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No balanço das ondas

Artistas de renome, mas que já
não fazem tanto sucesso, faturam
um bom dinheiro e se divertem a
valer com shows em navios

Marcelo Marthe

Claudio Rossi
Célia: cantando sentada para não cair


Até pouco tempo atrás, quando um artista brasileiro deixava de fazer sucesso nas rádios e passava a ser esnobado pelas gravadoras restavam-lhe poucas alternativas para manter-se à tona. As saídas eram shows em casas noturnas do segundo time ou turnês por cidadezinhas do interior. Agora há outro caminho: tomar o próximo navio. Graças ao crescimento do mercado de cruzeiros marítimos – neste verão, devem passar pelos portos nacionais cerca de noventa transatlânticos de turismo, 10% mais que no ano passado –, cantores que gozam de certo renome, mas já não vivem o auge de suas carreiras, estão faturando cachês de 8.000 a 12.000 reais por apresentação. É no mínimo três vezes mais do que ganham nas casas noturnas. Os campeões de milhas navegadas são a paulistana Célia, com 52 anos e trinta de carreira, e o carioca Pery Ribeiro, de 63, que começou nos idos de 60. Ambos descobriram esse nicho há alguns anos e, na atual temporada, que começou em dezembro e se encerra no mês que vem, têm feito em média um show por semana. Eventualmente, figuras como Jair Rodrigues e Agnaldo Rayol também prestam seus serviços a bordo de navios. Além do cachê, eles são atraídos pelas mordomias, que incluem cabine com hidromassagem, água Perrier à vontade e direito a acompanhante. "É uma forma de tirar férias lucrativas", diz Jair Rodrigues.


Divulgação
Jair Rodrigues: cachês entre 8 000 e 12 000 reais por espetáculo


Para fazer sucesso em cruzeiros marítimos, o artista tem de ser um crooner com jogo de cintura – capaz, por exemplo, de engatar músicas que não estavam no repertório programado para atender a pedidos. Se na platéia há europeus, não custa investir em canções nacionais para lá de manjadas, a exemplo de Garota de Ipanema. E, como cerca de um terço dos passageiros é de argentinos, é bom ter na ponta da língua um pot-pourri de tangos e bolerões. O apelo nostálgico no cardápio de qualquer um desses cantores deve-se ao fato de que grande parte da platéia de cruzeiros já dobrou a marca dos 40 anos. Além de ter empatia com essa clientela, o artista precisa estar preparado para uma rotina atribulada. Numa mesma semana, ele pode viajar de avião a Maceió, fazer um show no trajeto do navio de lá até Salvador e, em seguida, subir noutro avião com destino a Buenos Aires, onde embarcará num cruzeiro para Florianópolis.

Pery já cantou no Caribe, a bordo do gigantesco Voyager of the Seas. Célia, por sua vez, viajou três meses pelo Mediterrâneo embalando platéias européias fascinadas pela exótica MPB. Mas nem tudo é um mar de rosas. Em dezembro passado, quando a apresentadora de TV Hebe Camargo gravou seu programa especial de fim de ano a bordo do navio Costa Allegra, levou a tiracolo Paulo Ricardo, Sidney Magal, Jair Rodrigues e Zizi Possi. À exceção do experimentado Rodrigues, todo mundo ficou enjoado. Um incidente parecido ocorreu durante o lançamento do novo disco de Célia, também no fim do ano passado. Foi uma boca-livre daquelas, em que até Lucinha Lins e Jane Duboc deram canjas. Na hora H, porém, o mar encrespou. "Nunca vi chacoalhar tanto", lembra Célia, que cantou sentada para não cair. "Todo mundo passou mal. Aquilo virou um vomitódromo."

 

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