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Moda
Caiu na rede, é bacana
Em vez de grifes e modelos profissionais,
os sites de
street style mostram gente comum que sabe se produzir

Silvia Rogar
Roberto Setton
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| Rodic, o fotógrafo, fotografado
em São Paulo: nova profissão |
Qual é o visual predileto da excêntrica juventude
de Tóquio no momento? O que os modernos estão
usando neste inverno em Hoxton, a região mais descolada
de Londres? Como estava vestida a platéia da semana
de moda de Nova York, realizada nos primeiros dias deste mês?
Por muito tempo, só quem estava lá podia responder
em todos os detalhes depois, era aguardar uma amostra,
pela imprensa. Agora, é só ir para a internet
e se dedicar a uma experiência que mulheres em geral
e loucos por moda em particular adoram: conferir o que os
outros estão usando. Armada com câmeras digitais
que cabem na bolsa, uma legião de fotógrafos
amadores dedica-se a registrar, em sites e blogs, o estilo
das pessoas bacanas que circulam pelas metrópoles globais,
num exercício de mútua exposição
que acaricia o ego de quem tira as fotos (e vira uma espécie
de celebridade no mundinho) e de quem é fotografado
(idem, idem, em menor escala). Os sites reúnem fotos
de jovens posando com roupas ousadas, originais ou simplesmente
interessantes. A idéia começou com as consultorias
de tendências, que sempre clicaram gente com visual
instigante para apresentar a seus clientes empresas
de vestuário, fabricantes de tênis e outros ramos
profissionais que, para acompanhar o pulso dos consumidores,
precisam beber direto na fonte do chamado street style,
o jeitão de se vestir dos jovens vanguardistas que
inventam o estilo do momento. A diferença agora é
que, estando disseminado pela internet, o que era serviço
prestado a um seleto grupo de empresas virou profissão
sustentada no gosto de pessoas que sempre quiseram, mesmo,
se mostrar, e das que não resistem a ver o que está
sendo mostrado.
Fotos divulgação
e Sampo Karjalainem
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| Faça sol, caia neve: nas ruas
das grandes cidades, câmeras digitais clicam jovens que
mostram atitude no jeito de se vestir |
Yvan Rodic, 29 anos,
suíço radicado em Paris, é profissional
do novo ramo. Redator de publicidade, ganhou, no fim de 2005,
uma câmera digital despretensiosa e com ela partiu para
o registro igualmente despretensioso de gente bacana que via
nas ruas e em festas. Em um mês, tinha reunido material
suficiente para fundar o blog Face Hunter, hoje um
dos mais acessados. "Não esperava que, em apenas nove
meses, fosse largar meu emprego para ser fotógrafo
de revistas de comportamento", espanta-se Rodic, ele mesmo
uma figura que estaria em qualquer site do gênero (alto,
magérrimo, não sai de casa sem um par de óculos
sem lente). Para dar um exemplo do prestígio instantâneo:
em janeiro, ele esteve em São Paulo, dando palestras
durante a semana de moda. O Face Hunter, que ainda
considera "em fase experimental", recebe de 5 000 a 20 000
visitas por dia. "As pessoas entram tanto para buscar inspiração
quanto por curiosidade mesmo", diz.
Rodic é
um iniciante perto do americano Scott Schuman, 38 anos, idealizador
do blog The Sartorialist, que fotografa o melhor das
ruas de Manhattan. A grife que as pessoas vestem não
importa, diz Scott, desde que a composição seja
harmônica. Mais poéticas que de vanguarda, as
imagens do Sartorialist termo derivado de sartorial,
que designa o que é relativo à alfaiataria e,
por extensão, a roupas em geral são acompanhadas
de opiniões do fotógrafo (agora famoso, ele
ganha dinheiro escrevendo e clicando para revistas e sites
renomados), e qualquer visitante pode dar palpite. Antes dele,
porém, o marco zero de toda a turma é Shoichi
Aoki, um japonês que bate ponto nas esquinas de Tóquio
desde meados dos anos 90. Fotógrafo autodidata, ele
captou a revolução no guarda-roupa dos jovens
que começavam a desfilar por Harajuku, uma região
da cidade venerada pelos maníacos por moda, vestindo
camadas sobre camadas das mais extremadas excentricidades:
roupa feita em casa combinada com quimonos e obis e peças
de estilistas famosos, cabelos coloridos e plataformas altíssimas.
Em 1997, Aoki, apostando na explosão de criatividade
daquelas tribos, lançou a Fruits, revista mensal
que virou cult. Por que suas fotos caíram no gosto
internacional? "As pessoas adoram a originalidade japonesa
e nossa grande capacidade de coordenar peças de roupa",
acredita. Atualmente, tem filhotes desde Moscou (Moscow
Street Fashion e Look at Me) até Pequim
("Como tudo no país, o street style tem se transformado
em alta velocidade. Os jovens estão começando
a criar estilo próprio e precisam de espaço
na internet para mostrar as novidades", diz o designer de
brinquedos Ni Koko, 24 anos, dono e fotógrafo do Make
Cute), passando pelo Hel Looks da finlandesa Liisa
Jokinen, um deleite para os fãs das deliciosas estampas
(e das loirinhas idem) que caracterizam o design escandinavo.
Fotos divulgação
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| Salto alto, coturno ou sapatilha:
o estilo, e não a grife, faz o anônimo se destacar na
internet |
O sociólogo
Dario Caldas, especialista em tendências de comportamento
e autor do livro Observatório de Sinais, acha
que a explosão do street style na internet está
também ela relacionada ao encantamento
geral com os reality shows. "O culto à celebridade
compete agora com o interesse pelo indivíduo comum.
Enquanto a vida do vip parece excluir o espectador, essa fauna
urbana, globalizada, dá a sensação de
estar mais próxima dele. E fascina, mesmo que os gostos
em moda sejam diferentes", teoriza. "Sem falar, claro, no
avanço da tecnologia e na facilidade de divulgar imagens
em escala mundial na internet." Quem fotografa adora; quem
é fotografado adora mais ainda e não se inibe
em fazer caras e bocas em qualquer tipo de ambiente. "Simplesmente
peço que as pessoas olhem para a câmera", diz
a finlandesa Liisa. "Elas é que fazem pose." É
claro que, quanto mais chamativo e original o figurino, maior
a chance de seu usuário ser clicado. Com 1,90 metro,
enorme e encaracolada cabeleira, sempre envolto num turbilhão
de grafismos multicoloridos, Dudu Bertholini, estilista da
grife paulistana Neon, é um exemplo. Alvo contumaz
dos sites de street style, aqui e no exterior, já
foi tão fotografado que nem se dá mais ao trabalho
de conferir a pose. Aos novatos, aconselha: "Como gosto de
peças amplas, sempre abro os braços. É
importante mostrar os detalhes do visual e ter atitude, deixar
claro que a persona também é interessante. Senão
a roupa engole o fotografado". Entenderam?
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