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Vou entrar nessa guerra


Ilustração Pepe Casals

Estou pronto para a guerra contra o Canadá. Na mesma trincheira que nossos patrióticos donos de restaurante, que jogaram uísque V.O. pelo ralo da pia. Na mesma trincheira que nossos valorosos radialistas, que boicotaram as músicas de Celine Dion. Só este motivo já valeria uma guerra contra o Canadá: Celine Dion.

Todo mundo sabe que o conflito começou com a tal Bombardier, que reclamou dos subsídios concedidos pelo governo brasileiro à Embraer. Quem se importa que o Brasil tenha infringido um acordo de comércio internacional que ele próprio assinou? Como diriam os pecuaristas de Mato Grosso e os parlamentares do PT, o que conta é que o Canadá, nessa batalha, representa a petulância das grandes potências contra o Brasil terceiro-mundista. Viva o Brasil! Abaixo o Canadá!

Joseph-Armand Bombardier, fundador da empresa que leva seu nome, inventou o trenó motorizado. Podemos boicotá-lo sem o menor problema, considerando a ausência de neve em nossas terras ensolaradas. O trenó motorizado deu origem ao jet ski. Nesse caso, o boicote é mais doloroso: pedimos para os políticos de Brasília darem o exemplo, deixando de usar seus jet skis no Lago Norte até que a disputa seja definitivamente resolvida. Outros dois canadenses, Charles Best e Frederick Banting, este último ganhador do Nobel de medicina em 1923, inventaram a insulina. Em prol da pátria, nossos heróicos diabéticos têm o dever de resistir por um certo período sem o seu medicamento. Temo que tenhamos também de abdicar do telefone, que começou a ser concebido por Graham Bell em Brantford, Ontario, em 1874. Ainda bem que nunca temos nada de muito importante a dizer.

Em matéria de literatura, fica categoricamente proibida a entrada no Brasil dos canadenses Saul Bellow, Michael Ondaatje e Margaret Atwood. Sobreviveremos. O economista John Kenneth Galbraith talvez faça um pouco de falta à nossa esquerda, mas ele é antiimperialista e podemos conceder-lhe a cidadania honorária. Na área musical, adeus a antigas glórias como Oscar Peterson, Neil Young, Leonard Cohen, Joni Mitchell. Eles têm Glenn Gould? Pois nós contra-atacamos com o grupo Timbalada! Na internet, chega de espiar as porcarias que Pamela Anderson faz com seu marido. Ela pertence à nação inimiga. Quanto ao cinema, só temos a ganhar com o boicote a atores e diretores canadenses como Jim Carrey, Michael J. Fox, Leslie Nielsen, James Cameron e David Cronenberg. Um mais insuportável do que o outro. O problema é o pessoal mais velho. Um dos principais estúdios de Hollywood, o United Artists, foi criado por uma canadense, Mary Pickford. Além disso, uma família canadense, Bronfman, é dona da Universal e da UIP. Quase todos os filmes atualmente em cartaz no Brasil foram distribuídos por eles. Os cineastas brasileiros não vivem pedindo reserva de mercado para os filmes nacionais contra os americanos? Pois é só o que teremos de agora em diante. O importante é que o Brasil reaja sempre com o mesmo orgulho demonstrado na batalha contra o Canadá. Olho por olho, dente por dente. Os canadenses nos privam de um clássico como Napoleão, de Abel Gance, distribuído pela Universal? Nós os privamos de Eu Tu Eles!

 

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