 |
Publicidade |
 |
|
| |
Comportamento Criança
feliz, feliz a brincar Uma pesquisa revela
que as crianças brasileiras brincam pouco e que os pais não
ajudam a mudar esse quadro  Anna
Paula Buchalla
Fabiano
Accorsi
 | "Giovana
tem uma agenda muito atribulada. De segunda a quinta, ela não chega em
casa antes das 7 da noite. Duas vezes por semana, chega por volta das 9. Depois
da escola, ela emenda aulas de ginástica rítmica, dança e
começará em breve um curso de inglês. Ela já fez ginástica
olímpica, robótica e agora quer entrar para as aulas de teatro e
coral. Como penso muito no futuro de minha filha, acho que essas atividades extracurriculares
serão muito úteis para a carreira profissional dela. Apesar de todas
essas tarefas, jamais deixo de lado a brincadeira. Nem todo dia é possível,
mas eu e meu marido procuramos reservar um tempinho para brincar com ela. É
uma forma de reunir a família. " Thais,
31 anos, com o marido, Maurício, 35 anos, empresário, e
a filha Giovana, de 9 anos |
As
crianças brasileiras não brincam o bastante. Esse é o cenário
revelado pelo maior e mais minucioso levantamento já feito no Brasil sobre
o hábito de brincar de meninos e meninas entre 6 e 12 anos. Encomendada
pela multinacional Unilever e conduzida pelo Instituto Ipsos, a pesquisa foi feita
em 77 cidades um universo que representa 31,5 milhões de pais e
24,3 milhões de crianças. O resultado é preocupante porque
dedicar pouco tempo aos jogos pode comprometer o desenvolvimento infantil. Brincar
é um dos quatro parâmetros usados para medir o bem-estar de uma criança
ao lado da qualidade do sono, da alimentação e da higiene.
Como definiu Brian Sutton-Smith, um dos principais educadores dos Estados Unidos:
"O contrário de brincadeira não é trabalho. É depressão".
Crianças que brincam mais se tornam jovens e adultos melhores. Os jogos
e divertimentos (civilizados, é claro) estimulam a inteligência,
ensinam valores, colocam a criança em contato com suas habilidades e dificuldades,
despertam a imaginação e a criatividade e aliviam tensões.
Uma conjunção de fatores
ajuda a explicar por que as brincadeiras se tornaram escassas na vida das crianças.
O primeiro deles é que, desde muito cedo, elas se tornam dependentes de
televisão, vídeos e computadores. Não se trata de condenar
esses passatempos. O errado é passar muito tempo diante de tais aparelhos.
Os meninos e meninas brasileiros são os que mais vêem televisão
em todo o mundo. Isso lhes consome, em média, três horas e meia por
dia. É muito tempo. "Ver televisão não é brincar",
disse a VEJA a psicóloga Ann Marie Guilmette, professora da Brock University,
do Canadá. A passividade dos pequenos diante de um aparelho de TV não
substitui os estímulos de um jogo de tabuleiro ou de um esconde-esconde.
No entanto, um dos dados mais surpreendentes da pesquisa é o fato de que,
para 97% das crianças brasileiras, ver televisão, DVD ou vídeos
é sinônimo de brincadeira e essa é a favorita delas.
Outro hábito que tem roubado o tempo
de diversão das crianças é a preocupação excessiva
dos pais com o futuro profissional de seus filhos. O tempo livre delas agora é
ocupado com cursos de línguas, balé, esportes e computação,
entre outros. Um em cada três pais ouvidos na pesquisa acha que as crianças
devem se preparar para a concorrência profissional futura desde cedo e 84%
concordam que, para estarem preparadas para a vida, as crianças devem brincar
menos e estudar mais. Com isso tudo, os jogos tendem a ficar restritos ao período
em que as crianças estão na escola. No ambiente escolar, porém,
a brincadeira é organizada e monitorada por adultos, que determinam o repertório
dos jogos e ditam as regras. "O efeito disso é que, quando essas crianças
têm a oportunidade de brincar sozinhas, elas simplesmente não conseguem.
Faltam-lhes criatividade e imaginação", afirma Ann Marie.
Nas últimas duas décadas, depois de uma série de pesquisas,
ficou claro para os estudiosos do desenvolvimento infantil que relações
familiares sólidas têm um peso preponderante na formação
de profissionais de sucesso. E elas implicam que os pais também brinquem
com seus filhos. Por meio dessas brincadeiras conjuntas, as crianças assimilam
melhor o respeito às regras e a necessidade de ter paciência e persistência
na perseguição de objetivos. Além disso, os jogos compartilhados
fortalecem os vínculos afetivos. O levantamento da Unilever mostra que
o que acontece nas famílias brasileiras é justamente o oposto: as
crianças brincam pouco com seus pais. "Brincar não é um atributo
genético. Brincar é uma atividade que se aprende", diz o educador
Celso Antunes, autor de mais de quarenta livros sobre educação.
O papel dos pais nesse processo é fundamental. Em especial, nos primeiros
anos de vida da criança. É essencial que eles a ensinem a brincar,
proporcionando não só os brinquedos, como também se dispondo
a indicar como funcionam. Mas há um limite na participação
dos adultos nos jogos infantis, alertam os educadores. Os pais devem brincar com
seus filhos mas não pelos seus filhos. Pai ao estilo animador de
bufê infantil acaba tirando a espontaneidade da criança (e é
também um embaraço, convenhamos).
Evidentemente, não dá para querer voltar ao passado, quando a família
dispunha de tempo e disposição para passar horas e horas ao redor
de um tabuleiro de War, Banco Imobiliário ou Detetive. A
vida ficou mais corrida e pais e filhos já não se reúnem
tanto. Nos últimos vinte anos, o número de jantares e férias
em família caiu 33% e 28%, respectivamente, de acordo com um levantamento
americano. Esses índices podem ser estendidos à realidade brasileira,
segundo os especialistas. Nada disso, no entanto, deve servir de desculpa para
não brincar com os filhos. Para o educador Celso Antunes, quinze minutos
por dia são suficientes: "Desde que esse seja um tempo planejado, desejado
e feito com o mesmo empenho com que se caminha na esteira da academia de ginástica".
O triste é que brincar com os filhos é fonte de prazer para apenas
14% dos pais. A brincadeira precisa ser
prazerosa e variada para ter qualidade. Os pesquisadores do Instituto Ipsos criaram
o "Índice Brincar" para avaliar a qualidade das brincadeiras, levando em
conta o tipo de atividade e o tempo gasto com ela. De acordo com esse índice,
39% das crianças brasileiras não brincam como poderiam. "Porque
brincam pouco, nossas crianças estão desperdiçando boa parte
de sua infância, o que é muito triste", diz a psicopedagoga Maria
Angela Barbato Carneiro, da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo e consultora da pesquisa. Portanto, tire seu filho da frente
da televisão, pegue a bola e desça até a quadra do prédio.
Lembre-se: com você, bastam quinze minutos por dia. 

|