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Edição 1996

21 de fevereiro de 2007
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O arrastão da Record

Vidas Opostas usa a violência carioca
como matéria-prima. E conquista ibope


Marcelo Marthe


Fotos Oscar Cabral
A gravação do tiroteio (acima) e Moraes, acompanhando a audiência no computador: vingança com sangue

Na madrugada de terça para quarta-feira passada, a produção da novela Vidas Opostas, da Record, ocupou um túnel carioca para gravar uma cena não muito diferente dos arrastões reais que o lugar já viu. A seqüência de tiroteio entre traficantes durante um congestionamento requereu o trabalho de 200 figurantes. Para simular o engarrafamento, foram utilizados sessenta carros. Contou-se ainda com uma equipe técnica de uma centena de pessoas, que incluía de dublês a especialistas em efeitos especiais. E tome sangue artificial e tiros de festim – ingredientes que são o principal tempero da atração da Record. A proposta de Vidas Opostas é expor a violência no Rio de Janeiro sem meios-tons. Além dos ataques de bandidos nos túneis, sua trama explorou a guerra pelo controle do tráfico nas favelas, o uso de celulares nos presídios e a corrupção policial. E isso tem dado ibope. O folhetim já atingiu médias de até 22 pontos e levou a Record a ultrapassar a Globo na liderança da audiência por duas vezes, mesmo que só por alguns minutos. A emissora tinha pressa com a cena do tal tiroteio. Ela iria ao ar na própria quarta-feira – ou seja, menos de 24 horas depois de sua gravação –, para fazer frente ao jogo da Copa Libertadores programado pela Globo para o horário. É nesse dia da semana, quando o futebol afugenta as mulheres da grade da Globo, que a novela se aproveita do flanco para cravar seus melhores índices.

A violência nas metrópoles brasileiras volta e meia ganha espaço nos folhetins. Em 2003, a Globo obteve grande repercussão com o capítulo de Mulheres Apaixonadas em que uma personagem morria num embate de rua entre bandidos e policiais. Mas deve-se dar o crédito à Record: embora se revele tosca nos diálogos e figurinos, Vidas Opostas trata do tema com uma contundência inédita em novelas. A aceitação disso, é claro, tem tudo a ver com o estado de espírito dos brasileiros. Por volta de um mês depois de sua estréia, em novembro passado, a emissora fez uma pesquisa com um grupo de donas-de-casa das classes C e D, temerosa do impacto das cenas de violência. Verificou-se que elas repeliam uma certa parcela das espectadoras. A maioria, contudo, não se deixava afetar negativamente. Diante das tragédias do noticiário e da realidade que sentem na própria pele, elas nem se chocavam tanto – e queriam mais é ver essas mazelas escancaradas.

Para além de dar vazão a uma angústia social, contudo, a violência em Vidas Opostas é bem digerida por outro motivo: ela está a serviço do melodrama. Não por acaso, a novela só deixou de patinar no ibope quando engrenou o romance de seu par principal, a favelada Joana (Maytê Piragibe) e o riquinho Miguel (Leo Rosa). As cenas de violência também têm um óbvio apelo de ação, como não nega o autor, Marcílio Moraes. "Quando um personagem empunha um revólver, o espectador não fica indiferente", diz ele. Os bandidos têm, por fim, a função de vilões. O delegado Nogueira (Marcelo Serrado) é um mafioso que trata sua mulher com brutalidade (em tempo: a chocante cena em que a estuprou também foi um dos itens do "cardápio" da semana passada). "Psicopatas como ele são ótimos personagens, por ser violentos e imprevisíveis", afirma Moraes.

A novela também inova por ter uma favela real como cenário. A Record tinha dúvidas se seria viável gravar num morro, até descobrir a favela de Tavares Bastos. O local, bem perto da sede do governo do Rio, deixou de ser dominado pelo tráfico há alguns anos, quando passou a abrigar um batalhão de polícia. Ou seja: é uma "favela light". Em sua versão ficcional, os habitantes oprimidos pelo tráfico um dia se rebelam. Moraes garante que copiou essa história de uma fonte inusitada: uma peça do dramaturgo espanhol Lope de Vega (1562-1635), que já foi cultuada pelos comunistas por narrar a vitória de uma comunidade contra um senhor feudal. Nos anos 60, Moraes foi ele próprio filiado ao partidão. "Eu me decepcionei com a esquerda depois de conhecer de perto a falta de liberdade nos países do Leste Europeu", diz.

Vidas Opostas tirou o noveleiro do ostracismo. Em 2002, depois de dezoito anos na Globo, Moraes foi dispensado. Magoado, chegou a afirmar que um dia derrotaria a ex-empregadora. Já se pode dizer que está tendo um certo gostinho disso. Mas, passado o momento de deslumbre, Moraes agora é pragmático. Ele tem contrato até 2008 com a Record (seus ganhos podem chegar a 300.000 reais por mês, conforme o desempenho da novela no ibope). Mas não fecha as portas para uma volta ao antigo lar. "Se a Globo me oferecer um bom contrato, por que eu não pensaria na hipótese?", diz.

 


Fotos divulgação
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