Edição 1837 . 21 de janeiro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Três casos da semana,
e respectivas lições

Os caminhos tortuosos de uma
palavra, o dedo bobo de Mr. Hersh
e um pavão nada misterioso

Índios guaranis-caiovás continuavam a ocupar, até quinta-feira passada, fazendas em Iguatemi e outros municípios de Mato Grosso do Sul. Iguatemi – eis um nome com tortuosa trajetória na memória nacional. Iguatemi é a princípio um rio, afluente do Paraná, perto da fronteira com o Paraguai. Do rio, o nome migrou para o município, mas antes evocava um episódio hoje esquecido da história do Brasil – a ereção de uma praça-forte, no século XVIII, que deveria assinalar a soberania portuguesa sobre Mato Grosso e barrar o caminho dos castelhanos do Paraguai. A construção, e posterior proteção, da praça-forte do Iguatemi custou numerosas vidas, especialmente de homens de São Paulo, de onde eram enviados seus defensores. No fim, à tragédia veio somar-se a derrota, quando a praça-forte foi capturada por uma tropa formada no grosso por índios, a mando dos espanhóis.

Talvez em lembrança do rio, mas mais possivelmente do episódio, o nome reencarnaria numa rua de São Paulo, na região chique dos Jardins. E da rua passaria a designar, nos anos 60, o shopping center ali instalado, o primeiro da cidade – novidade das grandes, passaporte de ingresso de São Paulo no mundo maravilhoso do moderno consumo. Iguatemi, sinônimo de tragédia e humilhação, na história, passava a designar o triunfo das compras, do prazer, da paquera, da praça de alimentação, do passeio protegido dos incômodos e perigos das sortidas a céu aberto. A rua posteriormente seria alargada e ganharia outro nome, Brigadeiro Faria Lima. Mas o shopping continuaria Iguatemi, e geraria filiais em outras cidades brasileiras. Em São Paulo, apesar da multiplicação dos shoppings nas décadas que se seguiram, o Iguatemi manteve-se em lugar de honra. É o shopping do luxo. Luxo, por isso, é o que a palavra evoca. A não ser quando, como na semana passada, os conflitos de terra e os índios em pé de guerra da Iguatemi lá dos confins de Mato Grosso do Sul vêm trazer como que uma volta da palavra às origens, devolvendo-lhe um sentido de briga, turbulência e medo.

Lição da história. Palavras, como dinheiro sujo, também podem ser lavadas. Mas não há garantia de que, quando menos se espera, as manchas não ressurjam.

•••

Repare-se bem no rosto do comandante Dale Robbin Hersh, estampado nas fotos dos jornais e nos noticiários da TV, na semana passada. Hersh é o americano detido no aeroporto de Guarulhos, depois de fazer um gesto obsceno enquanto posava para a foto a que os americanos são agora obrigados ao desembarcar. No alto do crânio ele exibe uma calva que convida irresistivelmente ao adjetivo de rigor – "luzidia". Nas laterais o cabelo é bem aparado. Os olhos são pequenos, protegidos por óculos de aro fino. E, para vingar-se da falta de pêlos mais acima, cultiva um bigode, no qual os fios brancos já travam acirrada disputa com os negros pela maioria. No todo, esse homem de 53 anos exibe um ar sério. Mais do que sério, circunspecto. Como é que foi soltar aquele dedo bobo? Supõe-se em Mr. Hersh um americano de manual, temente a Deus, bom pai e bom vizinho, exímio piloto também no comando da máquina de aparar grama em sua casa de subúrbio. Como pôde escapar-lhe o gesto sem-vergonha? Como vai se explicar em casa? De que forma encaixar em sua figura sisuda aquele dedo médio insolentemente ereto, como a vingar, com a fúria estupradora da potência, a pretensão à reciprocidade de um país que, entre outras atrações, e não a menor, presenteia os estrangeiros com as delícias do turismo sexual?

Lição, para proveito da Polícia Federal. Diante de um americano tatuado, brinco na orelha, calça rasgada, camisa aberta e cabelo em tumulto, deixar passar, sem se dar ao trabalho de fichá-lo. O perigo reside nos Mr. Hersh da vida.

•••

Esta história nem deveria ser contada, tal o mau gosto que exala – é com um pedido de desculpas que se passa a recapitulá-la. Um desempregado pulou a cerca da Praça da República, no centro do Rio de Janeiro, e investiu contra o pavão que ali habitava, numa madrugada da semana passada. Matou o bicho e pretendia saciar com ele a fome, mas deu-se mal. Um grupo de travestis que faz plantão na calçada em frente tomou-se de fúria e pôs-se a agredir o homem a socos e pontapés, quando ele pulou de volta a cerca. Ele tentou fugir, pulando de novo para dentro, mas teve mais azar ainda – ficou com o braço preso numa das lanças pontudas que permeiam a cerca. O caso foi parar na delegacia, mas na verdade não deveria parar em lugar algum. Nem nesta página. Não, não e não. Ele não é só de mau gosto. É óbvio, gritantemente óbvio, na alusão à indigência brasileira. Tem desempregado, travesti, fome. E, no centro, tem um pavão nada misterioso, rebaixado da condição de rei das aves, dado a petulante exibicionismo, para a de repasto, no qual faz figura de primo pobre do frango e do peru.

Lição. Há acontecimentos diante dos quais a única reação possível é implorar: "Por favor, desaconteçam!".

 
 
 
 
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