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Edição 1996

21 de fevereiro de 2007
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Moda
Caiu na rede, é bacana

Em vez de grifes e modelos profissionais, os sites de
street style
mostram gente comum que sabe se produzir


Silvia Rogar

Roberto Setton
Rodic, o fotógrafo, fotografado em São Paulo: nova profissão


Qual é o visual predileto da excêntrica juventude de Tóquio no momento? O que os modernos estão usando neste inverno em Hoxton, a região mais descolada de Londres? Como estava vestida a platéia da semana de moda de Nova York, realizada nos primeiros dias deste mês? Por muito tempo, só quem estava lá podia responder em todos os detalhes – depois, era aguardar uma amostra, pela imprensa. Agora, é só ir para a internet e se dedicar a uma experiência que mulheres em geral e loucos por moda em particular adoram: conferir o que os outros estão usando. Armada com câmeras digitais que cabem na bolsa, uma legião de fotógrafos amadores dedica-se a registrar, em sites e blogs, o estilo das pessoas bacanas que circulam pelas metrópoles globais, num exercício de mútua exposição que acaricia o ego de quem tira as fotos (e vira uma espécie de celebridade no mundinho) e de quem é fotografado (idem, idem, em menor escala). Os sites reúnem fotos de jovens posando com roupas ousadas, originais ou simplesmente interessantes. A idéia começou com as consultorias de tendências, que sempre clicaram gente com visual instigante para apresentar a seus clientes – empresas de vestuário, fabricantes de tênis e outros ramos profissionais que, para acompanhar o pulso dos consumidores, precisam beber direto na fonte do chamado street style, o jeitão de se vestir dos jovens vanguardistas que inventam o estilo do momento. A diferença agora é que, estando disseminado pela internet, o que era serviço prestado a um seleto grupo de empresas virou profissão sustentada no gosto de pessoas que sempre quiseram, mesmo, se mostrar, e das que não resistem a ver o que está sendo mostrado.



Fotos divulgação e Sampo Karjalainem
Faça sol, caia neve: nas ruas das grandes cidades, câmeras digitais clicam jovens que mostram atitude no jeito de se vestir

Yvan Rodic, 29 anos, suíço radicado em Paris, é profissional do novo ramo. Redator de publicidade, ganhou, no fim de 2005, uma câmera digital despretensiosa e com ela partiu para o registro igualmente despretensioso de gente bacana que via nas ruas e em festas. Em um mês, tinha reunido material suficiente para fundar o blog Face Hunter, hoje um dos mais acessados. "Não esperava que, em apenas nove meses, fosse largar meu emprego para ser fotógrafo de revistas de comportamento", espanta-se Rodic, ele mesmo uma figura que estaria em qualquer site do gênero (alto, magérrimo, não sai de casa sem um par de óculos sem lente). Para dar um exemplo do prestígio instantâneo: em janeiro, ele esteve em São Paulo, dando palestras durante a semana de moda. O Face Hunter, que ainda considera "em fase experimental", recebe de 5 000 a 20 000 visitas por dia. "As pessoas entram tanto para buscar inspiração quanto por curiosidade mesmo", diz.

Rodic é um iniciante perto do americano Scott Schuman, 38 anos, idealizador do blog The Sartorialist, que fotografa o melhor das ruas de Manhattan. A grife que as pessoas vestem não importa, diz Scott, desde que a composição seja harmônica. Mais poéticas que de vanguarda, as imagens do Sartorialist – termo derivado de sartorial, que designa o que é relativo à alfaiataria e, por extensão, a roupas em geral – são acompanhadas de opiniões do fotógrafo (agora famoso, ele ganha dinheiro escrevendo e clicando para revistas e sites renomados), e qualquer visitante pode dar palpite. Antes dele, porém, o marco zero de toda a turma é Shoichi Aoki, um japonês que bate ponto nas esquinas de Tóquio desde meados dos anos 90. Fotógrafo autodidata, ele captou a revolução no guarda-roupa dos jovens que começavam a desfilar por Harajuku, uma região da cidade venerada pelos maníacos por moda, vestindo camadas sobre camadas das mais extremadas excentricidades: roupa feita em casa combinada com quimonos e obis e peças de estilistas famosos, cabelos coloridos e plataformas altíssimas. Em 1997, Aoki, apostando na explosão de criatividade daquelas tribos, lançou a Fruits, revista mensal que virou cult. Por que suas fotos caíram no gosto internacional? "As pessoas adoram a originalidade japonesa e nossa grande capacidade de coordenar peças de roupa", acredita. Atualmente, tem filhotes desde Moscou (Moscow Street Fashion e Look at Me) até Pequim ("Como tudo no país, o street style tem se transformado em alta velocidade. Os jovens estão começando a criar estilo próprio e precisam de espaço na internet para mostrar as novidades", diz o designer de brinquedos Ni Koko, 24 anos, dono e fotógrafo do Make Cute), passando pelo Hel Looks da finlandesa Liisa Jokinen, um deleite para os fãs das deliciosas estampas (e das loirinhas idem) que caracterizam o design escandinavo.


Fotos divulgação
Salto alto, coturno ou sapatilha: o estilo, e não a grife, faz o anônimo se destacar na internet

O sociólogo Dario Caldas, especialista em tendências de comportamento e autor do livro Observatório de Sinais, acha que a explosão do street style na internet está – também ela – relacionada ao encantamento geral com os reality shows. "O culto à celebridade compete agora com o interesse pelo indivíduo comum. Enquanto a vida do vip parece excluir o espectador, essa fauna urbana, globalizada, dá a sensação de estar mais próxima dele. E fascina, mesmo que os gostos em moda sejam diferentes", teoriza. "Sem falar, claro, no avanço da tecnologia e na facilidade de divulgar imagens em escala mundial na internet." Quem fotografa adora; quem é fotografado adora mais ainda e não se inibe em fazer caras e bocas em qualquer tipo de ambiente. "Simplesmente peço que as pessoas olhem para a câmera", diz a finlandesa Liisa. "Elas é que fazem pose." É claro que, quanto mais chamativo e original o figurino, maior a chance de seu usuário ser clicado. Com 1,90 metro, enorme e encaracolada cabeleira, sempre envolto num turbilhão de grafismos multicoloridos, Dudu Bertholini, estilista da grife paulistana Neon, é um exemplo. Alvo contumaz dos sites de street style, aqui e no exterior, já foi tão fotografado que nem se dá mais ao trabalho de conferir a pose. Aos novatos, aconselha: "Como gosto de peças amplas, sempre abro os braços. É importante mostrar os detalhes do visual e ter atitude, deixar claro que a persona também é interessante. Senão a roupa engole o fotografado". Entenderam?

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