio em Barretos, monumento em homenagem ao MST no Pará e escultura para Fidel Castro em Havana. Estes últimos constituem um perfeito exemplo do engajamento de Niemeyer, que chegou a declarar: "Nunca dei à arquitetura demasiada importância. Voltei-me para a vida, interessado nos problemas sociais, na emancipação econômica e política do meu país, na luta contra a miséria e a ignorância".

Ironicamente, nenhum fator contribuiu tanto para aumentar a miséria e a ignorância do Brasil quanto a principal obra de Niemeyer: Brasília. No caso, porém, é injusto atribuir-lhe toda a culpa. Ele foi um mero executor. O mandante do crime tem outro nome: Juscelino Kubitschek. É revelador de nosso atraso que JK ainda seja considerado um modelo de governante. Difícil imaginar algo que tenha causado mais danos ao Brasil que sua retórica populista de "crescer cinqüenta anos em cinco". Teria sido muito melhor crescer cinco anos em cinqüenta. JK administrava o país com a mentalidade provinciana de um prefeito de Belo Horizonte, acreditando que a riqueza pudesse ser criada artificialmente pelo Estado, através do aumento descontrolado dos gastos públicos. Seu governo construiu estradas, metalúrgicas e hidrelétricas. A seguir, também construiu Brasília, a mais cara e inútil de suas obras. O resultado desse descalabro econômico foi o crescimento de 64% da dívida externa. O déficit de caixa pulou de 1% do PIB para 2,6%. A taxa inflacionária dobrou, atingindo o maior nível desde 1890. Os impostos elevaram-se 16%, sobretudo para cobrir o custo das monstruosidades arquitetônicas de Brasília. Os nostálgicos de JK costumam rebater que, durante seu mandato, o PIB cresceu uma média de 8,1% ao ano. Mas é um dado enganoso. A renda per capita do Brasil, calculada em dólares, subiu apenas 7% entre 1956 e 1960. No mesmo período, a dos Estados Unidos subiu 11%. A do México, 16%. A de Taiwan, 18%. A do Japão, 34%.

Bem que o Fundo Monetário Internacional tentou salvar-nos do delírio desenvolvimentista de JK. Em 1958, ofereceu-nos um empréstimo de 200 milhões de dólares, com a condição de que o governo segurasse os salários e cortasse os gastos públicos. Não funcionou. JK continuou a gastar, e o FMI, justamente, recusou-se a conceder o empréstimo. Os brasileiros sempre foram muito ingratos com o FMI. Seus pacotes já nos livraram da insolvência inúmeras vezes. Além disso, seus técnicos tentaram impedir – inutilmente – as maiores bobagens que nossos governantes cometeram nas últimas décadas, das obras faraônicas dos militares aos privilégios da nova Constituição, da moratória de Sarney ao confisco de Collor. Se tivéssemos cumprido todas as cartas de intenções que o FMI nos obrigou a assinar, hoje em dia seríamos infinitamente menos miseráveis e ignorantes. Niemeyer dedicou um memorial a JK em Brasília. Teria sido melhor dedicá-lo ao FMI.

 

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