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Um chinês na arena romana

O Tigre e o Dragão é o maior rival de
Gladiador
na briga pelo Oscar

O Oscar já não é mais o mesmo – ainda bem. Com o anúncio dos candidatos ao prêmio deste ano, na terça-feira, a Academia se mostrou muito receptiva aos talentos que trabalham à margem de Hollywood e também àqueles que, literalmente, não falam a sua língua. Pela primeira vez, um filme em idioma estrangeiro conquistou o espantoso total de dez indicações. Trata-se de O Tigre e o Dragão, que mistura romance e artes marciais, é falado em mandarim, só tem astros de origem chinesa e é dirigido por um taiwanês – Ang Lee, que tem fortíssimas chances de ser sagrado o melhor diretor na noite de 25 de março. Mais: O Tigre e o Dragão disputa não só a estatueta de filme estrangeiro, mas também a de melhor filme, assim como o italiano A Vida É Bela fez em 1999. É verdade que uma superprodução americana domina o cenário – Gladiador, que concorre em doze categorias e tem tudo para abocanhar o prêmio principal. Mas seu favoritismo nas outras indicações está longe de ser um fato consumado.

A batalha mais apertada é a dos diretores. À parte o azarão Stephen Daldry, do drama inglês Billy Elliot, Ang Lee tem rivais de peso: Ridley Scott, de Gladiador, e Steven Soderbergh – em versão dupla. Revelado em 1989 com o independente sexo, mentiras e videotape, esse americano de 38 anos conseguiu um feito sem precedentes: concorre consigo mesmo nas categorias de filme e diretor, por Erin Brockovich, protagonizado por Julia Roberts, e pelo extraordinário Traffic, que disseca a frustrante guerra contra o tráfico de drogas nos Estados Unidos. O ruim é que Soderbergh pode ter seus votos pulverizados entre as duas candidaturas. O bom é que sua presença confirma o perfil um pouco mais arrojado da Academia nos últimos anos.

A briga por votos deve repetir-se no páreo de melhor atriz. A vitória de Julia Roberts é dada como certa, mas é bom que a rainha não encomende ainda sua coroa. A Academia tem lá seu orgulho e não gosta desse clima de "já ganhou". Não é impossível que tire o prêmio das mãos de Julia e o entregue à veterana Ellen Burstyn ou à revelação Laura Linney, uma atriz até aqui do segundo escalão. Em outras áreas, a guerra é menos acirrada. Russell Crowe deve ser compensado pela injusta derrota para Kevin Spacey no ano passado. Tudo indica ainda que o excelente Benicio Del Toro levará o troféu de coadjuvante por Traffic (no qual fala quase que só espanhol) e a novata Kate Hudson, filhota de Goldie Hawn, pelo delicioso Quase Famosos.

Já os torcedores brasileiros ficaram de novo na saudade, uma vez que Eu Tu Eles não conseguiu vaga na corrida. Mas a consolação surgiu de forma inesperada, com a indicação do curta-metragem Uma História de Futebol, de Paulo Machline (veja quadro). Mesmo que não saia vencedor, Machline terá obtido um cobiçado troféu: num mercado abarrotado de desconhecidos, já tem o equivalente a um selo papal para afixar em seus projetos e pedidos de financiamento.

 

Os indicados nas principais categorias
do Oscar 2001

Filme

Chocolate

Erin Brockovich

Gladiador

O Tigre e o Dragão

Traffic

 

Diretor

Ang Lee
O Tigre e o Dragão

Ridley Scott
Gladiador

Stephen Daldry
Billy Elliot

Steven Soderbergh
Erin Brockovich

Steven Soderbergh
Traffic

     

Ator

Ed Harris
Pollock

Geoffrey Rush
Contos Proibidos do Marquês de Sade

Javier Bardem
Antes do Anoitecer

Russell Crowe
Gladiador

Tom Hanks
Náufrago

 

Ator coadjuvante

Albert Finney
Erin Brockovich

Benicio Del Toro
Traffic

Jeff Bridges
The Contender

Joaquin Phoenix
Gladiador

Willem Dafoe
Shadow of the Vampire

     

Atriz coadjuvante

Frances McDormand
Quase Famosos

Judi Dench
Chocolate

Julie Walters
Billy Elliot

Kate Hudson
Quase Famosos

Marcia Gay Harden
Pollock

 

Atriz

Ellen Burstyn
Requiem for a Dream

Joan Allen
The Contender

Julia Roberts
Erin Brockovich

Juliette Binoche
Chocolate

Laura Linney
You Can Count on Me

Favoritos



A surpresa brasileira

J. F Diorio/AE
Luiz Prado/AE
Machline (à esq.) e uma cena de seu filme: curta sobre a infância de Pelé pode lhe dar uma estatueta

Produzido e dirigido por Paulo Machline, cineasta paulistano pouco conhecido até mesmo no Brasil, o curta-metragem Uma História de Futebol é o único representante nacional na festa do Oscar. "Sinto-me como se houvesse ganho na loteria", diz o diretor, que há três anos mora em Nova York. Uma História de Futebol é baseado nas memórias do empresário Aziz Adib Naufal, que na infância foi companheiro de futebol de Pelé. Narrado pelo ator Antonio Fagundes, o filme mistura personagens reais com inventados e mostra a suposta gênese de jogadas que Pelé eternizaria anos mais tarde – como o famoso "drible da vaca", aplicado sobre o goleiro da seleção uruguaia na Copa de 70.

Filho do falecido Matias Machline, dono da fábrica de eletrodomésticos Sharp, Paulo teve cacife para bancar a produção do próprio bolso. Orçado em 280 000 reais, o curta foi premiado nos festivais de cinema de Nova York e Bombaim – o que animou o diretor a inscrevê-lo no Oscar. A carreira de Machline inclui videoclipes de bandas de rock e uma passagem tímida pela publicidade. Ele se prepara agora para dirigir um longa-metragem. O filme deve se chamar Socorro e contará a história de uma moça do interior de São Paulo que vive em função das novelas da Rede Globo.

 
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