Encontro de titãs

Fidel abre brecha a João Paulo II, num
país onde padre não fala em problema social

Freiras em Havana
e crianças na
catedral, à espera
do papa: sermões cautelosos para
evitar atritos
Foto: Antonio Milena  

Será talvez o último grande confronto político e de personalidades do milênio. Pela primeira vez em 39 anos de regime comunista, Fidel Castro permitirá a um orador mais poderoso e respeitado do que ele falar livremente o que pensa diante de centenas de milhares de cubanos. O orador é o papa João Paulo II, que desembarca com suas divisões em Cuba nesta quarta-feira para rezar quatro missas campais, que devem culminar com uma gigantesca concentração, no domingo, na Praça da Revolução, em Havana. Para milhões de pessoas mundo afora, ouvir um discurso do papa costuma ser uma experiência religiosa inesquecível. Para os cubanos será muito mais uma novidade política. Embora 40% do povo confesse ter algum sentimento religioso, apenas dois em cada 100 cubanos se dizem católicos, enquanto 1% freqüenta cultos evangélicos. Entrar numa igreja já foi considerado um ato hostil ao governo e hoje ainda é visto com suspeição. As missas são vigiadas e os padres controlam a língua para não deixar escapar, nem por metáforas, nenhuma crítica direta aos governantes. Em Cuba, a Teologia da Libertação, com religiosos atuando politicamente, seria suprimida.

A visita do papa a Cuba está cercada de falsas questões. A mais tola de todas é se Fidel Castro acredita em Deus. Como ele mesmo disse aos jornalistas, na semana passada, isso é um problema "particular". Também não esclarece nada discutir se em Cuba existe religiosidade. Uma indagação mais instigante, que pouca gente se faz, é se em Cuba a Igreja Católica tem liberdade para ser um agente político tão ativo quanto no Brasil e no restante da América Latina. A resposta a essa questão é não. Nas missas e reuniões públicas que precederam a chegada do papa, os pastores católicos pareciam estar pregando na Espanha ou na França. Rezava-se pela "união de todos os cristãos, crentes ou não", pela saúde do papa, pelo sucesso da visita.

Nenhuma palavra se ouviu sobre os 600 presos políticos que, segundo a Anistia Internacional, estão encarcerados em prisões cubanas. Nenhuma palavra sobre as jineteras, as prostitutas que tranqüilamente, à luz do dia, oferecem seus serviços nas avenidas de Havana, com o consentimento e, segundo os adversários, com o incentivo do regime. Nenhuma crítica às eleições do dia 11 passado, em que milhões de cubanos foram às urnas para marcar burocraticamente um xis numa cédula com candidatos escolhidos anteriormente pelo regime. Nada se falou sobre a inexistência da imprensa escrita o país abriga 96% de pessoas alfabetizadas que não têm o que ler e do controle rígido do regime sobre os dois canais estatais de televisão. Nada. Nas missas preparatórias, apenas hinos e a repetição do mantra criado para a visita: "João Paulo II, mensageiro da verdade e da esperança". Faltou uma CNBB ou as pastorais de base para dizer algumas verdades aos cubanos.

"Tudo se ouve e tudo se sabe de nossas missas. Somos espionados sempre", diz um padre salesiano de Havana. O que a Igreja Católica espera da visita do papa? "Esperamos melhorar ainda mais as relações com o governo, ampliar nossa atuação pelo país e ter acesso aos meios estatais de comunicação de massa", resume o cardeal de Havana, Jaime Ortega, um empertigado religioso que, no Brasil, seria facilmente confundido com um prelado "conservador". É uma agenda muito tímida, mas Ortega conhece bem Fidel e o regime. Nos anos 60, quando as igrejas foram fechadas e a religião reprimida, ele passou três meses num campo de trabalhos forçados. Fidel espera que o papa repita as condenações que já fez ao uso dos embargos econômicos como arma de política internacional. Espera também que João Paulo II critique os excessos do capitalismo financeiro e o materialismo, outro tema habitual.

Sem canoas Até o fim da semana passada ainda não estava certo se as missas do papa serão transmitidas ao vivo pelas televisões estatais cubanas. Se não forem, Fidel terá conseguido a cínica vitória de que o papa fale ao mundo sobre Cuba e não sobre o mundo aos cubanos. "Que ninguém espere da visita o mesmo efeito catalisador da liberdade que teve a volta de João Paulo II à sua Polônia natal", dizia em Havana na semana passada a polonesa Hanna Husarka, analista política da ICG, um grupo independente baseado na Europa que procura dar assistência a opositores de regimes de força em todo o mundo. Hanna, que já passou seis dias presa em Cuba por ter-se encontrado com o dissidente Elizardo Sánchez, acha que Fidel vai engolir o papa quando se fizerem as avaliações de quem lucrou mais com a visita. "O papa carrega a fama de derrubador de regimes comunistas. O regime cubano certamente não vai se enfraquecer com a visita de João Paulo II. Fidel poderá dizer que passou no teste", raciocina Hanna. Os adversários do regime não terão em Cuba sequer o trunfo que teve a resistência polonesa de dizer que o papa arrastou uma multidão para vê-lo, apesar da má vontade dos governantes. João Paulo II vem a Cuba a convite de Fidel. Além disso, Castro sempre poderá dizer que foi ele quem atraiu a multidão. Sua mágica funciona há quarenta anos.

Cuba é um país insólito. É uma ditadura com um líder que já foi amado e hoje ainda desperta um enorme respeito entre a maioria da população. O regime cubano venceu pela desesperança e pela geografia. É uma ilha. Cercada de mar e tubarões por todos os lados. É difícil fazer oposição num porta-aviões. Qualquer desordem é considerada motim. Por isso, pela avaliação da própria Anistia Internacional, os dissidentes cubanos não chegam a oferecer perigo ao regime. Nem clandestinos são. São secretos, ninguém os conhece. O romancista americano Ernest Hemingway, que adorava a ilha, onde morou antes da revolução e depois, ambientou ali seu romance mais famoso, O Velho e o Mar. Hoje em dia, o romance teria de ser ambientado em outro lugar. Em vez de pescar, Santiago, o velho pescador do livro, certamente embicaria sua canoa para a Flórida, rumo à liberdade, como milhares de cubanos fizeram com suas balsas improvisadas. Pela mesma razão que as prisões têm grades, Cuba é a única ilha do mundo que não tem canoas ou pequenos pescadores. Talvez a barca, um dos símbolos do cristianismo, tenha em Cuba um significado ainda mais poderoso do que no resto do mundo.

Eurípedes Alcântara




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