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Roberto Pompeu de Toledo

Epigramário dos náufragos dos anos 60

Versinhos, a esta altura!?
Perdoe-se, é
só a título de contribuição
ao inventário
dos mitos e patetices de
uma geração

CHE GUEVARA (1967)

Que boina, que belo, que barba...
Que sonho, que sanha, que santo...
O olhar que, na foto célebre,
escruta ao longe, e espreita,
e espia,
confirma-o como inigualável
sentinela da utopia.

MURO DE BERLIM (1961)

O mundo assim divide-se
melhor que em Tordesilhas:
pedra, cimento e cal,
em vez de linha indecisa
a traçar, muito imprecisa,
o butim de cada qual
nas futuras maravilhas.

MURO DE BERLIM (1989)

Reduzido a fiapos,
como o santo lenho,
cada um tem um pedaço.
O muro privatizou-se:
agora, cabe no bolso.

UM BANQUINHO E UM VIOLÃO

Melhor um banquinho
e Nara Leão.
Melhor ainda
um cantinho e Nara Leão.

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

Que posso dar-te, querida,
para marcar-te como obra de arte,
agarrar-te ao peito como enfarte,
ao infinito espaço lançar-te

como astronauta rumo a Marte?
Já sei: desta vez, modéstia à parte,
para ajudar a desemburrar-te,
dou-te um livro de Jean-Paul Sartre.

GAROTA DE IPANEMA

Quando pensam no que deu
a menina, ao crescer,
poeta e maestro encaram-se,
intrigam-se, assustam-se
e, sem jogo de cena,
perguntam-se: – Valeu a pena?

MAIO DE 1968 E DEPOIS

Se é proibido proibir, então
tudo vale, e inclusive: a tortura,
a fome, o desamparo, a lei dura
do apartheid, o genocídio, o napalm,
o seqüestro, o apocalipse now,
covardia, estupro, desonra, guerra,
falcatruas de tremer a terra.
Valeu, caro irmão de barricada.
O lema veio mesmo a calhar
ao que se seguiu, de enxurrada.

VINICIUS

As muito belas que me perdoem, mas,
apesar do infinito enquanto dura,
e posto que é chama, e etcétera e tal,
Drummond é que é fundamental.
(Vide Drummond)

ANTONIONI

Ai que angústia,
que trava na
comunicação...
No entanto,
finda a sessão,
quanto a dizer,
quanto palpite
enquanto desce
o chope (mais um!)
e rola na língua
a batata frita.
Céus, que sede, que apetite
nos deu Monica Vitti!

DRUMMOND

No meio do caminho tinha uma pedra,
tinha uma pedra no meio do caminho.
No meio do caminho
tinha "A Educação pela Pedra",
e ficou-nos a dúvida crucial:
Será mesmo Drummond?
Ou agora é esse João Cabral?

CHE GUEVARA (2001)

É apenas um pôster
na parede.
Mas como dói.

GRAN FINALE

O último que sair
apague a luz
no fim do túnel.

 

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