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| | Crime Mais
uma marola em Brasília Parlamentares
reagem ao trucidamento do menino João Hélio. Mas atenção:
a história mostra que, depois da crise, tudo vira espuma
 Ricardo
Brito
O
assassinato brutal do menino João Hélio Fernandes Vieites, de 6
anos, fez com que os parlamentares brasileiros decretassem guerra contra a bandidagem.
No Senado, retomou-se o debate sobre a redução da maioridade penal,
enquanto o presidente da Casa, o senador Renan Calheiros, convidava os pais do
garoto para visitar o Congresso e dar seu depoimento sobre a tragédia.
O senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano, sugeriu a criação
de um fundo para indenizar vítimas de crimes e o batizou com o nome de
"João Hélio". Na Câmara dos Deputados, os parlamentares começaram
a discutir um pacote de nove medidas e aprovaram maior rigor contra quem comete
crimes hediondos e pena dobrada para bandidos que recrutam menores de idade. A
iniciativa sugere que o Congresso, movido pela tragédia que se abateu sobre
a família de João Hélio, enfim decidiu se mexer para reduzir
o caos da segurança pública no país. Mas que ninguém
se iluda: é tudo marola.
Celso
Junior/AE
 | | O
deputado Fraga, da bancada da segurança: foi para a gaveta |
É
notável a energia que deputados e senadores despendem para surfar na onda
da comoção pública sempre que um crime choca o país.
Passada a crise, no entanto, tudo cai no esquecimento. Nos últimos sete
anos, quatro crimes sacudiram o Brasil. Todos causaram uma pororoca de discursos
e anúncios em Brasília e não resultaram em nada de
prático. A última ocorreu no ano passado, quando o PCC aterrorizou
São Paulo. Na época, o então presidente da Câmara,
Aldo Rebelo, pediu que dois parlamentares selecionassem vinte projetos sobre segurança
pública em meio aos quase 2.000 que tramitavam na Casa. A idéia
era fazê-los andar em regime de urgência. Pois bem. Dos dezoito projetos
que acabaram sendo selecionados, apenas um foi aprovado e, assim mesmo,
só na semana passada. Trata-se do projeto que pune o uso de celular em
presídios, de forma a dificultar que barões do crime gerenciem seus
negócios de dentro das prisões, corrompendo autoridades e até
ordenando execuções. "Os outros projetos devem estar dormindo em
alguma gaveta. Pode apostar: depois do Carnaval, se nada novo acontecer, ninguém
mais fala em segurança pública no Congresso Nacional", diz o deputado
Alberto Fraga (PFL-DF), um dos encarregados de selecionar os tais projetos urgentes
no auge da crise do PCC.
Mesmo
quando o Congresso entra em ação, o resultado quase sempre é
pífio. Nos últimos dez anos, de acordo com um levantamento produzido
por VEJA, os parlamentares brasileiros aprovaram catorze medidas destinadas a
combater a criminalidade uma média de 1,5 ação por
ano. Em 1997, por exemplo, criou-se o sistema nacional de registro e apreensão
de armas de fogo, que pretendia combater o contrabando de armas. O impacto foi
tão reduzido que, seis anos depois, um novo sistema foi aprovado
e seu resultado, de novo, ainda não foi percebido pelos especialistas.
Outra medida aprovada pelo Congresso foi a criação do programa nacional
de proteção à testemunha, em 1999. Também não
funcionou. As garantias oferecidas às testemunhas são tão
frágeis que pouca gente se arrisca a aderir ao programa. Uma das poucas
leis que obtiveram algum êxito foi a criação do regime disciplinar
diferenciado, o RDD. Ele permite o isolamento total de barões do crime
durante um ano em presídios de segurança máxima. O chefão
do PCC, Marcos Willians Camacho, o Marcola, e o megatraficante Fernandinho Beira-Mar
são dois dos mais notórios inquilinos do RDD. Nesse caso, contudo,
a idéia nem sequer nasceu no Legislativo. A lei apenas foi referendada
pelos congressistas depois de um projeto ter sido enviado pelo governo em 2001.
Marcio
Fernandes/AE
 | | Ônibus
incendiado pelo PCC: o pacote ficou só no gogó |
Ninguém espera que o Parlamento, em qualquer país do mundo, possa
riscar a criminalidade do mapa. Mas o Legislativo pode desempenhar um papel importante
ao criar e aperfeiçoar leis que reduzem a morosidade da Justiça,
atacando assim um dos principais motores do crime, que é a impunidade.
Recentemente, com a ajuda de seus respectivos Parlamentos, países como
Argentina, Chile, Costa Rica, Itália e Portugal reformaram seus sistemas
processuais, agilizando a Justiça e diminuindo o prazo entre o crime e
a sua conseqüente punição um câncer do sistema
brasileiro, já fartamente diagnosticado, mas jamais enfrentado com eficiência.
No Chile, por exemplo, a mudança na lei permitiu que um juiz possa ouvir
os acusados, as testemunhas, os advogados de defesa e os argumentos da acusação
numa única audiência. Assim, um processo que antes levava anos passou
a ser decidido em apenas alguns dias. No Brasil, onde o Código de Processo
Penal foi criado em 1941, no auge da ditadura de Getúlio Vargas, esse monumento
ao atraso permanece inalterado graças à letargia parlamentar. Há
três anos, depois de firmar um acordo com os chefes do Legislativo e do
Judiciário, o governo enviou ao Congresso um pacote com 26 leis destinadas
a desemperrar o funcionamento da Justiça. Nenhuma das leis que agilizam
o desfecho de um processo criminal foi aprovada até agora. "Com o caso
do menino João Hélio em evidência, talvez essa discussão
possa ir adiante", diz o secretário de reforma do Judiciário do
Ministério da Justiça, Pierpaolo Bottini.
Uma das razões para a letargia do Congresso, apesar das marolas que levanta
a cada nova crise, é sua falta de estrutura para enfrentar a crise na segurança
pública. Entre os 198 consultores legislativos da Câmara dos Deputados,
apenas seis têm alguma familiaridade com a área de segurança
pública. Já a bancada que reúne os parlamentares com interesse
no assunto, a chamada "frente parlamentar da segurança", tinha 156 integrantes
na legislatura passada, o que é um número bastante razoável,
mas, em quatro anos de mandato, eles reuniram-se apenas duas vezes e, assim
mesmo, não decidiram nada de relevante. Entre os 156 parlamentares, havia
pastores evangélicos, sindicalistas e até um ex-apresentador de
televisão. Agora, com o início da nova legislatura, o grupo conta
com 26 integrantes. Um de seus membros é o recém-eleito deputado
federal Clodovil Hernandes (PTC-SP), aquele que, perguntado sobre seu projeto
político, afirmou que iria, "evidentemente, chegar chiquérrimo a
Brasília". |