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Riso e castigo

Romance menos conhecido de Dostoievski
põe em evidência o lado cômico de sua obra

Flávio Moura

Dostoievski: obra da qual não se sai ileso

"Fale de sua aldeia e estará falando do mundo." Em poucos livros esse já desgastado bordão do russo Leon Tolstoi parece tão verdadeiro quanto em A Aldeia de Stiepântchikov e Seus Habitantes (tradução de Klara Gouriánova; Nova Alexandria; 240 páginas; 26 reais), do também russo Fiodor Dostoievski. Escrito em 1859, logo após a volta do autor da Sibéria, onde passou dez anos como prisioneiro político, o texto é uma ligeira comédia rural, mas traz o fundo existencial e metafísico que sempre marcou suas criações. Presente em duas edições das obras completas de Dostoievski (a da Nova Aguilar e a da José Olympio, ambas esgotadas), A Granja de Stiepântchikov e Seus Moradores jamais havia sido lançado de forma avulsa no Brasil. Outro diferencial é que o livro que agora chega ao mercado foi vertido diretamente do russo.

A figura central do romance é Fomá Fomitch Opískin, um pobretão agregado à família do coronel Iegor Ilitch Rostaniov. Depois de se tornar confidente da mãe do militar, ele passa a dar as cartas em sua casa. Enquanto Fomá profere cabriolas retóricas, posa de ilustrado e não poupa ardis para que todos na casa se dobrem a seus caprichos absurdos, o coronel se torna cada vez mais submisso. Tenta anular-se completamente para não contrariar a mãe e seu confidente. O conflito, no entanto, acaba estourando. Fomá é das primeiras criações de que o autor se valeu para elaborar um tema constante em sua obra: indivíduos humilhados que tripudiam sobre outros, também humilhados. Poucos anos depois, Dostoievski voltaria a retratar um personagem desse tipo – o homem insignificante que se coloca na condição de semideus – em Memórias do Subsolo, cujo narrador é um pobre-diabo capaz de desafiar o mundo inteiro.

O traço mais comumente associado a A Aldeia de Stiepântchikov é o humor. O texto é em tom de paródia. Fomá Fomitch é um verdadeiro bufão. Não falta quem o caracterize como o "Tartufo russo", numa referência à comédia do dramaturgo francês Molière, em que um agregado impostor se casa com a filha do dono da casa. O humor não é, porém, um traço exclusivo dessa obra. Embora o leitor de Dostoievski geralmente fique impressionado pelo lado sombrio e trágico da existência humana que aparece em romances como Crime e Castigo e Irmãos Karamazov, a veia cômica está presente em toda a produção do escritor. Seu humor raramente é contido, mas rasgado e de fundo iconoclasta. Não à toa, o crítico russo Mikhail Bakhtin, autor de um estudo fundamental sobre Dostoievski, o situa como representante de um gênero "sério-cômico". A Aldeia de Stiepântchikov e Seus Habitantes se presta bem à definição. Engraçado na superfície, o livro torna-se claustrofóbico e angustiante ao jogar com personagens solitários, que lutam desesperadamente para se afirmar como indivíduos. Não é leitura de que se saia ileso.


Um trapo para limpar botas

"– Perdoar? O senhor tem culpa? – disse Fomá. – Será que o senhor compreende que é culpado perante mim já pelo fato de ter me dado pão? Será que compreende que bastou um minuto para que o senhor envenenasse todo o pão que eu comi nesta casa? O senhor jogou-me na cara esses pedaços de pão, cada pedacinho comido e engolido por mim; o senhor provou-me agora que vivi como escravo em sua casa, como lacaio, como um trapo para limpar botas de verniz. No entanto, eu, na pureza do meu coração, pensava até agora que morava em sua casa como amigo e como irmão! Não foi o senhor próprio, não foi o senhor mesmo quem, com seus discursos viperinos, assegurava-me nossa amizade, nossa fraternidade? Para que, então, urdia secretamente essa teia, na qual caí como um tolo? Para que, na calada da noite, cavava esta solapa, para a qual empurrou-me agora o senhor mesmo?"

Trecho de A Aldeia de Stiepântchikov e Seus Habitantes

 

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