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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A irmã chamada Ana e outros casos
As marchas de Carnaval intrigam, surpreendem,
assombram e iluminam recônditos da alma brasileira
Um certo senhor que, apesar de crescido, diz insistentemente à mãe
que quer mamar a certa altura muda abruptamente de assunto e conta que tem uma
irmã, chamada Ana, que piscava muito. Piscava tanto que acabou sem a pestana.
Esse caso espantoso é relatado, como se sabe, na marchinha Mamãe
Eu Quero, de Jararaca e Vicente Paiva. Mais famosos são os trechos
em que o homem quer mamar, quer chupeta (trata-se sem dúvida de um ás
da fase oral), mas perturbador mesmo é o caso da pobre Ana. Ela era namoradeira,
tanto que piscava muito. (Será que se pisca ainda, para arriscar um flerte,
como em 1936, ano da marchinha?) Mas, por efeito de tanto movimentar as pálpebras
e devia movimentá-las com fúria, para provocar tal resultado
, acabou por perder os pêlos que as complementam, o que, convenhamos,
compromete o encanto eventualmente presente no ato de piscar. Uma desgraça
abateu-se em sua vida. As marchinhas, suprema
expressão do Carnaval entre as décadas de 1930 e 1960, intrigam,
assombram, mexem com a imaginação, iluminam recônditos da
alma brasileira. Sassaricando consagrou esse verbo, "sassaricar", mas,
mais importante, declarou que sassaricando "todo mundo leva a vida no arame".
No arame?! Adivinha-se que seja o mesmo que dizer "na corda bamba", mas nem por
isso a expressão causa menos estranheza. Seria comum dizer que se levava
a vida "no arame" no antediluviano 1951, ano de Getúlio e Harry Truman,
da primeira Bienal de São Paulo, do lançamento da Última
Hora, por Samuel Wainer, e de Sassaricando, por Luís Antônio,
Zé Mário e Oldemar Magalhães?
Chiquita Bacana, aquela que se vestia só com uma casca de banana, criação
de Braguinha e Alberto Ribeiro (1949), era "existencialista, com toda a razão".
Quer dizer: pensava, como Kierkegaard, Heidegger e, claro, Jean-Paul Sartre, que
a existência precede a essência. Logo, só fazia o que mandava
o coração. Mas vislumbra-se um espírito trêfego nessa
filha da Martinica. Mais consistente, e caso raro, numa marchinha
de afirmação da mulher, é a Colombina de Pierrô
Apaixonado, da respeitável dupla Noel RosaHeitor dos Prazeres
(1935). A Colombina, quando lhe vieram encher a paciência, disse: "Pierrô
cacete, vá tomar sorvete com o Arlequim". Quer dizer: despachou os dois.
A mulata é uma obsessão do
período carnavalesco. Ela foi saudada, entre muitos outros, por Lamartine
Babo e pelos irmãos Valença, em 1931, em versos com lugar de honra
entre os campeões do racismo em língua portuguesa ("e como a cor
não pega, mulata / mulata, quero o teu amor"), e por Braguinha e Antônio
Almeida, em 1947. Estes, depois de afirmar que "branca é branca, preta
é preta, mas a mulata é a tal", acrescentam que quando ela passa
todo mundo grita: "Eu tô aí nessa marmita". Eis-nos outra vez diante
dos mistérios da expressão. Que significaria "estar numa marmita"?
Segundo o Dicionário Houaiss, em sentido informal, marmita
pode ser "barriga, ventre" e também "meretriz que sustenta o rufião".
Não, barriga não cabe, e meretriz não seria, muito menos
quando arrimo de rufião, a mulata para a qual o narrador "bate palmas e
pede bis". Uma possibilidade é supor que a mulata em questão carregasse
uma marmita, em sentido próprio. O autor, carinhoso, gostaria de estar
dentro dela só para privar de sua intimidade. Mas é apenas suposição.
Sessenta anos é muito. Produz ruídos impenetráveis na linguagem.
Não é simples, para um ouvido de 2007, captar uma voz de 1947.
A mulata é a mulata. Estranho seria se não figurasse no Carnaval.
Intrigante de verdade é a presença nas marchinhas do mundo árabe
e da religião muçulmana. Em Alah-lá-ô (Haroldo
Lobo e Nássara, 1940), pessoas que, exauridas, atravessam o Deserto do
Saara (bom nome para rimar com "cara") pedem água a "Alá, meu bom
Alá". Em Cabeleira do Zezé (1963), um clássico da
homofobia, começa-se por duvidar da masculinidade do Zezé, um moço
de cabelo comprido, mas, a certa altura, faz-se um giro desconcertante e pergunta-se:
"Será que ele é Maomé?". Por que Maomé, logo Maomé,
se esconderia por trás do cabeludo? Ainda não existiam os xiitas,
nem os aiatolás, nem a Al Qaeda, para sorte de quem compôs (João
Roberto Kelly e Roberto Faissal) e de quem cantou a música.
De resto, bebia-se, ah, como se bebia, nas marchinhas. Nelas, como a mulata, a
cachaça é a tal. Em Saca-Rolha (Zé da Zilda, Zilda
do Zé, Waldir Machado), o personagem-narrador afirma que garrafa cheia
não quer ver sobrar. Em Cachaça (Mirabeau Pinheiro, Lúcio
de Castro e Héber Lobato), configura-se um caso gravíssimo. O narrador
declara que pode lhe faltar tudo na vida: "arroz, feijão e pão".
Pode lhe faltar até o amor, e disso "até acha graça", mas
não pode lhe faltar "a danada da cachaça". Tanto Saca-Rolha
quanto Cachaça são de 1953. É o ano da criação
da Petrobras, do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, premiado em Cannes,
do livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, e do apogeu
dos borrachos. |