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| Fotos: Antonio Milena |
| Artesanato diante da catedral, o hotel Melliá e o shopping de Havana: o lento despertar |
Cuba vive um momento de exuberante fé no
futuro do capitalismo. Havana está colorida por outdoors
estampando o nome de marcas famosas como o sabonete Lux,
os automóveis italianos Fiat, a cerveja canadense
Labbat. Javier Sottomayor, o esplêndido saltador cubano,
atleta olímpico orgulho da revolução, aparece num
cartaz propagandeando os tênis alemães da Adidas. Entre
eles, timidamente, em algumas esquinas longe do centro,
sobrevivem as placas com palavras de ordem socialistas e
a fisionomia barbuda de Fidel Castro e Che Guevara, um
tanto deslocados em meio às novidades que se esboçam a
sua volta. Entre os esqueletos de prédios da parte velha
da capital, uma loja da Benetton oferece roupas
européias a preço de free shop. Do outro lado da rua,
dois cafés de luxo com seus cristais e mármores
competem por clientes. No cardápio de ambos, lagosta e
vinhos franceses. Guindastes, andaimes, aroma de tinta
fresca estão por todo lado na capital. Não é apenas
uma encenação cosmética motivada pela visita do papa a
Cuba, marcada para começar nesta quarta-feira, cujo
objetivo oficial é puramente pastoral. Cuba e sua
capital estão lentamente renascendo da decrepitude de
quase quarenta anos de sufoco.
"Tive dois sustos com esta ilha. Um, há sete anos, quando vi uma Bósnia sem esperança e sem tiros de canhão. O outro, agora, com as salas de reunião climatizadas e o inglês quase perfeito dos funcionários dos hotéis", dizia, na semana passada, o empresário canadense Edouard Saint-Michel, que veio a Cuba fechar um contrato de prestação de serviços para uma multinacional australiana do ramo de mineração. O celular de som cristalino, sem interferências, é guardado na pasta executiva, Saint-Michel entra na limusine branca, daquelas alongadas, típicas de Nova York. O carro zarpa, silencioso, distanciando-se do saguão do Hotel Melliá-Cohiba, um cinco-estrelas, metade cubano metade espanhol, que não tem nada a dever a seus similares do Rio de Janeiro ou São Paulo. Nos quartos dos hotéis as televisões retransmitem a programação da CNN e de emissoras francesas e italianas. Os cubanos, que não têm acesso à TV a cabo, contentam-se com os dois canais oficiais. Mesmo neles, no intervalo das novelas brasileiras, assistem ao comercial da Emtel, a companhia telefônica local, que, com 49% de capital mexicano, é um símbolo dos novos tempos na ilha. No comercial, um executivo estoura alegremente uma garrafa de champanhe, depois de saber pelo telefone que as bolsas fecharam em alta em alguma parte do mundo. Para um país comunista cuja economia recebeu extrema-unção depois do desmonte do bloco soviético, de onde recebia 8 de cada 10 dólares de seu orçamento, Cuba vai muito bem, obrigado.
Vitalidade
Quase não se ouvem mais na capital
expressões como "socialismo ou morte",
"companheiro", "comandante-em-chefe"
e outras esquisitices pitorescas do passado recente.
Ninguém usa barba. Os jovens da capital falam e
vestem-se agora de maneira muito parecida com a dos
rapazes e moças de mesma idade que vivem em Miami, do
outro lado do Estreito da Flórida. Não existe clima de
revolta organizada contra a ditadura entre os jovens.
Fidel e seus barbudos fardados são considerados uma
realidade, tão incontrastável quanto a autoridade
paterna, tão presente quanto as ondas do mar. Depois de
39 anos, o regime se entranhou na pele dos cubanos,
sustenta-se pela falta de opções
e
mais recentemente pela aceleração econômica.
"Fidel é o.k. Sem ele viramos uma Suécia ou uma
Bolívia?", pergunta Raulberto Ramos, 16 anos, que
pretende estudar economia. "Ninguém sabe. Ninguém
quer pagar para saber", responde ele.
O frescor da
circulação do dólar pela economia informal transmite
uma estranha sensação de vitalidade e normalidade como
se Cuba tivesse, finalmente, despertado de um pesadelo.
"Ganho o equivalente a 8 dólares por mês e vendo
vestidos que valem dez vezes mais", diz a balconista
Leslie Zayas, que trabalha numa das lojas da Benetton.
"Não é um drama. É a mesma coisa em qualquer
país do mundo. Um dia, se tudo continuar indo bem,
poderei comprá-los." Depois de anos de colapso, os
serviços de transporte voltaram a funcionar e os ônibus
circulam com alguma assiduidade pelos bairros. De um
esquema de dezoito horas sem eletricidade por dia, há
cinco anos, Havana quase não precisa mais racionar
energia. O grande programa da população é visitar o
shopping center Carlos III, inaugurado há quatro meses
na avenida de mesmo nome
uma via que o regime batizou, em vão, de Salvador
Allende, em homenagem ao presidente esquerdista chileno,
morto em 1973, mas que o povo insiste em identificar pela
denominação original, em honra de um rei da Espanha.
Desde que abriu as portas, o primeiro shopping center de
Cuba destinado aos cubanos, e não mais apenas a
diplomatas e turistas, tem filas quilométricas na porta.
Suas lojas de eletrônicos, artigos esportivos, perfumes
importados estão sempre cheias. Os preços, em dólar,
bem acima dos cobrados em Nova York ou Miami, equivalem
aos das lojas de importados brasileiras.
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![]() Ruas
decrépitas |
| Fotos: Antonio Milena |
Santo
dólar
A ilha saiu do coma em que imergiu com o fim da União
Soviética. A penúria era tanta alguns anos atrás que
qualquer sopro de vida faz enorme diferença. A mudança
entre não haver comida alguma e poder comprar, mesmo que
pagando, em dólar, os olhos da cara, é tão gritante
que só quem viveu essa situação pode descrevê-la.
"Há alguns anos não sobravam nem migalhas de pão
sobre a mesa, os cachorros de rua perderam o pêlo por
desnutrição profunda, pois as pessoas disputavam com
eles qualquer porcaria comestível. Era o inferno",
diz uma estudante do último ano de medicina. Não
existem mais cães despelados em Havana. A cidade também
está com nova cara. Havana, fundada pelos espanhóis em
1519, tem arquitetura tão imponente, com suas fontes,
praças e parques, que uma simples demão de tinta e uma
fonte luminosa ligada operam milagres visuais.
Nossa Senhora da Caridade do Cobre,
padroeira de Cuba, não tem nada a ver com a
ressurreição urbana da capital. O santo milagreiro é o
de sempre nesses casos, o dólar. Em 1993, Fidel Castro
legalizou o uso da moeda americana em transações
comerciais, abrindo caminho para a renovação econômica
e de humor que hoje contamina boa parte de Cuba. Há
quatro anos, apenas 2% dos cubanos trabalhavam em
atividades que, mesmo pagando salário em peso cubano, os
colocavam em contato direto com o dólar. Hoje são cerca
de 8%, e o número não pára de crescer. Garçons,
prostitutas, motoristas de táxi clandestinos,
prestadores de serviços aos estrangeiros residentes na
ilha são profissões cobiçadas. Estão próximos do
dólar e dos grandes privilégios que ele traz. Ganham
gorjetas e têm seus serviços pagos em moeda forte. Com
dólar pode-se ir às compras no Carlos III ou nas
dezenas de lojas menores espalhadas pelo país que só
vendem em moeda americana. Pode-se sentar num restaurante
chique ao lado dos turistas
e
ir à feira comprar o produto das cooperativas agrícolas
do interior que vendem seu excedente em moeda forte.
Alguns gastam seus dólares, como os turistas alemães,
italianos e holandeses, com as prostitutas.
Namorado de
verão
A volta da prostituição, cuja extinção foi a marca
registrada da Cuba que Fidel liquidou com seus fuzis, é
um dos anátemas do regime. O assunto tem sido
constantemente discutido pelos dirigentes. Por enquanto,
decidiu-se bani-la dos centros turísticos, mas não de
Havana. Na capital, as jineteras, como são
chamadas as prostitutas, se misturam nos sinais de
trânsito às adolescentes que desejam apenas conhecer um
turista e dar umas voltas no carrão com ar condicionado
e às mulheres que simplesmente precisam de uma carona
para chegar ao trabalho. É uma cena patética. Todas
acenam para os carros, e é fácil confundir as
intenções. Em termos de patologia social, a venda do
sexo em Cuba ainda é algo mais inocente e menos
disseminado do que aquilo a que se assiste em outros
países. A prostituição em Cuba é uma forma
sexualizada de mendicância
sem cafetões, repressão ou corrupção policial.
"Muita turista européia, loura, também vem
procurar namorado de verão em Cuba", diz Claudio
Luiz Pacheco, dançarino cubano que na semana passada
namorava a alemã Andrea Konstantin no Malecón, a famosa
amurada do beira-mar de Havana. "Qual é o problema?
Os cubanos e as cubanas são namoradores por
natureza." Esse truque psicológico do "cubano
sensual" é muito bem aproveitado pelo regime para
disfarçar a prostituição, tanto a masculina quanto a
feminina. No fundo, quer esconder-se a verdade, a
crepitante corrida ao dólar que inflama cada cidadão.
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Leslie Zayas, vendedora com salário de 8 dólares, e a jinetera em ação na rua: disparidades de renda |
| Fotos: Antonio Milena | ![]() |
"Com meu salário em peso cubano vivo os quatro primeiros dias do mês. O restante tenho de me virar em dólar", diz G.R., desenhista e engenheiro químico que ganha a vida colocando seu Lada 76 para rodar com turistas. Pai de dois filhos e casado com uma médica veterinária, G.R. lembra-se com tristeza do período de fome do começo da década em que não tinha de onde tirar o sustento da família. "Hoje sabemos que o dólar está circulando, basta a gente se virar para ganhar um pouco." A grande alegria dele agora é poder levar toda a família a uma das lanchonetes da cadeia estatal El Rápido e comer um hambúrguer tipo americano com ketchup, Coca-Cola em lata fabricada no México e sorvete importado da Inglaterra. Cada sanduíche sai por 1,50 dólar. A lata de Coca custa 70 centavos.
Todo cubano tem seu "invento",
gíria que descreve a ampla gama de pequenas ilegalidades
em que se mete disciplinadamente boa parte da população
para desviar para o próprio bolso alguns dólares que
circulam na economia. São truques para os quais o
governo faz vista grossíssima. A multa para quem carrega
turista em carro particular é de 1.500 dólares. O
guarda deixa por uma propina de 5. O barman vende no
restaurante estatal cinqüenta coquetéis de rum, o
refrescante mojito, uma caipirinha sem limão com
hortelã e gelo. Registra quarenta. Dez foram feitos com
a garrafa de bebida que ele comprou no câmbio negro. A
diferença vai para o bolso. No aniversário, os cubanos
costumam presentear-se com mercadorias
"adequadas" à profissão de cada um. A
garçonete Marcelia ganhou, na semana passada, uma lata
de 10 litros de sorvete. Vai vendê-los e embolsar os
dólares. Um dentista do eficiente e quase universal
sistema estatal de saúde quase nunca tem material
suficiente para atender os pacientes. Quando a consulta
é precedida de uma nota de 5 dólares, o material,
milagrosamente, reaparece.
Negócios a
bordo
Nem sempre é preciso ser desonesto para conseguir o
dólar de cada dia. Os melhores médicos de Cuba, que
ganham no máximo o equivalente a 20 dólares por mês,
são pagos voluntariamente por quem pode. "Quando
curamos um paciente, a família do enfermo sempre nos
recompensa com algo mais", explica um professor da
faculdade de medicina em cuja classe convivem estudantes
cubanos com outros latino-americanos, entre eles dezoito
brasileiros. Pessoas em situações privilegiadas, como
as camareiras dos hotéis do balneário de Varadero, que
transbordam de simpatia e gentileza, ganham
gratificações altas dos turistas. O comandante José
Enrique Pons formou-se na Ucrânia e se preparou para
pilotar jatos comerciais. Hoje faz vôos panorâmicos com
turistas europeus que pagam 25 dólares para sobrevoar as
praias de Varadero. O dinheiro fica com a Aerotaxi, a
estatal que explora os vôos. Enrique e sua tripulação
não se queixam do salário de 15 dólares por mês.
Durante o vôo, vendem camisetas com a estampa do velho e
imponente biplano Antonov, o avião russo que utilizam.
Cada camiseta custa 8 dólares. O avião leva uma dúzia
de passageiros. "O vôo é tão maravilhoso que
sempre alguém quer levar uma lembrança dele", diz
Pons. As irmãs Tania Garcia, pianista, e Althea Garcia,
flautista, ambas com 11 anos de estudos na academia de
música de Havana, tocam no saguão dos hotéis de luxo
de Varadero. Invariavelmente o piano se enche de cédulas
de dólar. Oficialmente recebem 5 dólares por mês. De
gratificação ganham, por dia, três vezes mais.
"Não é preciso ser um matemático muito aparelhado para descobrir que hoje em dia todo cubano, mesmo o do interior, tem acesso à moeda americana", diz o economista americano Ernest Pregg, especialista em assuntos cubanos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington. Os números lhe dão razão. Quase 1 milhão de cubanos, dos 11 milhões que vivem na ilha, trabalham hoje em alguma atividade ligada ao capital estrangeiro. O mais significativo, porém, é o dinheiro que chega, de graça, de Miami, enviado pela raivosa e rica comunidade de 1,1 milhão de cubanos exilados. A maior parte dos dólares entra no país via México trazida em espécie na própria bagagem por visitantes batizados de "mulas", a mesma designação que os traficantes dão a quem leva droga de um lado a outro das fronteiras nacionais. Cerca de 10% aterrissam de maneira oficial, transferidos eletronicamente de Miami pelos canais reconhecidos pelos governos americano e cubano. No ano passado, os cubanos de Miami enviaram 1,1 bilhão de dólares para Cuba, um recorde. Em segundo lugar, como fonte de divisas, está o turismo. As mais de 300 praias cubanas atraíram 1,2 milhão de visitantes em 1997, trazendo para a ilha uma receita bruta de 1 bilhão de dólares. Há três anos seguidos o turismo cresce em Cuba à estonteante marca de 25% ao ano. Em terceiro lugar vem o açúcar, cuja colheita em 1997 foi menor que a do último ano do ditador Fulgencio Batista, derrubado por Fidel em 1959. A exportação de açúcar rendeu 800 milhões de dólares.
A atração
do capital
Desde 1996 Cuba vem atraindo também
altos volumes de investimento direto em mineração e
hotelaria, cujo total acumulado em três anos, segundo
estimativas do Conselho Cuba-Estados Unidos de Comércio,
entidade privada baseada em Nova York, deve passar dos 10
bilhões de dólares no final de 1998. "Quem faz
discursos de quatro, cinco horas de duração, como o
presidente Fidel Castro, por definição não entende os
fundamentos da economia", diz o economista canadense
John Kirk, cujo país divide com a Espanha a liderança
dos investimentos diretos na ilha. "Fidel, porém,
cercou-se de uma excelente assessoria." Eis uma
cartilha cubana que a esquerda conservadora brasileira
deveria estudar com carinho: a ilha de Fidel, que já
possuía a mais liberal lei de investimentos estrangeiros
da América Latina, modernizou ainda mais seus
regulamentos para atrair capital em 1995. Os investidores
estrangeiros agora podem ser donos de 100% dos
empreendimentos na ilha. Têm direito assegurado de
repatriar integralmente seus lucros, sem impostos. No
Brasil, o limite de repatriação é de 27%. Os
funcionários e diretores estrangeiros das empresas
mistas também podem remeter a seus países de origem
até dois terços do salário livres de qualquer
taxação. Não há interferência na contratação ou
demissão de funcionários cubanos das empresas
estrangeiras. Além disso, o governo cubano proibiu a si
mesmo, por lei, de expropriar propriedades de
estrangeiros na ilha. Uma sinalização ideológica de
grande significado, quando se lembra que os
revolucionários cubanos tungaram mais de 2 bilhões de
dólares em patrimônio de estrangeiros em Cuba ao tomar
o poder pelas armas há 39 anos. As expropriações foram
a causa central do embargo econômico decretado pelos
americanos contra Cuba em 1962, três anos depois da
revolução, e de pé até hoje.
O embargo econômico atual serve principalmente de mote para os discursos de Fidel Castro. É cômodo para Fidel colocar a culpa de todos os problemas do país num histórico, poderoso e vizinho inimigo, os Estados Unidos. Na realidade, o embargo traz alguns pequenos problemas para as entidades assistenciais internacionais que não podem comprar todo o remédio de que necessitam. Na semana passada, a Organização Mundial de Saúde revelou que faltam aos pacientes cubanos cerca de 300 tipos de medicamento que poderiam ser conseguidos mais facilmente se não pesasse sobre Cuba o embargo econômico decretado pelos americanos. A saúde de Cuba vai bem. A ilha tem a menor taxa de mortalidade infantil da América Latina (9 por 1.000), a menor incidência de Aids (onze infectados por milhão de habitantes) e longevidade de país rico, na casa dos 76 anos. O embargo, é óbvio, não tem um efeito tão danoso como querem fazer crer os dirigentes cubanos. Mas a atração que Cuba exerce sobre os americanos é fortíssima. Mesmo com o embargo e a franca hostilidade entre os dois governos, 84.000 turistas americanos visitaram Cuba no ano passado. Um número maior que o de turistas brasileiros.
Terror
fiscal
Por enquanto, espanhóis e canadenses dominam a cena
econômica. Em grau menor, o México, a Austrália e até
o Brasil têm alguma atuação. As empresas da Espanha
especializaram-se em hotéis. A rede Melliá e Sol
praticamente monopolizaram as praias de Varadero. Os
canadenses são mais diversificados. Constroem
aeroportos, fornecem equipamentos eletrônicos, instalam
redes de fast food e vendem sua cerveja Labbat em quase
todos os botequins da ilha. Os americanos ficam de fora,
louquinhos para participar da festa. "A hora para
entrar em Cuba é agora, quando começam as
transformações econômicas, comerciais e
políticas", diz Peter Blyth, presidente da cadeia
americana de hotéis Radisson. "Nossos competidores
europeus já tomaram os melhores lugares na costa cubana.
Tudo que podemos fazer é lamentar." Num raro
balanço público das contas, o ministro cubano dos
Investimentos Externos e da Cooperação Econômica,
Ibrahim Ferradaz, anunciou recentemente que o país, em
1997, bateu o recorde de associações com empresas
estrangeiras. Já são 300 as companhias mistas
instaladas em Cuba. Só no ano passado, fecharam-se
trinta novos negócios. Metade deles depois que os
americanos endureceram o embargo contra Cuba com a
chamada Lei Helms-Burton, que permite a eles punir
empresas estrangeiras que negociem com Fidel Castro
uma violência em termos de política internacional, cuja
aplicabilidade é praticamente nula.
Na caça ao dólar, o exemplo vem de cima. O Estado cubano é um guloso arrecadador de tributos. O terror fiscal é hoje, de longe, a mais poderosa arma de coerção do regime cubano contra a economia paralela. Para tomar conta de carros na porta de um hotel, um cubano paga 54 dólares por mês ao governo. Quem deseja alugar um quarto da casa para turistas precisa entregar 250 dólares fixos todo mês ao Estado. A partir daí paga mais de acordo com o que receber do inquilino temporário. Os cálculos são draconianos. Como quase sempre se é obrigado a pagar mais do que se recebe do hóspede, a prática acabou sendo abolida da ilha. Desconfiado de que os "paladares", os pequenos restaurantes particulares, que podem ter no máximo doze mesas, abertos na ilha a partir de 1993, estavam servindo de lugar de encontro para oposicionistas políticos, o governo apertou o cerco fiscal. Multou-os de forma tão violenta que, dos 1.400 estabelecimentos em atividade há três anos, sobraram 300. Destes, 150 estão sob fiscalização, o que em Cuba significa que vão fechar logo. Para funcionar, um paladar tem de pagar impostos de 700 dólares por mês, mesmo que não venda uma única refeição. Além disso, cobram-se taxas adicionais com base no movimento. Um dos poucos sobreviventes é o paladar La Guarida, um pequeno e aconchegante "restaurante temático", como seus donos, Enrique Nuñez e Odeysis Daulloja, o definem. O La Guarida tornou-se famoso por ter sido o cenário do filme cubano Morangos com Chocolate. "Acho que não incomodamos muito porque temos poucas mesas e nenhum envolvimento político", espera Enrique, que abandonou a carreira de engenheiro eletrônico para se dedicar ao restaurante.
País
dividido
"Fechando os paladares e
atacando furiosamente os cubanos que alugam a casa para
visitantes estrangeiros, o governo só deixou ao cubano
comum as vias ilícitas para conseguir dólar
o
roubo e a prostituição", diz um diplomata europeu.
Formidáveis administradoras da escassez, as autoridades
cubanas terão de se superar para dirigir um país com
excedentes de divisa. Cuba deve ter um orçamento
superavitário em 1998. Sob o comando de Fidel, Cuba
nunca se viabilizou economicamente, nem quando recebia 8
bilhões de dólares por ano de subsídios soviéticos. O
herói mítico da revolução, Che Guevara, quebrou o
banco central nos primeiros anos do novo regime. Quando
Batista caiu, Cuba tinha o quarto maior PIB per capita da
América Latina. Hoje tem o 15º. Enquanto o dólar do
turismo e dos parentes de Miami não for suficiente para
irrigar toda a ilha, Cuba será um país dividido. Pelo
interior ainda há fome nordestina, como na província de
Guantânamo. Em cidades distantes de Havana, como a
pequena Cárdenas, a vida ainda é regida em pesos
cubanos. Os meios de transporte são medievais e o povo
se arrasta sem muita esperança de mudança. De Fidel se
espera agora que saiba administrar a promessa de
abundância e segure as rédeas do Estado engolidor de
dólares. Se não conseguir, se condenará a assistir ao
triste espetáculo cotidiano de um povo que troca
princípios por privilégios
e
no final se arrisca a perder ambos.
A memória dos inocentesVocê mandaria seu filho para outro país, temendo por um futuro atroz? María de los Angeles Torres tinha 6 anos quando foi enviada sozinha de avião para os EUA, uma das 14 000 crianças retiradas de Cuba pelo governo americano e pela Igreja Católica entre dezembro de 1960 e outubro de 1962. Aos 42, professora universitária, ela quer conhecer mais o próprio passado e planeja obrigar na Justiça a CIA, o serviço secreto americano, a abrir seus arquivos sobre o assunto. Chamado de Operação Pedro Pan, o resgate ainda hoje é um episódio nebuloso, que carrega o peso de ter separado, em alguns casos para sempre, as crianças de suas famílias. O padre Bryan Walsh, da arquidiocese de Miami, que organizou a operação, disse a VEJA que se esperava reunir logo as famílias, mas os dois países jamais reataram relações após a crise dos mísseis, em 1962. Walsh tinha autorização de Washington para trazer qualquer criança entre 6 e 16 anos, sem necessidade de visto. Apavorados com o comunismo, muitos pais despacharam os filhos suspeitando que o regime de Fidel Castro fechasse as escolas católicas e levasse os alunos para instituições fechadas (o que nunca aconteceu). Outros simplesmente pensavam que seria a melhor forma de obter um visto de imigrante mais tarde. "Fomos usados como peças de propaganda da Guerra Fria", acusa María Torres. "Nosso objetivo foi puramente humanitário", retruca Walsh. "Tanto que nunca fizemos alarde do resgate." |
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