Frustrada
e feliz
A autora lamenta a baixa audiência
de Os Maias,
mas comemora a qualidade da série, um marco
na teledramaturgia brasileira
Carlos
Graieb
Claudio Rossi
 |
"Fiz
alteração de
peso no final
da série.
O
espectador anda
sedento de
bons exemplos éticos"
|
Maria
Adelaide Amaral vive uma contradição: está
desapontada e, ao mesmo tempo, satisfeita. Ao longo de vários
meses, a escritora e dramaturga trabalhou num dos projetos
mais ambiciosos já feitos na televisão brasileira
a adaptação para a Rede Globo do romance
Os Maias, obra-prima do português Eça
de Queiroz. Apuradíssima no texto e no visual, a
série, que termina na próxima sexta-feira,
deixou no entanto de cativar a massa. Sua média de
audiência é de 14 pontos, menos da metade do
esperado. Daí a frustração. A contrapartida
vem da constatação de que a série atingiu
momentos de beleza e sofisticação nunca vistos
na TV brasileira. Nascida em Portugal há 58 anos,
Maria Adelaide mudou-se para São Paulo com a família,
ainda criança. Foi operária, balconista, escriturária
e pesquisadora da Editora Abril (que publica VEJA). Escreveu
peças de teatro e livros o mais recente, O
Bruxo, inspirado no câncer que teve. Para a TV,
assinou a bem-sucedida adaptação de A Muralha.
"Nunca me passou pela cabeça fazer teledramaturgia
para uma elite", disse ela nesta entrevista.
Veja
A teledramaturgia brasileira é bastante
consagrada. O que contribuiu para o surgimento dessa boa
linhagem de autores de novela?
Maria
Adelaide
Acho que o que distingue os melhores teledramaturgos
brasileiros é o fato de possuírem raízes
em áreas da chamada "alta cultura". Aguinaldo Silva
era contista, assim como Doc Comparato. Dias Gomes fazia
teatro, mesmo caso de Lauro César Muniz. Manoel Carlos,
que eu considero o nosso Tchekov, pela visão profunda
que tem da vida cotidiana, sempre foi um leitor e um autor
refinado de poesia. Enfim, são pessoas com bagagem
cultural respeitável. Isso transparece quando você
compara a produção brasileira com a dos outros
latinos e mesmo com as soap-operas, as novelas americanas.
A novela brasileira forma um capítulo à parte
na televisão mundial.
Veja Eles seriam então os autores de
uma boa literatura de massa, de uma literatura de entretenimento
que, segundo o crítico e poeta José Paulo
Paes, fazia falta ao Brasil?
Maria
Adelaide
José Paulo Paes tinha razão. O escritor brasileiro
padece da doença da genialidade. Ele só pega
a caneta para criar supostas obras-primas. Mas são
os autores médios, dispostos a comunicar-se com um
grande público, que sustentam uma indústria
cultural. E numa indústria cultural pujante é
bem mais fácil o autor experimental eventualmente
encontrar seu espaço e seu público. O cinema
brasileiro padeceu por muitos anos do mesmo problema. Faltaram
filmes despretensiosos, menos imbuídos da obrigação
de ser geniais. Só agora isso está mudando.
Veja O final de Os Maias reserva alguma
surpresa?
Maria
Adelaide
Sim, eu fiz uma alteração de peso. No livro,
Carlos Eduardo vai para a cama com Maria Eduarda diversas
vezes, mesmo depois de descobrir que ela é sua irmã.
Não tem coragem de lhe revelar o terrível
segredo, por isso pede ao amigo João da Ega que lhe
conte tudo e a despache para a França. É um
final cruel, ainda que consistente com o propósito
de Eça, que era o de retratar uma sociedade tíbia,
corroída pelo ócio. Resolvi alterar esse final
perturbador numa concessão à lógica
da teledramaturgia. Com um Carlos Eduardo tão fraco,
o espectador, que anda sedento de bons exemplos éticos,
se sentiria traído, abandonado pelo herói
por quem torceu. E torceu mesmo, porque Fábio Assunção
representou o seu papel com um ar de dignidade e retidão
de caráter que o personagem do livro não possui.
Por isso, em minha versão, os dois irmãos
só sucumbem à tentação uma vez.
Depois disso, Carlos Eduardo é atingido em cheio
pela repugnância de seu ato e toma as atitudes que
um homem de fibra tomaria. A cena final da série
é uma das mais belas que já escrevi.
Veja Essa mudança vem se juntar a outras,
que foram muito criticadas. A senhora acha que cometeu algum
excesso na adaptação?
Maria
Adelaide
Se eu e minha equipe cometemos algum pecado, foi ser extremamente
reverentes com a obra de Eça. Nenhuma das alterações
é relevante se comparada com a fidelidade com que
seguimos a história e seu espírito, e todas
se justificam do ponto de vista da dramaturgia. Eu cortei
alguns personagens, ampliei a participação
de outros e até incluí na trama figuras dos
livros A Relíquia e A Capital, o que
deixou muitos queirozianos de cabelo em pé. Entre
os personagens que eliminei, por exemplo, está o
Conde de Steinbroken, que tem uma função anedótica
em Os Maias, mas não contribui em nada para
a ação. Quanto ao núcleo de personagens
que extraí de A Relíquia, estou com
a consciência tranqüila. Ele faz muito sucesso,
diverte as pessoas. Os queirozianos me diziam: por que introduzir
essa gente se a matéria cômica de Os Maias
já é tão rica? Mas seu humor é
refinado demais, requer conhecimentos da história
de Portugal que nem os portugueses dominam hoje em dia.
Essa espécie de ironia é quase inacessível
ao público de televisão.
Veja Por que a audiência de Os Maias
foi baixa?
Maria
Adelaide A
maior falta de sorte foi não conseguirmos editar
o primeiro capítulo da maneira necessária.
O programa que foi ao ar não foi o mesmo que escrevi.
Eu redigi seis blocos, mas as pessoas viram apenas dois.
Isso desorganizou a dramaturgia da série. Mas não
se pode apontar culpados. Todos fizeram o melhor, todos
queriam atingir um vasto público. A emissora investiu
alto numa produção como nunca se viu na TV
brasileira. Seria uma injustiça, por exemplo, responsabilizar
Luiz Fernando Carvalho, que dirigiu o programa. Dizem que
a vocação dele é mais cinematográfica
que televisiva, e isso é verdade. Mas sob todos os
aspectos ele fez um programa belíssimo. Eu me frustrei
com a baixa audiência, não com aquilo que eu
vi na tela, que é de uma beleza rara.
Veja O ibope está sempre em sua mente
quando escreve para a televisão?
Maria
Adelaide
É um dado importante. Nunca quis fazer teledramaturgia
para uma elite. Minha ambição é fazer
produtos de alta qualidade que atinjam várias pessoas.
Para A Muralha, por exemplo, não me limitei
ao livro de Dinah Silveira de Queiroz. Eu adoro pesquisar
e fiz leituras extensas sobre a história paulista.
Também empreguei uma linguagem difícil, que
trazia o sabor de outras épocas. E nem por isso a
audiência foi baixa. Quem poderia dizer que A Muralha
faria sucesso? O próprio Daniel Filho, diretor
do núcleo de produção do programa,
dizia que aquele era um produto de risco. Escrevi Os
Maias com o mesmo espírito, também pesquisando,
também usando um linguajar elaborado. Não
subestimo o espectador e, sinceramente, não achava
que houvesse riscos desta vez.
Veja A senhora, hoje, atribuiria a pequena
audiência da série a características
da própria obra de Eça? Ele ficou datado?
Maria
Adelaide
De jeito nenhum. Ele é agradabilíssimo, é
absolutamente moderno.
Veja Eça ou Machado de Assis?
Maria
Adelaide
É muito mais fácil adaptar a obra do Eça
para a dramaturgia, porque ele fazia concessões ao
folhetim, enquanto o Machado de Assis não. Mas, do
ponto de vista literário, eu acho que essa é
uma questão fastidiosa. Os dois são mestres
da língua, têm estilo único e são
importantes para as literaturas de seus respectivos países.
Para que comparar alhos com bugalhos?
Veja O que a senhora diria aos que afirmam
que Machado aprendeu tudo com Eça, ou aos que dizem
o contrário que Machado foi melhor que o português?
Maria
Adelaide
Eu diria que existe, nos meios acadêmicos, a tendência
a discutir sempre os mesmos temas e os mesmos autores. Há
muita coisa a dizer sobre a história cultural e literária
do Brasil. O Ruy Castro, por exemplo, acaba de focalizar,
em seu novo livro, o grupo que vivia em torno do poeta Olavo
Bilac. São figuras interessantíssimas, como
Paula Ney, Artur Azevedo e Emílio de Menezes. Mas
o Ruy Castro é jornalista, e fez isso num livro de
ficção. Por que os acadêmicos não
se debruçam sobre essas coisas? Por que ficar conhecido
apenas como queiroziano ou machadiano?
Veja A senhora é católica praticante.
Vivendo entre intelectuais, em algum momento da vida sofreu
patrulha ideológica por causa disso?
Maria
Adelaide
Nunca. Até porque, nos anos 60 e 70, quando isso
talvez fosse possível no meio intelectual de esquerda,
eu fiquei afastada da religião institucional. Eu
era comunista. Eu não ia à igreja. Mas, no
fundo, nunca perdi a fé. Mesmo minha adesão
ao comunismo era uma espécie de fé, segundo
outro catecismo. E vou lhe contar um segredo: jamais deixei
de rezar para o anjo da guarda.
Veja Seu novo livro fala muito de astrologia.
A senhora acredita nos astros?
Maria
Adelaide
Quem acredita em astrologia está muito bem acompanhado.
Leonardo da Vinci e Fernando Pessoa, por exemplo, acreditavam.
Eu sou adepta. Os padres de minha igreja não gostam
nada dessa história, mas o que posso fazer? A sedução
pelo mistério é uma coisa humana.
Veja A senhora lê Paulo Coelho e outros
esotéricos?
Maria
Adelaide
Prefiro que leiam Coelho a Sidney Sheldon. Pelo menos é
um brasileiro. Mas não tenho afinidade nenhuma com
ele. Detesto todo tipo de literatura esotérica. De
modo geral, é literatura de baixo nível. Só
a astrologia se salva para mim. Ao longo dos anos, comprovei
que ela tem fundamentação.
Veja Cite alguma.
Maria
Adelaide
Um astrólogo previu meu câncer. Ele me disse:
"Você tem um nódulo no seio esquerdo. Vá
ao médico quanto antes". Eu fui, e era verdade. Meses
depois ele fez a mesma afirmação a uma de
minhas amigas, e mais uma vez estava certo. A primeira pessoa
que fez meu mapa foi um amigo escritor, o Caio Fernando
Abreu. Ele me disse que eu ficaria conhecida e também
tinha razão.
Veja A senhora se submeteu a um tratamento
bem-sucedido contra o câncer. Qual a carga simbólica
que a doença carrega hoje em dia?
Maria
Adelaide
A doença que tive me atingiu no seio. O seio é
aquilo que uma mulher tem de mais feminino, é o órgão
da nutrição. Nesse sentido, foi um baque.
Mas acho que cada vez menos o câncer está investido
daquela carga sombria. Eu fazia radioterapia à noite,
me encontrava com muitas pessoas que tinham tumores e trabalhavam.
Ninguém se sentia estigmatizado, estavam todos lá
na sala de espera do hospital conversando, tocando a vida.
Não vivíamos numa atmosfera de tragédia.
Além disso, tive sorte. Meu câncer era leve
e teve diagnóstico precoce. Eu não precisei
extrair o seio inteiro. Minha vida afetiva e sexual continuou
igual depois da doença, ou até melhor, porque
tudo ficou mais claro em minha vida, inclusive os afetos
e as amizades. Minha experiência com a doença
está em boa parte descrita no romance O Bruxo.
Também me considero uma pessoa de sorte por isso:
fui capaz de transformar essa miséria em literatura.
Veja Nos últimos anos, no teatro e na
literatura, a senhora se aproximou dos temas femininos,
o que nem sempre foi uma característica de sua obra.
Por quê?
Maria
Adelaide
Porque as mulheres ficaram mais interessantes. O trabalho
as transformou. Nas últimas décadas, o desemprego
começou a ameaçar as famílias. Enquanto
os homens ficavam em casa, mergulhados na depressão,
as mulheres foram para a vizinhança vender empadinha,
depois foram se educar, depois entraram com força
no mercado de trabalho. As mulheres não haviam sido
preparadas para enfrentar o mercado, mas se mostraram inventivas
e responderam aos desafios com muita rapidez.
Veja A mulher que fica em casa cuidando dos
filhos não é uma pessoa interessante?
Maria
Adelaide
A questão não é essa. A questão
é que cada vez menos você tem esse tipo de
mulher. Mesmo o casamento não é mais uma instituição
eterna.
Veja Uma de suas principais peças, Bodas
de Papel, fala sobre o mundo dos executivos. É
um tema raro. Por que os autores brasileiros têm tanta
dificuldade para falar do mundo dos negócios e do
mundo dos ricos?
Maria
Adelaide
Eu falei dos executivos porque era casada com um executivo
de multinacional. Na primeira leitura que fiz da peça,
um amigo escritor ficou escandalizado. Ele disse: "Mas essa
gente não me interessa. Eu não vou pagar um
ingresso de teatro para ver isso". Essas pessoas não
parecem interessantes ao meio intelectual brasileiro. E
o intelectual brasileiro conhece muito pouco as classes
altas. De modo geral, mete os pés pelas mãos
quando tenta retratá-las. O Gilberto Braga, na televisão,
é uma das poucas exceções.
Veja No ano passado houve muita polêmica
em torno da novela Laços de Família,
por ela tratar de assuntos como prostituição
e por trazer atores infantis. As novelas são uma
má influência?
Maria
Adelaide
As novelas refletem a realidade. É como aquela história
do pintor Pablo Picasso. Os nazistas visitaram seu ateliê
durante a II Guerra Mundial e, diante do quadro Guernica,
que retrata o horror da guerra, perguntaram: "Foi você
que fez isto?". E ele respondeu: "Não, foram os senhores".
Na verdade, os melhores autores de novela têm usado
a teledramaturgia para estimular a vida cívica, não
o contrário. Todos nós temos usado a televisão
para veicular boas mensagens e até campanhas. Na
novela, isso tem muito resultado, porque pega o espectador
pela emoção. É mais efetivo que um
slogan político ou publicitário. Você
mobiliza o corpo e a alma das pessoas.