oEm foco

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Sérgio Abranches

A lógica política não é ética

"A distribuição de cargos e verbas foi,
é e será um dos elementos
primordiais
do
funcionamento da coalizão. Por isso
toda coalizão vive em permanente stress
causado pela competição
entre os aliados"

O isolamento do PFL por seus próprios aliados dá início a uma longa estação de mágoas, que se complica porque se abre também a temporada de caça aos perdedores pelos vencedores. É inevitável: o PMDB – e subsidiariamente o PPB e o PSDB – ficarão tentados a ir à caça contra o PFL enfraquecido. Superar as mágoas e evitar o ataque ao PFL serão o principal desafio do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Diferentemente do que o presidente Fernando Henrique disse, no presidencialismo de coalizão tudo que acontece com os partidos da coalizão é responsabilidade sua também. Por seus conhecimentos da sociedade e da política, pelos recursos políticos de que dispõe na Presidência e por sua capacidade de articulação e persuasão, poderia ter induzido uma solução melhor. Teria evitado que a sucessão parlamentar se fizesse por um jogo de manobras astuciosas, no qual tudo se pechincha, tudo se barganha, tudo se acerta. O presidente deixa confusos quase todos os seus interlocutores, porque, para não ter de dizer não, usa sua mente dialética. Seu sim na maioria das vezes é apenas a afirmação da negação e o raro não quase sempre a negação da negação.

A arbitragem presidencial poderia evitar o jogo predatório. O instinto de luta pelo poder é da natureza do partido político. Todo partido tem como objetivo maximizar o poder, o número e a importância dos cargos que controla. Essa propensão natural leva à permanente disputa entre os concorrentes mais próximos. É o caso do PMDB e do PFL, que competem pelo poder na coalizão federal e em boa parte dos principais Estados brasileiros.

Na política, entre os grandes, só há predadores. Essa competição entre líderes de territórios políticos vizinhos tem por objetivo transformar o outro em presa. Neste momento, o PMDB quer fazer do PFL a caça, e o instinto de sobrevivência do PFL o fará usar de todos os recursos para sobreviver como predador. Para isso usará o alinhamento ao governo e momentos de independência e até oposição, conforme a necessidade.

O PMDB dificilmente deixará de aproveitar a fraqueza do adversário, sobretudo em alguns redutos onde o prêmio de uma vitória adicional seria muito compensador. O PFL terá de usar todos os recursos que lhe restaram para sobreviver e para forçar o presidente – que contribuiu para sua derrota – a intervir para evitar a caça generalizada aos seus quadros e cargos, no âmbito nacional e regional.

Após a vitória, os vencedores sempre fazem declarações pacificadoras e os vencidos falam pouco. O governo tenta minimizar tudo, para reduzir a conta. Isso para manter as aparências. Em suas respectivas cidadelas, os vencedores comemoram, avaliam o butim e planejam os próximos lances. Os perdedores juntam os cacos, contabilizam as mágoas e tramam a retaliação. O governo corre para suturar feridas e reparar os estragos.

A explicação do ministro Aloysio Nunes Ferreira de que a coalizão de FHC se baseava em um programa de governo e não na composição das mesas do Congresso, na distribuição de ministérios, cargos e verbas federais não é crível. Era preciso que PMDB e PFL fossem animais políticos de espécie muito distinta para que isso fosse verdade.

A composição das mesas, com a atribuição das duas presidências aos parceiros do PSDB, equilibrava a coalizão. Esse acordo foi rompido. É verdade que não foi um rompimento unilateral: o veto do senador Antonio Carlos ao senador Barbalho serviu de pretexto para que PSDB e PMDB o rompessem. A distribuição de cargos e verbas foi, é e será um dos elementos primordiais do funcionamento da coalizão. É assim, aliás, em toda parte. A literatura sobre a lógica e a dinâmica das coalizões mostra que os partidos buscam sempre ter mais cargos sob seu controle e manter a coalizão a menor possível. E por isso toda coalizão vive em permanente stress causado pela competição entre os aliados mais próximos. O novo ambiente, portanto, será mais pesado, tornando a governança mais penosa, mais custosa e menos ágil. Até que um novo equilíbrio possa ser alcançado.

Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco