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Sérgio Abranches

Aparências que
não enganam

"O clima de belicosidade permanece, o máximo a que
as forças governistas chegaram
foi um equilíbrio armado,
baseado
em ameaças recíprocas de retaliação"


Ilustração Ale Setti


Em política, às vezes, as aparências não enganam. Quando se olha o clima e a movimentação na chamada base de sustentação do governo, o que se vê são nuvens pesadas e movimentos desencontrados. Será que, por baixo das aparências, a crise já se dissipou, a coalizão governista se recompôs e tudo voltou a ser como antes?

Neste caso, as aparências não enganam. O clima de belicosidade permanece, o máximo a que as forças governistas chegaram foi um "equilíbrio armado", baseado em ameaças recíprocas de retaliação. Os ataques não cessaram e novas frentes de confronto estão sendo abertas. Daí as dificuldades para manterem os acordos para indicação dos presidentes de comissões no Congresso e a persistência de um ambiente de suspeita generalizada. Os efeitos da crise não se esgotaram. Novas repercussões ainda podem aparecer, sob a forma de ondas mais sutis, mas que podem levar a reacomodações significativas nas placas sedimentares do sistema de governança do país.

Esses atos de hostilidade, além de ameaçarem sempre uma nova escalada do conflito, ainda que localizado – caso típico desse cenário de "guerra fria" –, mantêm alta a tensão política e alimentam rumores que dificultam o apropriado funcionamento do Congresso. Há sempre a chance de que novos fatos ou factóides repercutam na mídia e na opinião pública, podendo levar a ciclos recorrentes de paralisia decisória e ameaçando atingir a reputação e a credibilidade do governo.

A primeira onda de choque da crise, que começou na sucessão das mesas do Congresso, está perdendo intensidade. O PFL já reacomodou o senador Antonio Carlos Magalhães e se realojou no governo. Em ambos os casos as soluções são menos confortáveis que a situação anterior. O governo apresentou uma agenda que, se não serve para curar e cimentar as fraturas na coalizão, dá mais foco e clareza a suas intenções para os próximos dois anos. Mas houve uma mudança qualitativa definitiva nas condições de governança. As relações entre várias lideranças políticas ultrapassaram o limite do retratável. É o caso do presidente Fernando Henrique com o senador Antonio Carlos e deste com o senador Jader Barbalho. Os três partidos da chamada base de sustentação passaram por mudanças significativas nas últimas semanas, que alteram a lógica e a dinâmica da ação partidária, em relação ao período anterior à crise.

O PFL, além de ter ficado mais fraco na relação com o PSDB e o PMDB, ao perder o comando de uma das Casas do Legislativo, tem agora uma dissidência interna comandada por ACM, um dos cardeais de seu antigo triunvirato. O PMDB, por sua vez, recebe de volta, pela terceira vez, o governador Itamar Franco, disposto a articular no seu interior uma facção antigovernista hostil ao presidente Fernando Henrique. O principal comandante peemedebista no momento, o senador Jader Barbalho, vive na defensiva, atingido na legitimidade de sua liderança e do comando do Senado pelas suspeitas de irregularidades no exercício do governo de seu Estado. O PSDB perdeu uma liderança forte e referencial que, embora confrontasse o governo federal topicamente, lhe emprestou sua força moral e política em alguns momentos decisivos. O vazio criado pela ausência de uma liderança da magnitude política e moral de Mário Covas terá conseqüências duradouras na vida interna do partido.

Nem mesmo a aliança precária entre o PSDB e o PMDB resistiu às desconfianças e rivalidades. O resultado é que não existe mais uma coalizão orgânica de apoio ao governo. Esse apoio decorre agora de uma relação isolada e independente de cada um dos partidos com o presidente, em um contexto de maior rivalidade e contrariedade entre eles. Mesmo na relação direta dos partidos com o presidente não faltam elementos de desconfiança, que terminam por produzir uma situação de sustentação sempre condicionada. Outro resultado da "guerra fria".

Com a evolução positiva da situação econômica, se os abalos externos permitirem, haverá mais incentivos para que os partidos voltem a um relacionamento mais cooperativo. Mas o ambiente político se alterou em definitivo e irreversivelmente. A história do governo Fernando Henrique nesses dois anos que lhe restam não será mais a simples continuidade do que foi até antes dessa crise.


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 

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