As surpresas da genética
Fim
do Projeto Genoma traz mais
perguntas do que respostas
Bia
Barbosa
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Depois
de dez anos de pesquisas e disputas colossais, cientistas
do Projeto Genoma Humano e da companhia privada Celera Genomics
conseguiram montar por completo o quadro de informações
do código genético humano, o genoma. Na semana
passada, publicaram nas duas maiores revistas científicas
do mundo 95% do seqüenciamento do genoma. As descobertas
foram impressionantes e colocaram em xeque muitos conceitos
consagrados da genética.
Em resumo, os cientistas descobriram que os genes são
apenas um rascunho ou uma receita tosca de como se fabrica
um ser vivo. Eles contêm a matéria-prima de como
fazer os tijolos da vida, as proteínas, mas não
todas as instruções de como montá-los
de modo que o resultado final seja um bebê humano saudável.
Um exemplo: estão contidas nos genes as instruções
para que as células reprodutoras, uma vez fecundadas,
se diferenciem e dêem origem a coração,
pulmão, cérebro, músculos e todos os
órgãos do corpo humano. Mas os genes não
informam que a cabeça tem de ficar em cima dos ombros
ou que os braços devem sair um de cada lado do tronco.
Essa orientação espacial que permite ao embrião
tomar a forma natural que conhecemos é dada por instruções
bioquímicas no útero materno. Ou seja, os genes
são quase tudo. Quando se imaginava que eram tudo.
AFP
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| Cientista
exibe os resultados da pesquisa: caça às
proteínas |
Em
parte isso se explica pelo número reduzido de genes.
Os seres humanos têm cerca de 30.000,
um terço do que se imaginava antes da conclusão
do genoma. É pouco gene para tanta diversidade. Só
de proteínas diferentes no organismo, estima-se que
existam entre 300.000 e 1 milhão.
O código genético humano tem tantos genes quanto
um pé de milho. A mosca drosófila tem 13.000
e um verme nematóide, 19.000.
"Isso é uma facada no orgulho da nossa espécie.
Como podemos continuar de cabeça erguida sabendo que
temos apenas uns poucos genes a mais do que um verme?", disse
Francis Collins, coordenador da equipe internacional do Projeto
Genoma Humano. "Por outro lado, é apenas uma pista
para buscar onde reside a complexidade que nos torna humanos."
A pouca quantidade de genes humanos relativizou a importância
dessa microestrutura descoberta pelo monge Gregor Mendel no
final do século XIX. Quanto mais panorâmica a
visão do genoma humano, mais clara a idéia de
que o gene, sozinho, não faz milagres. "A noção
de que um gene é igual a uma doença ou que produz
uma proteína-chave está voando janela afora",
afirmou Craig Venter, que liderou a pesquisa na Celera. O
gene, sabe-se agora, é uma pequena parte de um imenso
processo que envolve milhares de substâncias e reações
orgânicas. Em sua avaliação, Venter antecipa
o fracasso de muitas das técnicas de tratamento que
começaram a ser testadas nos principais centros de
pesquisa do mundo nos últimos anos. Trata-se das promissoras
terapias genéticas, que prometem curar pessoas corrigindo
defeitos em genes que não funcionam como deveriam.
Para o cientista, o ser humano é muito complexo para
ser controlado apenas pela alteração de um ou
outro gene.
A complexidade estaria não na quantidade de genes que
possuímos, mas sim na capacidade do organismo humano
de combiná-los e transformar-se numa usina bioquímica
produtora de proteínas. A missão de identificá-los,
determinar sua localização, função
e como interagem é o principal alvo dos geneticistas
a partir de agora. Começa-se a discutir um grande projeto
nos moldes do que acaba de ser concluído para estudar
todas as proteínas responsáveis pelo funcionamento
do corpo humano. Vai ser uma tarefa gigantesca, envolvendo
enzimas, anticorpos e hormônios como a insulina, estruturas
muito mais complexas que o próprio DNA. Uma única
proteína pode estar envolvida em mais de um processo,
acumulando funções. Além disso, tarefas
comuns como determinar secreção deste ou daquele
hormônio podem envolver inúmeras proteínas.
Ou seja: é jogo matemático de probabilidades
praticamente infinito. Os cientistas já têm uma
idéia do que encontrarão pela frente. Como as
células apresentam funções diferentes,
cada uma sintetiza um conjunto de proteínas correspondentes
a suas atribuições orgânicas. Cada um
desses conjuntos, que podem chegar a ter 15.000
proteínas, é chamado de proteoma. "Devemos demorar
pelo menos trinta anos para começar a compreender o
funcionamento de tudo isso", acredita Marcelo Valle de Sousa,
professor da Universidade de Brasília e coordenador
do Centro Brasileiro de Serviços e Pesquisas em Proteínas.
Com a abertura da caixa de surpresas do genoma, foram confirmadas
suspeitas que fazia muito tempo rondavam os laboratórios
e provocavam arrepios nos geneticistas mais radicais. Voou
pela janela, junto com o antigo conceito de gene, o determinismo
genético, em que tudo pode ser explicado pelo que está
escrito no DNA humano. Do mesmo modo como uma mutação
em gene associado ao câncer não determina o desenvolvimento
de um tumor, práticas de exercícios e uma dieta
equilibrada podem evitar o aparecimento de doenças,
apesar de anomalias genéticas. As influências
ambientais são tão decisivas quanto o genoma
no funcionamento do organismo. Com isso, distancia-se o sonho
de um dia clonar seres humanos para conseguir cópias
exatas. Por mais que se criem pessoas parecidas ou até
idênticas geneticamente, elas reagirão sempre
de maneira diferente aos estímulos externos e nunca
terão personalidade, comportamento nem físico
exatamente iguais.
Da mesma forma como genes não produzem seres idênticos,
também não justificam as diferenças raciais.
O resultado final do Projeto Genoma revelou que todos os seres
humanos são 99,99% idênticos do ponto de vista
biológico. A diferença entre um negro e um japonês,
além da que enxergamos nos traços físicos,
está apenas em uma letra trocada a cada conjunto de
1 000 entre todas que formam nosso código genético.
São elas que determinam nossa individualidade e podem
trazer informações sobre bases genéticas
para criatividade, memória e coordenação
motora. Para achar essas e outras explicações
nos paradoxos do genoma, os cientistas terão de vasculhar
áreas até hoje ignoradas. Terão de se
debruçar sobre um amontoado de informações
desconhecidas que se acreditava lixo sem utilidade nenhuma.
A decifração do genoma respondeu a algumas questões.
Mas, no processo, levantou outras ainda mais enigmáticas.
Prova de que se fez boa ciência. Todas as grandes descobertas
precedentes da humanidade abriram janelas e não fecharam
portas à curiosidade.
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