Mui amigo
O indiscreto Saul Bellow tira
do
armário
um colega que era guru dos conservadores
Carlos
Graieb
Em
quase sessenta anos de carreira literária, o canadense
Saul Bellow retratou um sem-número de familiares e
amigos. Como nem sempre foi benevolente, a cada novo lançamento
ele causa arrepios entre os que lhe são mais próximos.
"Abro seus livros com medo, só de pensar que posso
estar neles", afirmou há alguns anos o filho mais velho
de Bellow. Nunca, porém, um desses retratos ficcionais
causou tanta discussão quanto o dedicado ao pensador
político americano Allan Bloom em Ravelstein
(tradução de Léa Viveiros de Castro;
Rocco; 213 páginas; 23 reais). Bloom que não
deve ser confundido com o crítico literário
Harold tornou-se celebridade mundial no fim dos anos
80, ao publicar O Declínio da Cultura Ocidental,
um ataque virulento às universidades modernas e
um lamento em favor das obras clássicas, que teriam
sido trocadas por "prazeres mais acessíveis e menos
substanciais". Ao descrever esse amigo de vários anos,
um homem idiossincrático, dotado de enorme charme e
erudição fenomenal, Bellow cometeu duas indiscrições:
tornou pública sua homossexualidade e sugeriu que a
morte de Bloom, ocorrida em 1992, se deveu a complicações
do vírus HIV.
Mesmo antes de o livro ser lançado nos Estados Unidos,
uma tormenta se formou. Conservadores que tiveram Bloom como
guru chocaram-se com a idéia de sua homossexualidade.
Mais complicada é a questão da Aids. Seu atestado
de óbito não traz nenhum registro a respeito
e o médico que o atendia desmente a doença.
"Por muito tempo acreditei saber do que Allan havia morrido,
mas surgiram novos dados e não posso afirmar nada com
certeza", disse Bellow numa entrevista. A polêmica fez
com que passagens de Ravelstein fossem alteradas. Referências
a uma vida gay tornaram-se mais oblíquas e algumas
menções ao HIV foram cortadas. Mas não
todas. E nesse ponto convém lembrar o óbvio:
embora próximo da biografia, o livro é uma obra
de ficção. Na mesma entrevista em que expôs
suas dúvidas sobre a morte de Bloom, Bellow apontou
um motivo para que sua contraparte literária, Ravelstein,
tivesse, sim, Aids: "Queria que o personagem fosse um homem
que conseguiu tudo na vida, mas que também tem uma
faca encostada em seu pescoço".
Saber que Bellow se inspira em pessoas de carne e osso para
compor seus personagens é importante. É difícil
não se render a um autor que consegue transmitir de
maneira tão vívida não apenas o aspecto
físico, mas também a complexa vida interior
de alguém que existiu de fato. Mas lembrar que Abe
Ravelstein e Allan Bloom não compartilham a mesma natureza
também é fundamental. Como figura literária,
o protagonista de Ravelstein é um "símbolo":
suas paixões, sua cultura, sua raça, dizem respeito
a muitos homens, e não apenas a um. Dez anos atrás,
quando completou 75 anos, Saul Bellow afirmou que já
não possuía a estamina para escrever livros
longos. Engano. Ravelstein é seu maior texto
em uma década e mostra que esse ganhador do Prêmio
Nobel continua em forma.
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Exigências
da alma
"Em
suas aulas ele tossia, gaguejava, fumava, gritava, ria,
fazia os alunos se levantarem das cadeiras, discutia,
provocava-os, argüia-os, espicaçava-os.
Ele não perguntava 'Onde é que você
vai passar a eternidade?', como faziam os fanáticos
religiosos, mas sim 'Como é que, nesta democracia
moderna, você vai atender às exigências
da sua alma?' (...) Homens e mulheres corajosos, principalmente
os jovens, dedicavam-se à busca do amor. Em contraste,
o burguês era dominado pelo temor da morte violenta.
Pronto, da forma mais breve possível, você
tem um esboço das preocupações
mais importantes de Ravelstein."
Trecho
de Ravelstein
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