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Edição 2096

21 de janeiro de 2009
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Especial
É o começo ou o fim?

Sob uma crise que ameaça a hegemonia americana no
mundo, Obama toma posse com um desafio enorme: ou
apruma os EUA para manter o país como potência dominante
no século XXI ou administra o declínio de uma supremacia que
moldou o planeta tal como o conhecemos hoje


André Petry, de Nova York

Brooks Kraft/Corbis/Latinstock
PROTEÇÃO MÁXIMA
O novo presidente: sua posse será um evento global, com uma segurança espetacular

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É o começo ou o fim?
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A guerra pelo conhecimento
A responsabilidade e os riscos de ser superpotência

Na noite em que conquistou o direito de candidatar-se à Casa Branca, em junho passado, Barack Hussein Obama comemorou diante de eleitores entusiasmados com um discurso de otimismo. "Nesta noite, marcamos o fim de uma jornada histórica com o começo de outra – uma jornada que trará dias melhores para o país", prometeu. Agora, ao falar sobre o conteúdo do discurso que fará em sua posse, Obama disse que pretende apenas ser o mais honesto possível com o povo americano sobre "quais são as circunstâncias" do país. A redução da escala retórica, das alturas de "dias melhores" para a dureza das "circunstâncias", é um reflexo sombrio da realidade. Nesta terça-feira, ao tomar posse como o 44º presidente dos Estados Unidos, Obama herdará um país de poderes incontrastáveis. É um mamute militar, a maior economia do planeta, uma potência tecnológica e cultural. Mas, como sombra de mau agouro sobre todo o seu gigantismo, o país se encaminha para uma das maiores crises econômicas de sua história, cuja gravidade coloca em xeque a própria hegemonia americana no mundo.

Como o primeiro negro a presidir o país, a posse de Barack Hussein Obama, 47 anos, é, mesmo, o coroamento de uma jornada histórica. A dúvida é saber se seu governo marcará o início de uma nova era, aprumando os EUA para manter seu status de potência dominante no século XXI, ou se será o começo do fim de uma supremacia que moldou o planeta tal como o conhecemos hoje (veja, nas páginas seguintes, reportagens sobre os desafios americanos na área social, econômica, militar, tecnológica e cultural). Sua posse, como convém aos impérios, será um evento global. A segurança é espetacular, com 20.000 homens, 150 equipes de agentes à paisana e especialistas em tudo – segurança cibernética, material biológico, libertação de reféns. Para chegar aonde as coisas estarão acontecendo, qualquer cidadão terá de cruzar anéis de segurança, cada um mais restritivo que o outro, em que toda a bagagem será revistada e não passará nem guarda-chuva.

Para a solenidade da posse, já saíram 240 000 ingressos. No total, Washington espera receber entre 2 milhões e 4 milhões de visitantes. Até agora, a lista inclui 102 bailes, recepções e jantares, a ser realizados em hotéis, escolas, teatros, igrejas e até museus. O primeiro baile, organizado pelas mulheres negras, estava previsto para a noite de sexta-feira. No sábado, haverá onze festas. No domingo, dezenove. Na segunda, 27. Na terça, 44. Os eventos são organizados pelas mais diferentes tribos. Índios, asiáticos, jovens (maiores de 18 e menores de 35), religiosos "progressistas", ecológicos (só com comida orgânica), gays, latinos, empresários, poetas, crianças (com show de marionetes), jornalistas, militares, artistas. Um único evento reunirá estrelas como Beyoncé, Shakira e Stevie Wonder. Num cardápio quase infinito, haverá a festa do cachorro-quente (no estilo de Chicago, claro), a festa das ostras, a festa sem álcool. A animação dos encontros será feita por uma miríade de DJs e bandas, entre as quais uma tal de "Beleza Brasil" (da Bahia, claro).

Asim Tanveer/Reuters

PROTESTOS
O desafio de Obama é reverter o ódio que Bush inspira em boa parte do mundo

Por trás do clima festivo, no entanto, estará a carranca da crise. Nos dois meses que separam a eleição e a posse de Obama, ela agravou-se de modo alarmante. Cerca de 1 milhão de empregos evaporaram. O crédito está congelado. O poder aquisitivo dos americanos, cuja gastança manteve a economia mundial numa alegre espiral por anos a fio, está desabando. Dia desses, em palestra numa universidade, Obama admitiu que o país precisava de "medidas dramáticas já" e que a solução da crise "levará tempo, talvez muitos anos". Na semana passada, seus auxiliares se empenharam para convencer o Congresso a liberar a segunda parcela do socorro financeiro ao mercado. Lawrence Summers, seu principal assessor econômico na Casa Branca, esteve no Congresso três vezes e despachou duas cartas aos parlamentares, prometendo bom uso do dinheiro. A parcela, enfim liberada, é de 350 bilhões de dólares. Antes, a equipe detalhou o primeiro plano de Obama para atacar a crise. É um monumental pacote de estímulo de 825 bilhões de dólares para dois anos.

É o pacote da salvação? Nem seus autores acreditam nisso. É apenas – se é que se pode dizer "apenas" – o maior socorro já proposto no planeta para salvar uma economia do colapso. Os sinais de desequilíbrio não cessam de pipocar, acompanhados de suas cifras espetaculares. Na sexta-feira passada, a crise projetou-se sobre o Citigroup, o gigante financeiro prestes a ser fatiado, e o Bank of America, o maior banco americano, que pediu um novo socorro financeiro ao governo, desta vez de 20 bilhões de dólares. "As dificuldades de Obama são muito mais profundas e mais globais", escreveu o colunista Martin Wolf, em artigo no Financial Times que teve repercussão entre economistas.

Há uma corrente de analistas advertindo que a crise americana pode ser tão grave, ou até mais grave, do que a prolongada recessão do Japão nos anos 90. "Se o foco for apenas estabilizar o sistema financeiro, gastaremos trilhões de dólares sem nenhuma reforma e acabaremos no mesmo lugar", disse a VEJA o economista Bruce Scott, da Universidade Harvard. E o que deve ser feito já? "Não há medida salvadora", responde Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. "É necessário um pacote de estímulo fiscal, recapitalizar os bancos e reestruturar as hipotecas", completa. "É preciso cortar alíquotas de imposto, e o governo precisa deixar de ser alcoviteiro de interesses especiais, como os da indústria automobilística", disse a VEJA Edward Prescott, o Nobel de 2004.

Ciente dos desafios, Obama já anunciou que consumirá as primeiras três semanas de seu governo em entrevistas, palestras e coletivas para obter apoio no Congresso ao pacote de 825 bilhões de dólares. Pela opinião pública, ele assume com mais de 80% de aprovação, índice notável em comparação até com o de antecessores muito populares, como Ronald Reagan. Obama tem mostrado interesse particular pelo governo de Franklin Roosevelt (1933-1945), que arrancou os EUA da depressão. Examinou as palavras e até o tom com que Roosevelt se dirigia, sempre através do rádio, ao povo americano. Também leu o livro do jornalista Jonathan Alter, The Defining Moment, que descreve os primeiros 100 dias de Roosevelt.

As comparações entre Obama e Roosevelt, embora corriqueiras, não são muito apropriadas. Primeiro, porque Roosevelt assumiu quando a crise já estava no meio do caminho e teve o auxílio economicamente dinamizador da II Guerra. Segundo, porque a vitória de Roosevelt demoliu o quadro partidário da época, levando 29% do eleitorado republicano. Obama levou só 9%. Nem o partido democrata é mais o mesmo. "A militância de base hoje é menos organizada devido ao declínio da velha máquina política e ao encolhimento do trabalho sindicalizado", disse a VEJA o professor Howard Reiter, da Universidade de Connecticut, especialista nos partidos americanos. "Hoje, os democratas se fiam em doações de lobistas e aliados milionários tanto quanto os republicanos." Em certa medida, portanto, o desafio de Obama é até maior do que o de Roosevelt.

Mario Tama/Getty Images

SÓ PIOROU
Fila de desempregados, em Nova York: da eleição até a posse de Obama, 1 milhão de empregos evaporaram

Por ser a primeira eleição de um negro para a Casa Branca, a vitória de Obama acabou nublada por alguns mitos – como o de que teve um desempenho espetacular. Obama quebrou uma barreira histórica, a racial, mas ganhou 53% dos votos populares e 365 votos no colégio eleitoral, o que não é pouco, mas também não é esmagador. Ele teve o apoio decisivo dos negros e empolgou o eleitorado jovem, mas, de novo, o saldo final foi menos radiante do que se imaginou. "O comparecimento às urnas dos jovens foi menos dramático do que alguns analistas anteciparam, mas é significativo que tenham escolhido Obama por uma margem bem superior à de outras eleições", disse a VEJA o cientista político Larry Bartels, da Universidade Princeton. Por fim, Obama teve a ajuda da impopularidade de George W. Bush e da gravidade da crise. Ira Katznelson, ex-presidente da Associação Americana de Ciência Política, ponderou a VEJA: "Acredito que Obama venceria a eleição sem a crise, mas a vitória seria bem mais apertada".

Tudo isso – o esforço para vencer e as dificuldades do futuro – torna a posse de Obama um evento ainda mais relevante. Além de lidar com a crise econômica, ele terá de resgatar o respeito, a admiração e o apreço de que os Estados Unidos gozavam no mundo, mas que foram destroçados pelo governo de Bush e seus auxiliares mais obtusos, o vice-presidente Dick Cheney e o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld. O trio é responsável por parte do ódio que Bush desperta no mundo e que, naturalmente, passou a ser associado aos Estados Unidos. Na largada, Obama conta com imensas vantagens para lidar com esse legado desmoralizador. Tolerante e pragmático, ele é o primeiro presidente-celebridade. Pode ser porque a imprensa o adulou. Ou porque sua família, com a mulher exuberante e as duas simpáticas filhas pequenas, seja perfeitamente fotogênica. Ou porque é o primeiro negro a chegar lá. O fato é que, talvez por tudo isso junto, boa parte do mundo lhe é simpática. Se Obama falhar, portanto, não terá sido por falta de torcida a favor.

Ela quer mais aliados e menos inimigos

Kevin Lamarque/Reuters

SEM DIÁLOGO
Hillary, durante a sabatina no Senado, na qual anunciou o fim da doutrina Bush: no conflito no Oriente Médio, nada de conversa com os terroristas do Hamas

Numa noite de dezembro passado, Hillary Clinton reuniu uns 1 000 fãs num teatro em Nova York. Cobrou ingresso, para abater dívidas de campanha. Quem pagava mais ganhava cadeira melhor. No palco, duas poltronas separadas por uma pequena mesa redonda, com água e flores. Numa poltrona, a atriz America Ferrera, estrela de Ugly Betty, seriado popular da rede de televisão ABC. Na outra, Hillary Clinton, respondendo a perguntas chapa-branca lidas pela atriz. Era um evento para recolher dinheiro, entreter a plateia – mais mulheres que homens, mais brancos que negros – e ser aplaudida. A certa altura, polidamente, Hillary falou sobre um jantar que tivera pouco antes, em Washington. "Gentilmente, Condi me convidou para jantar na casa dela. Conversamos durante duas horas", disse, referindo-se pelo apelido a Condoleezza Rice, a mulher a que Hillary vai suceder no comando do Departamento de Estado. Acrescentou que foi um jantar muito útil e, para deleite da plateia, delicadamente esclareceu que a utilidade, na realidade, foi ensinar-lhe o que não fazer.

Na semana passada, nas cinco horas em que foi sabatinada no Senado, Hillary, mulher inteligente, articulada e ambiciosa, mostrou que aprendeu a lição. Prometeu que o Departamento de Estado vai levar em conta as "profundas transformações pelas quais o mundo passou nas duas últimas décadas". Hillary anunciou o fim do instrumento que orientou o trabalho de Condi: a doutrina Bush, segundo a qual os Estados Unidos, sendo a nação mais poderosa do mundo, estavam autorizados a agir unilateralmente. Na sabatina, Hillary mostrou domínio dos temas internacionais e, como não podia deixar de ser, evitou adiantar sua posição pessoal sobre as questões atuais. A invasão de Gaza por Israel mereceu dela condenação dos "trágicos custos humanos" que a guerra tem imposto aos palestinos, comentário precedido pela reafirmação da aliança americana com o estado judeu. Novidade mesmo foi antecipar que só pretende negociar com o Hamas caso a organização renuncie ao terrorismo e reconheça o direito de Israel à existência. Barack Obama, na campanha, dizia que seu governo não imporia condições para negociar com ninguém – nem com terroristas. Ou Obama mudou de ideia, o que não seria surpresa, ou Hillary está fazendo a sintonia da política externa, o que também não seria surpresa.

Hillary e o marido, o ex-presidente Bill Clinton, são donos de um indisputado faro para o poder e tiveram influência notória na formação do novo governo. Dos 26 principais assessores de Obama, dos quais dezenove são ministros ou ocupam postos com status ministerial, nada menos que treze tiveram laços mais ou menos sólidos com os Clinton ou com o governo de Clinton (1993-2001). Na sabatina, o único assunto embaraçoso para a ex-primeira-dama foi justamente a fundação de seu marido, que recolhe doações financeiras com governos estrangeiros. Os republicanos, com razão, acham que Bill receber dinheiro de governo estrangeiro e Hillary negociar com o mesmo governo estrangeiro é uma situação convidativa para um conflito de interesses. Ela lembrou que o comitê de ética do Departamento de Estado examinou a situação e aprovou-a, mas prometeu, mesmo assim, ficar de olho para evitar problemas.

Ah, sim: nas cinco horas de depoimento, Hillary falou do Brasil uma vez. Disse que os emergentes, "como China, Índia, Brasil, África do Sul e Indonésia", precisam ser mais ouvidos. Só para comparar com os países do Bric, Hillary falou treze vezes da China, onze vezes da Índia e 25 vezes da Rússia. Confirmando a tese de que só ganha atenção quem cria problema, Hillary também falou do venezuelano Hugo Chávez e do boliviano Evo Morales. Do presidente Lula, nem um pio.

 

O desastre: duas guerras,
um déficit e uma crise

Jim Watson/AFP

OS SETE ANOS
O presidente Bush, em sua última entrevista coletiva, na semana passada: "Mais de sete anos sem um único ataque terrorista em nosso solo"

O aprendiz de alfaiate Andrew Johnson, que presidiu os Estados Unidos de 1865 a 1869, já foi considerado um dos grandes líderes americanos. Isso foi no tempo em que barrar a integração social dos negros era visto como uma louvável forma de impedir a corrupção de valores. Racista, Johnson combateu todos os esforços para criar uma democracia multirracial. Com a mudança na leitura da história, e o consequente sepultamento da odiosa supremacia branca, mudou também o conceito sobre Johnson, hoje considerado um dos piores presidentes americanos. Com seu adeus definitivo à Casa Branca, George Walker Bush, 62 anos, sai do poder como um dos piores, se não o pior, presidentes que os Estados Unidos já tiveram. Pode ser que Bush seja visto sob melhores luzes daqui a meio século. Mas, por enquanto, o republicano voltará para o seu rancho no Texas deixando para trás um governo desastroso cujo balanço é um desserviço completo: a maior potência econômica e militar da história conseguiu, em oito anos, ficar menos temida pelos inimigos e menos admirada pelos amigos.

Bush chegou dizendo que faria um governo "para unir, não para dividir", e agora entrega um país com duas guerras (Iraque e Afeganistão), um déficit monumental (já na casa do trilhão de dólares) e uma economia em frangalhos (a pior crise desde a II Guerra Mundial). Logo que assumiu, Bush foi atropelado pelos atentados de 11 de setembro de 2001 – e isso, nos sete anos seguintes, serviria como justificativa e desculpa para tudo: a espionagem de cidadãos americanos, as prisões secretas e a tortura contra prisioneiros, numa lamentável quebra da tradição americana de respeito aos direitos humanos. Em defesa de seu governo, Bush afirmou, em seu último pronunciamento à nação na quinta-feira passada, que se pode debater se suas decisões na guerra contra o terrorismo foram acertadas, mas não é possível questionar os resultados. "Estamos há mais de sete anos sem nenhum ataque terrorista em nosso solo", disse.

É uma defesa pobre de seus feitos. Afinal, mesmo sem Bush, também não houve ataques de terroristas estrangeiros nos sete anos que antecederam o 11 de Setembro. Mesmo daqui a 100 anos, Bush ainda será lembrado pela sua principal obra, a guerra no Iraque, que começou por um motivo falso (as tais armas de destruição em massa que nunca apareceram), já matou mais de 4 000 militares americanos e 100 000 civis iraquianos, consome 10 bilhões de dólares por mês e elegeu o opositor, Barack Obama. É preciso reconhecer, porém, que a guerra no Iraque não chegou a ser o fracasso vietnamita que muitos previram que seria.

Em dezembro de 2006, o historiador Eric Foner, da Universidade Colúmbia, assinou um artigo afirmando que Bush era o pior presidente da história. Fazia um governo obtuso como o de Franklin Pierce (1853-1857), corrupto como o de Warren Harding (1921-1923) e abusivo como o de Richard Nixon (1969-1974). Na semana passada, convidado por VEJA a voltar a avaliar o governo, o historiador disse: "Os últimos dois anos só confirmaram meu julgamento. Mas, ainda que ruim, o segundo mandato de Bush foi melhor que o primeiro. Nele, o presidente foi mais habilidoso, teve um convívio frutífero com a China, abriu as portas do clube atômico à Índia e abandonou a aversão ao uso da diplomacia, adotando-a para lidar com a Coreia do Norte e o Irã". Parece pouco, mas, em se tratando de Bush, talvez não se pudesse esperar muito mais.



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