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Televisão
O arrastão da Record
Vidas Opostas
usa a violência carioca
como matéria-prima. E conquista ibope

Marcelo Marthe
Fotos Oscar Cabral
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| A gravação do tiroteio (acima)
e Moraes, acompanhando a audiência no computador: vingança
com sangue |
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Na madrugada de terça
para quarta-feira passada, a produção da novela
Vidas Opostas, da Record, ocupou um túnel carioca
para gravar uma cena não muito diferente dos arrastões
reais que o lugar já viu. A seqüência de
tiroteio entre traficantes durante um congestionamento requereu
o trabalho de 200 figurantes. Para simular o engarrafamento,
foram utilizados sessenta carros. Contou-se ainda com uma
equipe técnica de uma centena de pessoas, que incluía
de dublês a especialistas em efeitos especiais. E tome
sangue artificial e tiros de festim ingredientes que
são o principal tempero da atração da
Record. A proposta de Vidas Opostas é expor
a violência no Rio de Janeiro sem meios-tons. Além
dos ataques de bandidos nos túneis, sua trama explorou
a guerra pelo controle do tráfico nas favelas, o uso
de celulares nos presídios e a corrupção
policial. E isso tem dado ibope. O folhetim já atingiu
médias de até 22 pontos e levou a Record a ultrapassar
a Globo na liderança da audiência por duas vezes,
mesmo que só por alguns minutos. A emissora tinha pressa
com a cena do tal tiroteio. Ela iria ao ar na própria
quarta-feira ou seja, menos de 24 horas depois de sua
gravação , para fazer frente ao jogo da
Copa Libertadores programado pela Globo para o horário.
É nesse dia da semana, quando o futebol afugenta as
mulheres da grade da Globo, que a novela se aproveita do flanco
para cravar seus melhores índices.
A violência
nas metrópoles brasileiras volta e meia ganha espaço
nos folhetins. Em 2003, a Globo obteve grande repercussão
com o capítulo de Mulheres Apaixonadas em que
uma personagem morria num embate de rua entre bandidos e policiais.
Mas deve-se dar o crédito à Record: embora se
revele tosca nos diálogos e figurinos, Vidas Opostas
trata do tema com uma contundência inédita
em novelas. A aceitação disso, é claro,
tem tudo a ver com o estado de espírito dos brasileiros.
Por volta de um mês depois de sua estréia, em
novembro passado, a emissora fez uma pesquisa com um grupo
de donas-de-casa das classes C e D, temerosa do impacto das
cenas de violência. Verificou-se que elas repeliam uma
certa parcela das espectadoras. A maioria, contudo, não
se deixava afetar negativamente. Diante das tragédias
do noticiário e da realidade que sentem na própria
pele, elas nem se chocavam tanto e queriam mais é
ver essas mazelas escancaradas.
Para além
de dar vazão a uma angústia social, contudo,
a violência em Vidas Opostas é bem digerida
por outro motivo: ela está a serviço do melodrama.
Não por acaso, a novela só deixou de patinar
no ibope quando engrenou o romance de seu par principal, a
favelada Joana (Maytê Piragibe) e o riquinho Miguel
(Leo Rosa). As cenas de violência também têm
um óbvio apelo de ação, como não
nega o autor, Marcílio Moraes. "Quando um personagem
empunha um revólver, o espectador não fica indiferente",
diz ele. Os bandidos têm, por fim, a função
de vilões. O delegado Nogueira (Marcelo Serrado) é
um mafioso que trata sua mulher com brutalidade (em tempo:
a chocante cena em que a estuprou também foi um dos
itens do "cardápio" da semana passada). "Psicopatas
como ele são ótimos personagens, por ser violentos
e imprevisíveis", afirma Moraes.
A novela também
inova por ter uma favela real como cenário. A Record
tinha dúvidas se seria viável gravar num morro,
até descobrir a favela de Tavares Bastos. O local,
bem perto da sede do governo do Rio, deixou de ser dominado
pelo tráfico há alguns anos, quando passou a
abrigar um batalhão de polícia. Ou seja: é
uma "favela light". Em sua versão ficcional, os habitantes
oprimidos pelo tráfico um dia se rebelam. Moraes garante
que copiou essa história de uma fonte inusitada: uma
peça do dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635),
que já foi cultuada pelos comunistas por narrar a vitória
de uma comunidade contra um senhor feudal. Nos anos 60, Moraes
foi ele próprio filiado ao partidão. "Eu me
decepcionei com a esquerda depois de conhecer de perto a falta
de liberdade nos países do Leste Europeu", diz.
Vidas Opostas
tirou o noveleiro do ostracismo. Em 2002, depois de dezoito
anos na Globo, Moraes foi dispensado. Magoado, chegou
a afirmar que um dia derrotaria a ex-empregadora. Já
se pode dizer que está tendo um certo gostinho disso.
Mas, passado o momento de deslumbre, Moraes agora é
pragmático. Ele tem contrato até 2008 com a
Record (seus ganhos podem chegar a 300.000 reais por mês,
conforme o desempenho da novela no ibope). Mas não
fecha as portas para uma volta ao antigo lar. "Se a Globo
me oferecer um bom contrato, por que eu não pensaria
na hipótese?", diz.

Fotos divulgação |
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