Claudio
de Moura Castro
Ascensão
e queda
do canudo
"Para
consternação de alguns, a lei
da oferta e da
demanda funciona também no ensino
superior: chuchu
e canudo têm seu preço afetado pelo
mercado"
Ale Setti
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"Saudações universitárias!" Assim terminavam
algumas cartas do punhadinho de alunos que chegavam ao nível
superior nos anos 60. Era a glória e a vaidade de
estar entre os pouquíssimos que galgavam esse nível.
Nos anos 70, dentre alunos do antigo "Ginásio Orientado
para o Trabalho", superava 95% a proporção
que afirmava sua intenção (irrealista) de
ir para o ensino superior. Esses ginásios ensinavam
uma profissão manual, desdenhada por 99,5% de seus
alunos, pois o magnetismo do canudo deslumbrava a todos.
Com o crescimento da matrícula superior, o paraíso
vai ficando mais remoto e o diploma deixa de ser o passaporte
garantido para empregos de alto status. Escândalo,
um engenheiro em São Paulo vê-se forçado
a abrir uma casa de sucos na Avenida Paulista e fulmina
a decadência do diploma batizando a loja: O Engenheiro
que Virou Suco.
Mas persistia entre os educadores a idéia de que,
embora os empregos percam sua glória, o status do
canudo universitário sobrevive incólume. Uma
pesquisa recente da Confederação Nacional
do Transporte (CNT) enterra esse mito, ao perguntar se para
arranjar um bom emprego é preciso ter diploma de
faculdade ou o curso profissionalizante é suficiente.
Surpresa, 48% dos respondentes acreditam mais no profissionalizante,
contra 42% que fazem mais fé no diploma.
Perguntados se para atender à sua comunidade deveria
ser instalada uma faculdade ou um curso profissionalizante,
55% preferem o profissionalizante e apenas 38% a faculdade.
Ainda mais incrível, o valor simbólico do
diploma também cai. Indagados se para ter prestígio
na sociedade é importante cursar uma faculdade, apenas
29% respondem afirmativamente. Sessenta por cento acham
que depende de outros fatores.
Que conclusões tiramos disso tudo? A educação
está perdida? Como Napoleão, acusando a Inglaterra
de ser um país de mercadores, denunciamos igualmente
a comercialização do ensino?
Há outras leituras da realidade. Tínhamos
um ensino superior mirrado, ínfimo, em que os alunos
eram muito mais peneirados e seu número era menor
que o estoque de empregos na profissão correspondente.
Por isso, só com o diploma todos conseguiam boas
posições. Não se tratava de suposta
qualidade melhor dos cursos embora houvesse alguns
excelentes.
A expansão do 2º grau e do superior começa
a tirar as primeiras lascas do extremo elitismo social de
nossa educação. E, para consternação
de alguns, a lei da oferta e da demanda funciona também
no ensino superior: chuchu e canudo têm seu preço
afetado pelo mercado (bradar slogans contra o neoliberalismo
ajuda pouco). Portanto, está havendo o bem-vindo
e o inevitável: mais graduados, mais povo matriculado
e mais competição para os empregos.
As pessoas que responderam ao questionário da CNT
revelaram-se pragmáticas. Se o privilégio
do diploma não dá mais conta de garantir bons
empregos, passa a ser vital repensar o que se aprende nos
cursos. A opção por um curso profissionalizante
é a tradução direta da percepção
de que importa mais o conteúdo do que a embalagem.
O povo deixou os ideólogos para trás.
Mas cabe aos educadores traduzir essa demanda pragmática
em cursos concretos e voltados para os mercados existentes
(sem desprezar objetivos de longo prazo). Nas ocupações
mais simples, temos uma boa tradição profissionalizante,
destilada de meio século de Senai/Senac. Só
falta mais quantidade. Nas carreiras pós-secundárias
mais curtas de um ano ou dois estamos próximos
à estaca zero (embora nos países ricos mais
da metade dos graduados de cursos superiores venham daí).
Sabemos traduzir profissionalização para veterinários,
médicos e outras carreiras em que o diploma leva
a uma ocupação bem definida. Mas a estratégia
para dentistas é diferente da que requerem os economistas.
Nas áreas sociais e nas humanidades, raramente o
emprego será em uma posição que tem
o mesmo nome do diploma. Quando se estuda para uma ocupação
futura desconhecida e mutante, a lógica é
outra. Nessas áreas, profissionalizar será
ensinar a escrever, expressar-se verbalmente, pensar com
números, resolver problemas e ter uma sólida
cultura geral e humanística.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)