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Brasil Nem
ele agüenta mais
A voracidade dos aliados por ministérios amarga o doce poder de escolha
de Lula  Otávio
Cabral
Clique
na imagem para vê-la ampliada | Montagem
com fotos Roberto Jayme/AE, Ed Ferreira/AE, Antonio Cruz/ABR, Eduardo Lazzarini/Folha
Imagem, Hιlvio Romero/AE, Josι Cruz/ABR
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O
início de um mandato presidencial costuma ser um tempo de bonança:
o governante está feliz com sua recente vitória eleitoral, está
bem cotado nas pesquisas e, esbanjando poder, vira alvo da paparicação
dos políticos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma reeleição
consagradora, mantém altos níveis de popularidade e ainda tem 46
meses de poder pela frente mas anda nervoso e irritadiço. Isso ficou
claro durante uma reunião em que estava sendo comunicado sobre detalhes
da visita do presidente da Bolívia, Evo Morales, realizada na semana passada.
Lula disse: "Com tantos problemas por aqui, ainda vou ter de agüentar esse
Evo discutindo o preço do gás". O diagnóstico sobre sua inquietação
é unânime entre os assessores mais próximos: Lula detesta
sofrer pressões e, neste momento, tem sido alvo delas por todos os lados.
Elas partem dos aliados, que têm consumido suas melhores energias e capital
político engalfinhando-se na disputa por cargos na Esplanada dos Ministérios.
Em conversa com um interlocutor
com quem discutia a reforma, na semana passada, Lula fez um desabafo: "Por mim,
iria com o ministério que está aí até o fim do governo.
Quanto mais técnicos e menos políticos, menor a dor de cabeça
que eu tenho". As pressões foram particularmente intensas na semana passada.
Em apenas dois dias, Lula recebeu a fatura carguista de quatro partidos, que reivindicam
ocupar um tal volume de cargos que, somados todos os pedidos, talvez fosse necessário
criar mais uns 300 ministérios. O PT, além dos seus catorze atuais,
quer mais dois. O PMDB, que hoje tem dois, faz planos para dobrar seu tamanho,
abocanhando quatro pastas. O PP quer pelo menos manter o que já tem, o
PR quer de volta o que já teve. O PTB tem um ministério e quer algo
mais, nem que seja um carguinho de líder do governo no Congresso. O PV
parece contente com o que já tem, mas o PCdoB, o PSB e o PDT ainda estão
na fila, na expectativa de conhecer o seu quinhão no novo governo.
É a primeira vez que o presidente Lula enfrenta
esse festival de voracidade carguista distribuído entre tantos pretendentes.
Em janeiro de 2003, quando tomou posse do primeiro mandato, Lula dividiu o governo
com poucos partidos. Dos 34 ministros empossados, vinte eram petistas, muitos
dos quais derrotados na eleição do ano anterior. Além disso,
Lula convidou nomes pela sua capacidade técnica, e não pela filiação
partidária, como Roberto Rodrigues, que ficou na Agricultura, e Luiz Fernando
Furlan, que ocupa até hoje o Desenvolvimento. Agora, no segundo mandato,
o presidente até tentou reeditar a fórmula do passado no que diz
respeito à nomeação de notáveis. Chegou a convidar
o empresário Jorge Gerdau, dono do grupo Gerdau, para suceder a Furlan
no Desenvolvimento, mas o convite foi gentilmente recusado. Na semana passada,
diante da maré montante de pedidos, Lula prometeu aos dirigentes partidários
que os novos ministros estarão nomeados até o início de março.
"Acho que o presidente vai
adiar mais uma vez", prevê, ressabiado, o deputado e ex-ministro das Comunicações
Eunício Oliveira, do PMDB do Ceará. "Não me surpreenderei
se a reforma ficar para abril." A desconfiança decorre do fato de que esse
é o quinto prazo para a reforma ministerial anunciado por Lula desde a
sua reeleição, no fim de outubro passado. Primeiro, a reforma se
daria até dezembro. Depois, a data-limite passou a ser o período
entre o Natal e o Ano-Novo. Em seguida, ficou para o início de fevereiro,
assim que se realizasse a eleição para a presidência da Câmara
e a do Senado. Depois, o novo prazo saltou para logo após o Carnaval. Agora,
foi adiado para o início de março. Os adiamentos sucessivos mostram
que o presidente está encontrando dificuldades para achar nomes do seu
agrado ou para contornar as pressões, inclusive as do PT. Lula disse
em uma reunião na semana passada: "O que mais me irrita é o PT tentando
fritar o Tarso. Não agüento mais o Zé Dirceu tentando impedir
que o Tarso vá para a Justiça".
Um dos sinais da insatisfação de Lula veio a público na festa
dos 27 anos do PT, em Salvador, na semana anterior. Ao discursar, Lula, quebrando
o clima festivo, resolveu passar um pito nos líderes presentes. Reclamou
das eternas brigas internas do partido, em referência velada à disputa
entre as alas de José Dirceu e do ministro Tarso Genro, e pediu "maturidade"
e "juízo" ao partido. "Eu me pergunto por que a gente não sabe levantar
um pouco a metralhadora para atingir os inimigos e atiramos tanto nos nossos pés",
disse. Na semana passada, apesar das reclamações contra o comportamento
do PT, Lula cedeu às pressões vindas do partido. Seus auxiliares
mais diretos informam que o presidente decidiu mesmo transferir Tarso Genro para
o Ministério da Justiça, em substituição ao advogado
Márcio Thomaz Bastos, e entregar o comando do Ministério da Educação
à ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Com isso, Lula espera
que o PT se dê por satisfeito e deixe de assediá-lo. A partilha de
cargos tem custado a paciência do presidente, mas é melhor obter
apoio político por meio da divisão do poder do que recriar a ciranda
de valeriodutos e mensalões. |