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Brasil Com dieta, cirurgia
plástica e mudança radical no corte de
A inauguração pública na semana passada da nova fisionomia da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, não deixou ninguém indiferente. Ao lado do presidente Lula e do governador de São Paulo, José Serra, Dilma reapareceu em grande estilo na abertura de uma feira de moda. Ela estava quase 10 quilos mais magra e sem óculos, que foram substituídos por lentes. O cabelo ficou ruivo, com um corte repicado que se derruba elegantemente pela testa. O PAC da ministra, Plano de Aprimoramento Cosmético, incluiu também uma cirurgia plástica que lhe deu ar mais jovial e atraente (veja o quadro). Um dia depois da estreia do novo visual, Dilma e Lula conversaram a sós em Brasília. O presidente reafirmou o desejo de vê-la disputando sua sucessão, pediu à ministra que transfira aos poucos suas funções na Casa Civil, que se dedique intensamente ao PAC original, o Programa de Aceleração do Crescimento, principal aposta eleitoral de Lula, e à montagem de uma aliança política consistente. A combinação entre a exibição de sua nova face e o despacho a sós com Lula é a evidência mais forte de uma suspeita antiga: apesar dos despistes de praxe, a ministra-candidata já está mergulhada, de corpo e alma, na campanha presidencial de 2010. A transformação estética, naturalmente, é a etapa mais fácil da caminhada de Dilma Rousseff rumo ao Palácio do Planalto. Agora, seu maior desafio como candidata é herdar a extraordinária popularidade do presidente, seu padrinho político e fiador de sua candidatura. Lula já pediu a todos os ministros uma lista de inaugurações para montar uma agenda política conjunta com Dilma. O objetivo é apresentá-la ao eleitorado e fixar sua imagem como a candidata do presidente, a única capaz de dar continuidade a seu governo. Lula espera transformar parte de sua popularidade recorde, que chega aos 70%, em votos para Dilma. Para receber a herança bendita, porém, a ministra precisa se tornar conhecida. Hoje, apenas metade do eleitorado sabe quem ela é. "Ser conhecida é fácil. O difícil é ser vista como viável tanto para os políticos como para o eleitorado", diz o publicitário Fernando Barros, presidente da Propeg, um dos responsáveis pela propaganda da Presidência da República.
Segundo especialistas em marketing político ouvidos por VEJA, a transferência de votos, fator decisivo para as pretensões eleitorais de Dilma, é um processo de mão dupla. Lula precisa ter o que transferir e a ministra precisa estar preparada para receber o monumental apoio popular do presidente. Em outras palavras, Lula conseguirá transferir votos a Dilma se atravessar com sucesso a crise econômica, unir a máquina do governo em torno da ungida e atrair os movimentos sociais e os empresários para financiar a candidatura e lhe dar peso político. "Lula ainda tem dois anos de governo pela frente em meio a uma crise econômica mundial. Ninguém pode prever que efeito essa crise terá em sua popularidade e na sua sucessão", afirma Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope. Os especialistas dizem que, caso a popularidade de Lula resista à crise, a ministra ainda precisará sofrer uma transformação interior tão vistosa quanto a que lhe alterou a fisionomia para herdar os votos de Lula. A fórmula mágica do sucesso eleitoral recomenda que Dilma Rousseff adquira capacidade de liderança, uma tarefa árdua para uma executiva impetuosa e de gênio difícil. A ministra, que no ano passado ganhou um sugestivo bambolê de caciques do PMDB, também precisaria ter maior jogo de cintura para se aproximar de partidos e líderes regionais que apoiam o governo. Além de mostrar que tem chances reais de vencer, Dilma também teria de dar sinais de que vai compartilhar o poder caso chegue ao Planalto. A fórmula, mesmo cumprida à risca, não é infalível. Isso porque do outro lado do ringue político haverá um oponente fortíssimo em 2010, governador do estado mais importante do país e líder em todas as pesquisas o tucano José Serra. "Um candidato de Lula, com seu governo forte e bem avaliado, irá para o segundo turno. A partir daí, será uma disputa imprevisível, ainda mais com um adversário como José Serra, que tem um partido forte e o governo de São Paulo como cartão de apresentação", afirma o publicitário Edson Barbosa, marqueteiro do PT na última eleição presidencial.
Mesmo ignorada por metade do eleitorado e patinando em um dígito nas pesquisas, a candidatura de Dilma vem ganhando musculatura. No mês passado, o instituto Datafolha divulgou levantamento no qual a ministra aparece com 8% das intenções de voto no cenário mais provável, no qual concorreria contra Serra, Ciro Gomes (PSB) e Heloísa Helena (PSOL). Apesar do baixo índice, Dilma tem o que comemorar. Levando-se em conta a pesquisa anterior do Datafolha, realizada em março, ela saltou de 3% para 8% nas intenções de voto o que representa um crescimento de 167%. O salto ocorreu entre o eleitorado que aprova o governo Lula. Nesse público, concentram-se 89% de seus votos atuais. Outros 9% vêm dos que consideram Lula regular e apenas 1% dos que reprovam seu governo. "Nenhum presidente desde Collor atingiu tal patamar de aprovação. Por isso é difícil prever qual será o teto eleitoral de Dilma. Mas é muito provável que continue crescendo à medida que os eleitores identifiquem mais claramente o apoio de Lula a ela", afirma Mauro Paulino, diretor do Datafolha. É raro aparecer um candidato competitivo que seja ignorado por metade do eleitorado e nunca tenha testado as urnas, caso de Dilma. Mas já aconteceu antes. Em 1910, para ficar apenas no século passado, o presidente Nilo Peçanha lançou a candidatura de Hermes da Fonseca, que nunca disputara eleição e tinha como principal atributo político ser sobrinho de Deodoro da Fonseca, herói da proclamação da República. Hermes da Fonseca derrotou o escritor e diplomata Rui Barbosa e foi eleito presidente da República. Mais recentemente, em 1960, Juscelino Kubitschek inventou a candidatura de um ministro sem experiência eleitoral, Henrique Lott. Mesmo apoiado por um presidente muito popular, Lott foi derrotado por Jânio Quadros. Suspeita-se que JK tenha apoiado Lott apenas para que ele perdesse a eleição, certo de que voltaria ao poder cinco anos depois. Há, atualmente, suspeita parecida no serpentário de Brasília. A derrota da ministra, segundo esse ponto de vista, pavimentaria o caminho para a volta de Lula ao Planalto em 2015. Se a intenção de JK foi realmente essa, nunca se soube. A renúncia de Jânio e a instalação do regime militar impediram sua volta ao governo. No caso de Lula, a história ainda está para ser escrita. A candidatura da ministra começou a ser arquitetada por Lula no fim de 2007 em conversas com João Santana, seu marqueteiro político. Nessa época, as principais apostas de Lula e do PT haviam desmoronado, uma atrás da outra, por suspeitas variadas. Em março passado, Lula falou de sua intenção pela primeira vez com Dilma. Inicialmente, ela rejeitou a ideia, mas aos poucos foi ganhando confiança. "Dilma era uma aposta de Lula. Hoje, é candidata", diz o ministro José Múcio, das Relações Institucionais. A ministra tem se esforçado para se aproximar cada vez mais do figurino exigido de um candidato presidencial. Sua agenda está cada vez mais cheia de compromissos com políticos. Uma vez por semana, ela se reúne com João Santana, que já começou a treiná-la para o corpo-a-corpo com a imprensa e os eleitores. A sisudez ainda é um obstáculo, mas ela tem feito progressos. Em dezembro, ao aparecer pela primeira vez no jantar anual da bancada governista no Senado, Dilma bebeu vinho, distribuiu sorrisos e, ao final, cantou El Día que Me Quieras, em parceria com o senador Eduardo Suplicy: "Acaricia mi ensueño / El suave murmullo de tu suspirar / Cómo ríe la vida / Si tus ojos negros me quieren mirar!". A transformação interior é mais difícil e bem menos explícita, mas já começou.
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