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Crime Adianta
fingir que não vê? O "país-avestruz"
deplora a violência abstrata e esquece o criminoso real. A "luta contra
a violência" é o samba-enredo do crime. Bandido adora. Isso socializa
a culpa 
Ronaldo França
Montagem sobre fotos Steve Bloom-Getty
Images/Vidal Cavalcante-AE/Paulo Libert-AE/Valdenir Rezende/Victor R. Caivano-AP/Patricia
Santos-AE  |
Mais
raro e melhor do que um país que faz boas leis é um país
que é capaz de aplicar suas leis. No Brasil, essa lógica cristalina
está invertida. Ainda sob o efeito do assassinato público e brutal
do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, iniciou-se um debate sobre
a idade a partir da qual um indivíduo pode ser responsabilizado pelos crimes
que comete, a chamada imputabilidade penal. Não que a discussão
seja tola. O assunto mobiliza especialistas ao redor do mundo e há bons
argumentos dos dois lados. Mas no que se refere à tarefa emergencial de
conter a ousadia sem limites dos bandidos, neste momento, a questão é
lateral. O Brasil tem uma legislação criminal que pode, sim, precisar
de ajustes e aperfeiçoamentos. O vital, no entanto, é fazer com
que funcionem as instituições responsáveis por aplicá-las.
A cada vez que o país
se choca com uma nova tragédia, a primeira atitude é fazer o movimento
de avestruz, como a da fotomontagem que se vê nesta página. O país
opta por não encarar o problema e não consegue responder ao justo
clamor da sociedade por mais segurança nas ruas. Fica esperando por milagres,
combate miragens como a "violência", algo abstrato, intangível, que
não se pode responsabilizar, colocar na cadeia... Enquanto se lutar contra
a violência, não se chegará a lugar nenhum. A "luta contra
a violência" é o samba-enredo do crime, com passarela e apoteose.
O urgente a fazer é uma guerra contra os bandidos, contra seus asseclas
e associados na polícia, na política, nas associações
de favelados... onde quer que estejam.
O Brasil caiu na armadilha do pensamento mágico, em que tudo parece possível,
desde que a abordagem seja política. Em termos práticos, o que isso
significa? Significa paralisia. Como? Um exemplo. Se o suplício público
do menino João Hélio, de 6 anos, fosse um caso único no Brasil,
ele seria tratado como o que é, um crime bárbaro. Como crimes bárbaros
ocorrem às centenas no Brasil um dia queimam uma modelo dentro de
um ônibus no Rio, outro dia incendeiam uma família inteira em São
Paulo... , o martírio medieval de João Hélio torna-se
não um crime, mas um "problema social". Ora, problemas sociais só
se resolvem com soluções sociais, políticas, doutrinárias...
e paralisantes. Quando tudo de que se precisa neste momento no Brasil é
que cada um assuma suas responsabilidades individuais. Quem mata é assassino.
Quem mata criança com requintes bárbaros é um assassino cruel.
É patifaria socializar a culpa porque isso vai acabar em uma abstração.
Pode escolher o culpado. A "sociedade de consumo" (como se existisse outro tipo
de sociedade viável para manter quase duas centenas de milhões de
brasileiros)? O capitalismo? A violência intrínseca do ser humano?
Os 40 milhões de brasileiros que não votaram no PT? Nenhuma nação
do mundo chegou ao equilíbrio socializando a culpa individual do criminoso
que puxa o gatilho, que enfia a faca, que corta a cabeça da vítima...
Esse é o caminho mais rápido para a barbárie.
Temos leis. O que falta é aplicá-las. "O direito penal brasileiro
é perfeitamente atualizado e em dia com as tendências do pensamento
mais moderno", diz Célio Borja, ex-ministro da Justiça e do Supremo
Tribunal Federal. O cabeça do bando, Carlos Eduardo Toledo Lima, já
havia sido preso por roubo de carros. Estava gozando do benefício do regime
semi-aberto, mas resolveu fugiu, como fizera antes, e ninguém se incomodou
com isso. Sempre que voltou à prisão, foi por ter cometido outros
crimes. Se a lei tivesse sido cumprida, João Hélio estaria vivo.
Se a opinião pública deixar, os políticos vão correr
a fazer leis, cada uma mais perfeita do que a outra, e os bandidos continuarão
matando. Diz o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior: "Não
há solução a curto prazo, no que diz respeito à legislação.
O que falta é polícia, inteligência e informação".
Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, tem demonstrado um raro sangue-frio
diante da crise e uma capacidade também pouco comum de diagnosticar os
problemas que afligem seu estado de maneira mais aguda que ao resto do país:
"Não adianta esperar que todas as soluções venham de Brasília.
Elas não virão". |