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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Muitas universidades numa só
"Dentro
de nossa estrutura universitária
carunchada,
há
outras três universidades
escondidas, todas elas brilhantes, ou quase"
São
merecidas quase todas as críticas que acusam as universidades
federais de desmazelo, ineficiência, improdutividade e descumprimentos
em todos os azimutes. Geram-se assim os mesmos custos altos das
universidades européias, sem a mesma qualidade e sem que
os professores sejam bem pagos. Na verdade, quase tudo resulta das
péssimas regras do serviço público, que estiolam
o bom e premiam quem descumpre, em vez de puxar-lhe as orelhas.
Os orçamentos são rígidos, não permitindo
gastar onde é preciso e economizar onde é possível.
Vão-se os dinheiros e ficam os magros resultados.
Mas quase todos os críticos se esquecem de dizer que esses
males afetam sobretudo a graduação. De fato, dentro
dessa estrutura carunchada, há mais três universidades
escondidas, todas elas brilhantes, ou quase.
Há a pós-graduação, produzindo muita
pesquisa, uma boa fração dela passando pelo crivo
das publicações nos periódicos internacionais
mais competitivos. A cada dois anos, o Brasil passa na frente de
algum país no volume de publicações tabuladas
no Citation Index. A razão desse sucesso é ser a pós-graduação
movida pelos fundos competitivos, pela avaliação impiedosa
dos pares e pela pressão para produzir mais e melhor. Os
professores desses quase 2.000 cursos nem sequer entram em greve,
pois têm prazos a cumprir. São as jóias da coroa
(embora alguns defeitos estejam hoje clamando atenção).
Ilustração Ale Setti
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Há também as fundações que operam dentro
das universidades, com um espírito furiosamente capitalista,
viabilizando a venda de serviços, cursos, pesquisas e até
desenvolvimento tecnológico. Dentro delas está a extensão,
a ala mais dinâmica da universidade. Como nas universidades
públicas americanas, geram os recursos necessários
para novos equipamentos, para os assistentes e para comprar o que
os apertados orçamentos de custeio não permitem. Algumas
fundações aumentam em até 30% o orçamento
regular da universidade. Ainda assim, são alvo de sabotagem
de alguns, respaldados por uma ideologia coberta de teias de aranha.
Por inveja, algumas fundações são assediadas
por pedágios exorbitantes, cobrados pela administração
central. Em uma delas bem-sucedida na área empresarial
, diante do excesso de cobrança de taxas de administração,
os professores saíram em bloco, levando todos os contratos
e criando uma fundação independente. Ficou a universidade
a ver navios, com sua fundação vazia e sem os recursos
extras que iam para outros departamentos.
Finalmente, há o setor informal operando dentro das federais.
São os professores que oferecem seus serviços em um
mercado cinza. São consultores, professores em outros lugares
ou assessores de outras instituições. Sem tais biscates,
muitos dos melhores deixariam a universidade, atraídos pelos
salários mais altos do mercado. Para seus alunos, trazem
a experiência que não existe dentro dos muros da universidade.
Essa quádrupla universidade pode ser vista de dois ângulos.
Podemos lamentar os pecados contra a castidade administrativa, a
confusão e as distorções, além da iniqüidade
de um sistema em que alguns ganham muito e outros, muito pouco.
Contudo, diante do marco regulatório que existe e dos obstáculos
políticos para mudar as regras de funcionamento da universidade
federal, há os que vêem nessa barafunda um mal menor.
Se não mudam as leis nem os regulamentos, melhor essa colcha
de retalhos de ilegalidades e maquiagens. Seria pior a alternativa
de uma pós-graduação esterilizada pelas perdas
de receita. Haveria uma queda abrupta na participação
dos professores em atividades socialmente úteis e o risco
de perda dos melhores. O contribuinte pagaria quase o mesmo, e não
teríamos o impressionante volume de pesquisas e os primeiros
passinhos na tecnologia. Afinal, esse time de professores é
o que de melhor possuímos em recursos humanos esplendidamente
preparados.
Temos dentro do mesmo campus uma favela composta de uma universidade
engasgada e três vibrantes. Três a um. Se não
dá para melhorar, como está ainda ganhamos o jogo.
O que não podemos é deixar piorar, destruindo essa
favela produtiva.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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