Sérgio
Abranches
A lógica política não é ética
"A
distribuição de cargos e verbas foi,
é e será um dos elementos
primordiais
do funcionamento
da coalizão. Por isso
toda coalizão vive em permanente stress
causado pela competição entre
os aliados"
O
isolamento do PFL por seus próprios aliados dá
início a uma longa estação de mágoas,
que se complica porque se abre também a temporada
de caça aos perdedores pelos vencedores. É
inevitável: o PMDB e subsidiariamente o PPB
e o PSDB ficarão tentados a ir à caça
contra o PFL enfraquecido. Superar as mágoas e evitar
o ataque ao PFL serão o principal desafio do presidente
Fernando Henrique Cardoso.
Diferentemente do que o presidente Fernando Henrique disse,
no presidencialismo de coalizão tudo que acontece
com os partidos da coalizão é responsabilidade
sua também. Por seus conhecimentos da sociedade e
da política, pelos recursos políticos de que
dispõe na Presidência e por sua capacidade
de articulação e persuasão, poderia
ter induzido uma solução melhor. Teria evitado
que a sucessão parlamentar se fizesse por um jogo
de manobras astuciosas, no qual tudo se pechincha, tudo
se barganha, tudo se acerta. O presidente deixa confusos
quase todos os seus interlocutores, porque, para não
ter de dizer não, usa sua mente dialética.
Seu sim na maioria das vezes é apenas a afirmação
da negação e o raro não quase sempre
a negação da negação.
A
arbitragem presidencial poderia evitar o jogo predatório.
O instinto de luta pelo poder é da natureza do partido
político. Todo partido tem como objetivo maximizar
o poder, o número e a importância dos cargos
que controla. Essa propensão natural leva à
permanente disputa entre os concorrentes mais próximos.
É o caso do PMDB e do PFL, que competem pelo poder
na coalizão federal e em boa parte dos principais
Estados brasileiros.
Na política, entre os grandes, só há
predadores. Essa competição entre líderes
de territórios políticos vizinhos tem por
objetivo transformar o outro em presa. Neste momento, o
PMDB quer fazer do PFL a caça, e o instinto de sobrevivência
do PFL o fará usar de todos os recursos para sobreviver
como predador. Para isso usará o alinhamento ao governo
e momentos de independência e até oposição,
conforme a necessidade.
O PMDB dificilmente deixará de aproveitar a fraqueza
do adversário, sobretudo em alguns redutos onde o
prêmio de uma vitória adicional seria muito
compensador. O PFL terá de usar todos os recursos
que lhe restaram para sobreviver e para forçar o
presidente que contribuiu para sua derrota
a intervir para evitar a caça generalizada aos seus
quadros e cargos, no âmbito nacional e regional.
Após a vitória, os vencedores sempre fazem
declarações pacificadoras e os vencidos falam
pouco. O governo tenta minimizar tudo, para reduzir a conta.
Isso para manter as aparências. Em suas respectivas
cidadelas, os vencedores comemoram, avaliam o butim e planejam
os próximos lances. Os perdedores juntam os cacos,
contabilizam as mágoas e tramam a retaliação.
O governo corre para suturar feridas e reparar os estragos.
A explicação do ministro Aloysio Nunes Ferreira
de que a coalizão de FHC se baseava em um programa
de governo e não na composição das
mesas do Congresso, na distribuição de ministérios,
cargos e verbas federais não é crível.
Era preciso que PMDB e PFL fossem animais políticos
de espécie muito distinta para que isso fosse verdade.
A composição das mesas, com a atribuição
das duas presidências aos parceiros do PSDB, equilibrava
a coalizão. Esse acordo foi rompido. É verdade
que não foi um rompimento unilateral: o veto do senador
Antonio Carlos ao senador Barbalho serviu de pretexto para
que PSDB e PMDB o rompessem. A distribuição
de cargos e verbas foi, é e será um dos elementos
primordiais do funcionamento da coalizão. É
assim, aliás, em toda parte. A literatura sobre a
lógica e a dinâmica das coalizões mostra
que os partidos buscam sempre ter mais cargos sob seu controle
e manter a coalizão a menor possível. E por
isso toda coalizão vive em permanente stress causado
pela competição entre os aliados mais próximos.
O novo ambiente, portanto, será mais pesado, tornando
a governança mais penosa, mais custosa e menos ágil.
Até que um novo equilíbrio possa ser alcançado.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)