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André
Petry Basta punir. Só punir
"O
que funciona é a certeza da punição. Portanto, ninguém precisa levantar
a bandeira da pena de morte, da cadeira elétrica, da prisão perpétua. Isso
é coisa do botãozinho mental" Em
alguns círculos da sociedade brasileira, nos quais se inclui uma penca
de parlamentares, deve existir um botãozinho mental que é acionado
sempre que acontece um crime bárbaro é o botãozinho
mental do aumento de pena. Um assassinato comove o país? O botãozinho
mental defende uma lei prevendo pena maior para os assassinos. Um seqüestro
provoca indignação geral? O botãozinho mental quer pena maior
para seqüestradores. É sempre assim. Um menor participou do assassinato
brutal do menino João Hélio? O botãozinho mental comparece
defendendo pena maior para o menor. Agora, a Câmara aprovou um projeto em
resposta ao assassinato de João Hélio: dobra a pena para quem alicia
menores de 18 anos para suas atividades criminosas. Anotem aí: a medida
pode ter o mérito de dar uma satisfação à sociedade,
uma resposta à indignação coletiva, mas não vai resolver
coisa nenhuma. O dado intrigante
é que todo mundo sabe os especialistas já disseram isso dezenas,
centenas, inúmeras vezes que aumento da pena não reduz a
criminalidade, não dissuade o criminoso. O Brasil já produziu exemplos
claros desse ilusionismo. Diante do aumento de crimes como seqüestro ou estupro,
veio a lei dos crimes hediondos, talvez a nossa mais vistosa jabuticaba jurídica.
O objetivo tinha o equívoco de sempre: reduzir os crimes hediondos ao prever
punição mais rigorosa. Não adiantou nada. Em 1990, cresciam
os seqüestros no Rio de Janeiro chegaram a trinta naquele ano ,
e então seqüestro virou crime hediondo. Dois anos depois, os seqüestros
no Rio haviam quadruplicado... Em 1996, houve 8.000 casos de estupro no país.
Virou crime hediondo. No ano seguinte, foram 14.000...
O que funciona no combate ao crime e os especialistas também já
disseram isso inúmeras vezes não é o tamanho da pena,
mas a certeza da punição. Portanto, ninguém precisa levantar
a bandeira da pena de morte, da cadeira elétrica, da prisão perpétua.
Isso é coisa do botãozinho mental. O que funciona é levantar
a bandeira da punição: que o criminoso seja encontrado, julgado,
condenado e cumpra a pena a que for condenado. Só ou tudo
isso. O Brasil precisa parar o carrossel da impunidade. É na vastidão
da impunidade que está o veneno. E que ninguém se iluda: a impunidade
no Brasil não beneficia só ricos e brancos. Acolhe também
pretos e pobres, ainda que eles sejam a população que lota os presídios.
A impunidade brasileira, que ninguém se iluda, é democrática.
É fácil dizer
que a impunidade resulta da incompetência da polícia, da morosidade
da Justiça. Isso é verdade, mas sua raiz está na falta de
coesão da sociedade. Numa terra em que o estado chegou antes da nação,
os botocudos clamam por punição quando os atingidos pertencem ao
próprio grupo. É um fenômeno interessante do ponto de vista
sociológico, ainda que seja repulsivo do ponto de vista ético. Advogados
se chocam com a morte de advogados. Cariocas se chocam com a morte de cariocas.
Sim, o Brasil ficou chocado com a morte de João Hélio. Isso também
é verdade. Mas cadê a missa de sétimo dia na Catedral da Sé
em São Paulo? Cadê a passeata nas ruas de Belo Horizonte ou Brasília?
Cadê o minuto de silêncio nos estádios de Porto Alegre ou Salvador?
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