No embriagador O
Curioso Caso de Benjamin Button, o diretor David Fincher conta a história
de um homem que nasce velho e se torna cada vez mais jovem. E conclui que,
seja qual for o sentido da viagem, é impossível escapar ao tempo
Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
DA
DECADÊNCIA AO ÁPICE Pitt,
como o menino idoso Benjamin, brincando com seus soldadinhos de chumbo, e na sua
juventude radiante, em que finalmente ele e sua paixão Daisy (Cate Blanchett)
têm a mesma idade: uma trajetória situada num século que também
parece rejuvenescer
A mãe de Benjamin morre
ao dar à luz, em 1918, no último dia da I Guerra
e morre por um bebê que seu pai considera monstruoso.
Como logo se verificará, o recém-nascido tem
a saúde de um octogenário: enrugado, cegado
pela catarata e calcificado pela artrose, ele parece estar
não nos primeiros, mas nos últimos dias de vida.
Abandonado pelo pai, por coincidência, à porta
de um asilo de idosos, Benjamin é adotado pela dona,
a negra Queenie. E em vez de morrer sobrevive, rejuvenescendo
um pouco a cada ano. Adaptado do conto homônimo de F.
Scott Fitzgerald (1896-1940), O Curioso Caso de Benjamin
Button (The Curious Case of Benjamin Button,
Estados Unidos, 2008), desde sexta-feira em cartaz no país,
é um filme inspirado por uma ideia arrebatadora: a
de uma velhice em que se tem todos os dias pela frente, e
em que o tempo, em vez de punir, acalenta. Interpretado por
Brad Pitt com o mesmo espírito inquisitivo já
demonstrado em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde
Robert Ford, esse personagem estranho não é
simplesmente uma criança no corpo de um velho. É
alguém que, por força dessa circunstância,
percorre também a experiência humana no seu sentido
inverso. Vai conviver primeiro com a degenerescência
e a morte, as presenças constantes no asilo; depois
entenderá a maturidade e seus arrependimentos, na amizade
com o Capitão Mike (o excelente Jared Harris), que
o emprega em seu rebocador, e no romance com a amargurada
esposa de um diplomata estacionado na Rússia (Tilda
Swinton); e só então atravessará a intoxicação
da juventude, na paixão finalmente realizada com a
ruiva de olhos azuis Daisy (Cate Blanchett), que conhecera
quando ele era velho e ela, menina.
Mas o diretor David Fincher, de Clube da Luta e Zodíaco,
tem muito mais em mente que uma mera fantasia. A história de Benjamin é
narrada à beira do leito de morte de Daisy, num hospital de Nova Orleans,
enquanto o furacão Katrina começa a ganhar força. E a primeira
coisa de que Daisy se lembra não é de Benjamin em si, e sim do caso
do relojoeiro cego que instalou na estação de trem da cidade um
relógio magnífico que, entretanto, andava para trás,
para que quem o visse pudesse imaginar que seus filhos não tinham morrido
na guerra, mas estavam retrocedendo da trincheira para a vida que poderia ter
acontecido. Uma coisa é narrar essa anedota; outra muito diferente é
sentir um nó se formar na garganta durante a cena soberba imaginada por
Fincher, que dá não apenas o tom do que virá a seguir, como
estabelece uma espécie de filosofia para o uso da técnica cinematográfica.
Da elaboração dos cenários ao rejuvenescimento quase imperceptível
de Pitt uma combinação extraordinária de maquiagem
e computação gráfica , Benjamin Button é
todo uma façanha de virtuosismo técnico que não quer ser
notada, mas apenas percebida.
Nesse aspecto, o de escamotear
seus feitos tecnológicos, o filme tem muito em comum
com Forrest Gump, o trabalho mais conhecido do roteirista
Eric Roth. Outras das marcas de Roth podem ser observadas: a
ambientação sulista (o conto originalmente se
passa em Baltimore), a paixão de infância que retorna
em todas as outras idades, a mãe solteira que resume
a vida em ditados (Taraji P. Henson, que já causara grande
impressão como a prostituta grávida de Ritmo
de um Sonho), e a trajetória à maneira de
uma saga à medida que rejuvenesce, Benjamin atravessa
um século que também parece se tornar mais jovem,
indo do peso da II Guerra para o entusiasmo da corrida espacial
e a alegria pop dos Beatles. Mas o escopo do filme é
muito maior que o de Forrest Gump, ou mesmo que o do
conto de Fitzgerald: é uma história sobre o desejo
humano de dominar o tempo e de quanto, enfim, esse desejo é
vão. Aquela ideia embriagadora do início, de um
homem que ganhou o dom de rumar do pior para o melhor, no final
vai dar lugar à conclusão desoladora de uma infância
aprisionada na senilidade e na decadência. E, talvez mais
triste ainda, à constatação de que é
o destino dos homens encontrar-se de forma não mais do
que fugidia em algum ponto de seu caminho. Nesse filme em que
as irregularidades de Fincher contam tanto quanto seus imensos
acertos para torná-lo único, o tempo escapa a
todos e ninguém escapa ao tempo.