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Especial Sob uma crise
que ameaça a hegemonia americana no
Na noite em que conquistou o direito de candidatar-se à Casa Branca, em junho passado, Barack Hussein Obama comemorou diante de eleitores entusiasmados com um discurso de otimismo. "Nesta noite, marcamos o fim de uma jornada histórica com o começo de outra uma jornada que trará dias melhores para o país", prometeu. Agora, ao falar sobre o conteúdo do discurso que fará em sua posse, Obama disse que pretende apenas ser o mais honesto possível com o povo americano sobre "quais são as circunstâncias" do país. A redução da escala retórica, das alturas de "dias melhores" para a dureza das "circunstâncias", é um reflexo sombrio da realidade. Nesta terça-feira, ao tomar posse como o 44º presidente dos Estados Unidos, Obama herdará um país de poderes incontrastáveis. É um mamute militar, a maior economia do planeta, uma potência tecnológica e cultural. Mas, como sombra de mau agouro sobre todo o seu gigantismo, o país se encaminha para uma das maiores crises econômicas de sua história, cuja gravidade coloca em xeque a própria hegemonia americana no mundo. Como o primeiro negro a presidir o país, a posse de Barack Hussein Obama, 47 anos, é, mesmo, o coroamento de uma jornada histórica. A dúvida é saber se seu governo marcará o início de uma nova era, aprumando os EUA para manter seu status de potência dominante no século XXI, ou se será o começo do fim de uma supremacia que moldou o planeta tal como o conhecemos hoje (veja, nas páginas seguintes, reportagens sobre os desafios americanos na área social, econômica, militar, tecnológica e cultural). Sua posse, como convém aos impérios, será um evento global. A segurança é espetacular, com 20.000 homens, 150 equipes de agentes à paisana e especialistas em tudo segurança cibernética, material biológico, libertação de reféns. Para chegar aonde as coisas estarão acontecendo, qualquer cidadão terá de cruzar anéis de segurança, cada um mais restritivo que o outro, em que toda a bagagem será revistada e não passará nem guarda-chuva. Para a solenidade da posse, já saíram 240 000 ingressos. No total, Washington espera receber entre 2 milhões e 4 milhões de visitantes. Até agora, a lista inclui 102 bailes, recepções e jantares, a ser realizados em hotéis, escolas, teatros, igrejas e até museus. O primeiro baile, organizado pelas mulheres negras, estava previsto para a noite de sexta-feira. No sábado, haverá onze festas. No domingo, dezenove. Na segunda, 27. Na terça, 44. Os eventos são organizados pelas mais diferentes tribos. Índios, asiáticos, jovens (maiores de 18 e menores de 35), religiosos "progressistas", ecológicos (só com comida orgânica), gays, latinos, empresários, poetas, crianças (com show de marionetes), jornalistas, militares, artistas. Um único evento reunirá estrelas como Beyoncé, Shakira e Stevie Wonder. Num cardápio quase infinito, haverá a festa do cachorro-quente (no estilo de Chicago, claro), a festa das ostras, a festa sem álcool. A animação dos encontros será feita por uma miríade de DJs e bandas, entre as quais uma tal de "Beleza Brasil" (da Bahia, claro).
Por trás do clima festivo, no entanto, estará a carranca da crise. Nos dois meses que separam a eleição e a posse de Obama, ela agravou-se de modo alarmante. Cerca de 1 milhão de empregos evaporaram. O crédito está congelado. O poder aquisitivo dos americanos, cuja gastança manteve a economia mundial numa alegre espiral por anos a fio, está desabando. Dia desses, em palestra numa universidade, Obama admitiu que o país precisava de "medidas dramáticas já" e que a solução da crise "levará tempo, talvez muitos anos". Na semana passada, seus auxiliares se empenharam para convencer o Congresso a liberar a segunda parcela do socorro financeiro ao mercado. Lawrence Summers, seu principal assessor econômico na Casa Branca, esteve no Congresso três vezes e despachou duas cartas aos parlamentares, prometendo bom uso do dinheiro. A parcela, enfim liberada, é de 350 bilhões de dólares. Antes, a equipe detalhou o primeiro plano de Obama para atacar a crise. É um monumental pacote de estímulo de 825 bilhões de dólares para dois anos. É o pacote da salvação? Nem seus autores acreditam nisso. É apenas se é que se pode dizer "apenas" o maior socorro já proposto no planeta para salvar uma economia do colapso. Os sinais de desequilíbrio não cessam de pipocar, acompanhados de suas cifras espetaculares. Na sexta-feira passada, a crise projetou-se sobre o Citigroup, o gigante financeiro prestes a ser fatiado, e o Bank of America, o maior banco americano, que pediu um novo socorro financeiro ao governo, desta vez de 20 bilhões de dólares. "As dificuldades de Obama são muito mais profundas e mais globais", escreveu o colunista Martin Wolf, em artigo no Financial Times que teve repercussão entre economistas. Há uma corrente de analistas advertindo que a crise americana pode ser tão grave, ou até mais grave, do que a prolongada recessão do Japão nos anos 90. "Se o foco for apenas estabilizar o sistema financeiro, gastaremos trilhões de dólares sem nenhuma reforma e acabaremos no mesmo lugar", disse a VEJA o economista Bruce Scott, da Universidade Harvard. E o que deve ser feito já? "Não há medida salvadora", responde Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. "É necessário um pacote de estímulo fiscal, recapitalizar os bancos e reestruturar as hipotecas", completa. "É preciso cortar alíquotas de imposto, e o governo precisa deixar de ser alcoviteiro de interesses especiais, como os da indústria automobilística", disse a VEJA Edward Prescott, o Nobel de 2004. Ciente dos desafios, Obama já anunciou que consumirá as primeiras três semanas de seu governo em entrevistas, palestras e coletivas para obter apoio no Congresso ao pacote de 825 bilhões de dólares. Pela opinião pública, ele assume com mais de 80% de aprovação, índice notável em comparação até com o de antecessores muito populares, como Ronald Reagan. Obama tem mostrado interesse particular pelo governo de Franklin Roosevelt (1933-1945), que arrancou os EUA da depressão. Examinou as palavras e até o tom com que Roosevelt se dirigia, sempre através do rádio, ao povo americano. Também leu o livro do jornalista Jonathan Alter, The Defining Moment, que descreve os primeiros 100 dias de Roosevelt. As comparações entre Obama e Roosevelt, embora corriqueiras, não são muito apropriadas. Primeiro, porque Roosevelt assumiu quando a crise já estava no meio do caminho e teve o auxílio economicamente dinamizador da II Guerra. Segundo, porque a vitória de Roosevelt demoliu o quadro partidário da época, levando 29% do eleitorado republicano. Obama levou só 9%. Nem o partido democrata é mais o mesmo. "A militância de base hoje é menos organizada devido ao declínio da velha máquina política e ao encolhimento do trabalho sindicalizado", disse a VEJA o professor Howard Reiter, da Universidade de Connecticut, especialista nos partidos americanos. "Hoje, os democratas se fiam em doações de lobistas e aliados milionários tanto quanto os republicanos." Em certa medida, portanto, o desafio de Obama é até maior do que o de Roosevelt.
Por ser a primeira eleição de um negro para a Casa Branca, a vitória de Obama acabou nublada por alguns mitos como o de que teve um desempenho espetacular. Obama quebrou uma barreira histórica, a racial, mas ganhou 53% dos votos populares e 365 votos no colégio eleitoral, o que não é pouco, mas também não é esmagador. Ele teve o apoio decisivo dos negros e empolgou o eleitorado jovem, mas, de novo, o saldo final foi menos radiante do que se imaginou. "O comparecimento às urnas dos jovens foi menos dramático do que alguns analistas anteciparam, mas é significativo que tenham escolhido Obama por uma margem bem superior à de outras eleições", disse a VEJA o cientista político Larry Bartels, da Universidade Princeton. Por fim, Obama teve a ajuda da impopularidade de George W. Bush e da gravidade da crise. Ira Katznelson, ex-presidente da Associação Americana de Ciência Política, ponderou a VEJA: "Acredito que Obama venceria a eleição sem a crise, mas a vitória seria bem mais apertada". Tudo isso o esforço para vencer e as dificuldades do futuro torna a posse de Obama um evento ainda mais relevante. Além de lidar com a crise econômica, ele terá de resgatar o respeito, a admiração e o apreço de que os Estados Unidos gozavam no mundo, mas que foram destroçados pelo governo de Bush e seus auxiliares mais obtusos, o vice-presidente Dick Cheney e o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld. O trio é responsável por parte do ódio que Bush desperta no mundo e que, naturalmente, passou a ser associado aos Estados Unidos. Na largada, Obama conta com imensas vantagens para lidar com esse legado desmoralizador. Tolerante e pragmático, ele é o primeiro presidente-celebridade. Pode ser porque a imprensa o adulou. Ou porque sua família, com a mulher exuberante e as duas simpáticas filhas pequenas, seja perfeitamente fotogênica. Ou porque é o primeiro negro a chegar lá. O fato é que, talvez por tudo isso junto, boa parte do mundo lhe é simpática. Se Obama falhar, portanto, não terá sido por falta de torcida a favor.
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