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Edição 2096

21 de janeiro de 2009
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Cinema
Uma vida em reverso

No embriagador O Curioso Caso de Benjamin Button, o diretor
David Fincher conta a história de um homem que nasce velho
e se torna cada vez mais jovem. E conclui que, seja qual for
o sentido da viagem, é impossível escapar ao tempo


Isabela Boscov

Fotos divulgação
DA DECADÊNCIA AO ÁPICE
Pitt, como o menino idoso Benjamin, brincando com seus soldadinhos de chumbo, e na sua juventude radiante, em que finalmente ele e sua paixão Daisy (Cate Blanchett) têm a mesma idade: uma trajetória situada num século que também parece rejuvenescer

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A mãe de Benjamin morre ao dar à luz, em 1918, no último dia da I Guerra – e morre por um bebê que seu pai considera monstruoso. Como logo se verificará, o recém-nascido tem a saúde de um octogenário: enrugado, cegado pela catarata e calcificado pela artrose, ele parece estar não nos primeiros, mas nos últimos dias de vida. Abandonado pelo pai, por coincidência, à porta de um asilo de idosos, Benjamin é adotado pela dona, a negra Queenie. E em vez de morrer sobrevive, rejuvenescendo um pouco a cada ano. Adaptado do conto homônimo de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, Estados Unidos, 2008), desde sexta-feira em cartaz no país, é um filme inspirado por uma ideia arrebatadora: a de uma velhice em que se tem todos os dias pela frente, e em que o tempo, em vez de punir, acalenta. Interpretado por Brad Pitt com o mesmo espírito inquisitivo já demonstrado em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, esse personagem estranho não é simplesmente uma criança no corpo de um velho. É alguém que, por força dessa circunstância, percorre também a experiência humana no seu sentido inverso. Vai conviver primeiro com a degenerescência e a morte, as presenças constantes no asilo; depois entenderá a maturidade e seus arrependimentos, na amizade com o Capitão Mike (o excelente Jared Harris), que o emprega em seu rebocador, e no romance com a amargurada esposa de um diplomata estacionado na Rússia (Tilda Swinton); e só então atravessará a intoxicação da juventude, na paixão finalmente realizada com a ruiva de olhos azuis Daisy (Cate Blanchett), que conhecera quando ele era velho e ela, menina.

Mas o diretor David Fincher, de Clube da Luta e Zodíaco, tem muito mais em mente que uma mera fantasia. A história de Benjamin é narrada à beira do leito de morte de Daisy, num hospital de Nova Orleans, enquanto o furacão Katrina começa a ganhar força. E a primeira coisa de que Daisy se lembra não é de Benjamin em si, e sim do caso do relojoeiro cego que instalou na estação de trem da cidade um relógio magnífico – que, entretanto, andava para trás, para que quem o visse pudesse imaginar que seus filhos não tinham morrido na guerra, mas estavam retrocedendo da trincheira para a vida que poderia ter acontecido. Uma coisa é narrar essa anedota; outra muito diferente é sentir um nó se formar na garganta durante a cena soberba imaginada por Fincher, que dá não apenas o tom do que virá a seguir, como estabelece uma espécie de filosofia para o uso da técnica cinematográfica. Da elaboração dos cenários ao rejuvenescimento quase imperceptível de Pitt – uma combinação extraordinária de maquiagem e computação gráfica –, Benjamin Button é todo uma façanha de virtuosismo técnico que não quer ser notada, mas apenas percebida.

Nesse aspecto, o de escamotear seus feitos tecnológicos, o filme tem muito em comum com Forrest Gump, o trabalho mais conhecido do roteirista Eric Roth. Outras das marcas de Roth podem ser observadas: a ambientação sulista (o conto originalmente se passa em Baltimore), a paixão de infância que retorna em todas as outras idades, a mãe solteira que resume a vida em ditados (Taraji P. Henson, que já causara grande impressão como a prostituta grávida de Ritmo de um Sonho), e a trajetória à maneira de uma saga – à medida que rejuvenesce, Benjamin atravessa um século que também parece se tornar mais jovem, indo do peso da II Guerra para o entusiasmo da corrida espacial e a alegria pop dos Beatles. Mas o escopo do filme é muito maior que o de Forrest Gump, ou mesmo que o do conto de Fitzgerald: é uma história sobre o desejo humano de dominar o tempo e de quanto, enfim, esse desejo é vão. Aquela ideia embriagadora do início, de um homem que ganhou o dom de rumar do pior para o melhor, no final vai dar lugar à conclusão desoladora de uma infância aprisionada na senilidade e na decadência. E, talvez mais triste ainda, à constatação de que é o destino dos homens encontrar-se de forma não mais do que fugidia em algum ponto de seu caminho. Nesse filme em que as irregularidades de Fincher contam tanto quanto seus imensos acertos para torná-lo único, o tempo escapa a todos – e ninguém escapa ao tempo.

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