Canibal
sem dentes
Anthony Hopkins volta ao seu personagem
mais famoso em Hannibal. Mas, sem
a
companhia de Jodie Foster, ele já não
assusta como antes
Isabela Boscov
Fotos divulgação
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| Hopkins
e Julianne numa das poucas cenas que dividem em Hannibal:
sem a profundidade e o clima perturbador de O Silêncio
dos Inocentes |
Poucos
filmes causaram tanta sensação na história
recente do cinema americano quanto O Silêncio dos
Inocentes, de 1991. Sua trama policial era até
corriqueira: uma agente federal precisa caçar um assassino
serial antes que ele faça mais vítimas. Para
tanto, busca o auxílio de outro psicopata, já
encarcerado, que lhe ajude a desvendar a mente de sua presa.
O lance realmente original estava nos personagens. De um lado,
a insegura, reprimida e dedicada Clarice Starling, que tenta
garantir sua vaga no FBI. De outro, o psiquiatra Hannibal
Lecter, um homem inteligente e refinado que, no entanto, manifesta
seu desequilíbrio rompendo o tabu do canibalismo. Numa
inspiração de gênio, o diretor Jonathan
Demme e o roteirista Ted Tally mudaram o foco desse enredo,
tirado de um livro do escritor Thomas Harris. Em vez de a
estranha cumplicidade entre Clarice e Lecter ser coadjuvante
da história, ela seria seu verdadeiro centro. Foi um
ajuste crucial: raras vezes Deus e o demônio estiveram
tão perto de seduzir um ao outro. Entregue-se um roteiro
desses aos atores absolutamente certos Jodie Foster
e Anthony Hopkins e tem-se o filme magistral que foi
O Silêncio dos Inocentes. Várias das peças
desse quebra-cabeça, porém, estão faltando
em Hannibal (Estados Unidos, 2001), que estréia
nesta sexta-feira no país. Hannibal não
passa de um policial comum, que só deixa vislumbrar
o filme que poderia ter sido nos minutos finais, quando Lecter
e Clarice protagonizam seu único encontro.
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| Julianne,
no papel da agente Clarice, que Jodie Foster não quis
reassumir: estereótipo |
A
mudança mais visível de Hannibal é
que Clarice não é mais interpretada por Jodie
Foster, que faz objeções à violência
do novo livro de Thomas Harris, no qual se baseia essa continuação.
Em seu lugar entrou Julianne Moore, que é uma ótima
atriz. Mas faltam-lhe alguns dos traços que Jodie explorou
corajosamente em sua personagem: a repressão sexual
e as marcas indeléveis de quem precisou superar as
origens humildes para revelar seu valor. Eram essas as características
que tornavam Clarice ao mesmo tempo tão vulnerável
e tão impermeável a Lecter, e que atraíam
o canibal. Clarice, agora, já não tem tantas
dimensões. É o estereótipo da mulher
endurecida. Passados alguns anos de carreira respeitável,
ela acaba de cair em desgraça no FBI. Sua aflição
é a deixa para que o foragido Lecter volte a se manifestar.
Ao ser informado disso, o milionário Mason Verger,
um sobrevivente da fúria antropofágica de Lecter,
decide usá-la como isca para capturar o inimigo. Verger
é interpretado por Gary Oldman, que decidiu tirar seu
nome dos créditos por não poder ser o primeiro
da lista.
Tudo soa raso. Verger, que retalhou a própria face
sob indução de Lecter, é um desses personagens
que só existem na pior ficção. O FBI
deixou de ser aquela força impessoal que governava
simbolicamente a vida de Clarice, para se tornar um vilão
com o rosto de Ray Liotta, no velho papel do superior burro
e chauvinista. E Lecter virou um vilão de quadrinhos.
Radicou-se em Florença e é uma sumidade em arte
renascentista. Vive como um dândi e usa sua extraordinária
inteligência para antecipar cada lance de seus perseguidores.
Com a rédea tão solta, Hopkins cai várias
vezes na tentação de parodiar seu personagem.
O novo rumo de Hannibal pode ser atribuído à
troca de guarda também atrás das câmaras.
Com a recusa de Demme, a direção coube a Ridley
Scott, de Gladiador. O inglês Scott é
um virtuose do visual, qualidade que reafirma aqui. Mas está
longe de ser sutil. Seu filme tem cenas de embrulhar o estômago,
mas que, ironicamente, não provocam medo ou angústia.
Para quem saiu de O Silêncio dos Inocentes com
as palmas das mãos recobertas de suor frio, é
uma decepção. Só do ponto de vista financeiro
Hannibal pode ser considerado um sucesso. Rendeu 58
milhões de dólares apenas em seu fim de semana
de estréia nos Estados Unidos, o que o qualifica a
ocupar a terceira posição nesse ranking. E também
a confirmar a tese de que a verdadeira motivação
por trás de uma continuação é
mesmo a de caçar níqueis.
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