Edição 1837 . 21 de janeiro de 2004

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Ponto de vista: Claudio de Moura Castro
Muitas universidades numa só

"Dentro de nossa estrutura universitária
carunchada, há outras três universidades
escondidas, todas elas brilhantes, ou quase"

São merecidas quase todas as críticas que acusam as universidades federais de desmazelo, ineficiência, improdutividade e descumprimentos em todos os azimutes. Geram-se assim os mesmos custos altos das universidades européias, sem a mesma qualidade e sem que os professores sejam bem pagos. Na verdade, quase tudo resulta das péssimas regras do serviço público, que estiolam o bom e premiam quem descumpre, em vez de puxar-lhe as orelhas. Os orçamentos são rígidos, não permitindo gastar onde é preciso e economizar onde é possível. Vão-se os dinheiros e ficam os magros resultados.

Mas quase todos os críticos se esquecem de dizer que esses males afetam sobretudo a graduação. De fato, dentro dessa estrutura carunchada, há mais três universidades escondidas, todas elas brilhantes, ou quase.

Há a pós-graduação, produzindo muita pesquisa, uma boa fração dela passando pelo crivo das publicações nos periódicos internacionais mais competitivos. A cada dois anos, o Brasil passa na frente de algum país no volume de publicações tabuladas no Citation Index. A razão desse sucesso é ser a pós-graduação movida pelos fundos competitivos, pela avaliação impiedosa dos pares e pela pressão para produzir mais e melhor. Os professores desses quase 2.000 cursos nem sequer entram em greve, pois têm prazos a cumprir. São as jóias da coroa (embora alguns defeitos estejam hoje clamando atenção).

Ilustração Ale Setti


Há também as fundações que operam dentro das universidades, com um espírito furiosamente capitalista, viabilizando a venda de serviços, cursos, pesquisas e até desenvolvimento tecnológico. Dentro delas está a extensão, a ala mais dinâmica da universidade. Como nas universidades públicas americanas, geram os recursos necessários para novos equipamentos, para os assistentes e para comprar o que os apertados orçamentos de custeio não permitem. Algumas fundações aumentam em até 30% o orçamento regular da universidade. Ainda assim, são alvo de sabotagem de alguns, respaldados por uma ideologia coberta de teias de aranha. Por inveja, algumas fundações são assediadas por pedágios exorbitantes, cobrados pela administração central. Em uma delas – bem-sucedida na área empresarial –, diante do excesso de cobrança de taxas de administração, os professores saíram em bloco, levando todos os contratos e criando uma fundação independente. Ficou a universidade a ver navios, com sua fundação vazia e sem os recursos extras que iam para outros departamentos.

Finalmente, há o setor informal operando dentro das federais. São os professores que oferecem seus serviços em um mercado cinza. São consultores, professores em outros lugares ou assessores de outras instituições. Sem tais biscates, muitos dos melhores deixariam a universidade, atraídos pelos salários mais altos do mercado. Para seus alunos, trazem a experiência que não existe dentro dos muros da universidade.

Essa quádrupla universidade pode ser vista de dois ângulos. Podemos lamentar os pecados contra a castidade administrativa, a confusão e as distorções, além da iniqüidade de um sistema em que alguns ganham muito e outros, muito pouco.

Contudo, diante do marco regulatório que existe e dos obstáculos políticos para mudar as regras de funcionamento da universidade federal, há os que vêem nessa barafunda um mal menor. Se não mudam as leis nem os regulamentos, melhor essa colcha de retalhos de ilegalidades e maquiagens. Seria pior a alternativa de uma pós-graduação esterilizada pelas perdas de receita. Haveria uma queda abrupta na participação dos professores em atividades socialmente úteis e o risco de perda dos melhores. O contribuinte pagaria quase o mesmo, e não teríamos o impressionante volume de pesquisas e os primeiros passinhos na tecnologia. Afinal, esse time de professores é o que de melhor possuímos em recursos humanos esplendidamente preparados.

Temos dentro do mesmo campus uma favela composta de uma universidade engasgada e três vibrantes. Três a um. Se não dá para melhorar, como está ainda ganhamos o jogo. O que não podemos é deixar piorar, destruindo essa favela produtiva.


Claudio de Moura Castro é economista
(
claudiodmc@attglobal.net)

 
 
 
 
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