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Carta ao leitor A
arte da cegueira
Dado um problema real de grandes
proporções, o que faz o Brasil? Corre a se aferrar
a alguma solução simplista, mágica, doutrinária
e inútil. Há duas semanas, o menino João
Hélio, de 6 anos, foi supliciado por bandidos em plena
via pública no Rio de Janeiro. Ele teve seu corpo,
preso pelo cinto de segurança, ainda com vida nos primeiros
100 metros, arrastado por um carro. Ele foi desmembrado aos
poucos. Quando o cortejo monstruoso parou, o que restou do
pequeno João Hélio era um monte de carne disforme.
A cabeça se esfarinhou no trajeto, muito provavelmente
esmagada pela roda do carro, pelo choque com as lombadas e
pelo atrito com o asfalto. Qual a reação oficial
predominante? Ah... é preciso diminuir a maioridade
penal.
O quê? Isso mesmo. O país
passou a semana inteira discutindo a idéia de permitir
que menores possam ser condenados, talvez aos 16 anos... Isso
porque um dos cinco responsáveis pelo martírio
medieval de João Hélio era menor de idade. Os
luminares da República se engalfinharam diante das
câmeras de televisão debatendo a solução
simplista, mágica e doutrinária e ineficaz
de baixar a idade com que os brasileiros podem ser
mandados para um presídio. Ora, o que está em
questão não é isso. É a impunidade,
seja qual for a idade do criminoso. O problema é a
impunidade e tudo o que ela significa, da corrupção
policial à sobrecarga de trabalho da Justiça.
Impunidade não acaba
por mágica.
É vital escapar da armadilha
do pensamento mágico no Brasil. Ele paralisa o progresso
social, institucional e econômico. Outros exemplos?
Basta baixar os juros que o país cresce. Os escândalos
e a roubalheira dominam Brasília? Basta uma reforma
política e tudo se resolve. Países com leis
suíças e realidades africanas existem às
pencas. Países onde as leis são cumpridas são
raros e felizes. O Brasil precisa é de políticos
honestos, policiais que cumpram seu dever, juízes que
prendam bandidos e não os soltem, de presídios
que, como mostra uma reportagem desta edição,
não sejam "centrais de apoio" ao crime organizado
e de uma constante mobilização pública
para que isso tudo possa se realizar.
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