|
|
Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Três
casos da semana,
e respectivas lições
Os
caminhos tortuosos
de
uma
palavra,
o dedo
bobo de
Mr. Hersh
e
um pavão nada
misterioso
Índios
guaranis-caiovás continuavam a ocupar, até quinta-feira
passada, fazendas em Iguatemi e outros municípios de Mato
Grosso do Sul. Iguatemi eis um nome com tortuosa trajetória
na memória nacional. Iguatemi é a princípio
um rio, afluente do Paraná, perto da fronteira com o Paraguai.
Do rio, o nome migrou para o município, mas antes evocava
um episódio hoje esquecido da história do Brasil
a ereção de uma praça-forte, no século
XVIII, que deveria assinalar a soberania portuguesa sobre Mato Grosso
e barrar o caminho dos castelhanos do Paraguai. A construção,
e posterior proteção, da praça-forte do Iguatemi
custou numerosas vidas, especialmente de homens de São Paulo,
de onde eram enviados seus defensores. No fim, à tragédia
veio somar-se a derrota, quando a praça-forte foi capturada
por uma tropa formada no grosso por índios, a mando dos espanhóis.
Talvez em lembrança do rio, mas mais possivelmente do episódio,
o nome reencarnaria numa rua de São Paulo, na região
chique dos Jardins. E da rua passaria a designar, nos anos 60, o
shopping center ali instalado, o primeiro da cidade novidade
das grandes, passaporte de ingresso de São Paulo no mundo
maravilhoso do moderno consumo. Iguatemi, sinônimo de tragédia
e humilhação, na história, passava a designar
o triunfo das compras, do prazer, da paquera, da praça de
alimentação, do passeio protegido dos incômodos
e perigos das sortidas a céu aberto. A rua posteriormente
seria alargada e ganharia outro nome, Brigadeiro Faria Lima. Mas
o shopping continuaria Iguatemi, e geraria filiais em outras cidades
brasileiras. Em São Paulo, apesar da multiplicação
dos shoppings nas décadas que se seguiram, o Iguatemi manteve-se
em lugar de honra. É o shopping do luxo. Luxo, por isso,
é o que a palavra evoca. A não ser quando, como na
semana passada, os conflitos de terra e os índios em pé
de guerra da Iguatemi lá dos confins de Mato Grosso do Sul
vêm trazer como que uma volta da palavra às origens,
devolvendo-lhe um sentido de briga, turbulência e medo.
Lição
da história. Palavras, como dinheiro sujo, também
podem ser lavadas. Mas não há garantia de que, quando
menos se espera, as manchas não ressurjam.
Repare-se bem no rosto do comandante Dale Robbin Hersh, estampado
nas fotos dos jornais e nos noticiários da TV, na semana
passada. Hersh é o americano detido no aeroporto de Guarulhos,
depois de fazer um gesto obsceno enquanto posava para a foto a que
os americanos são agora obrigados ao desembarcar. No alto
do crânio ele exibe uma calva que convida irresistivelmente
ao adjetivo de rigor "luzidia". Nas laterais o cabelo é
bem aparado. Os olhos são pequenos, protegidos por óculos
de aro fino. E, para vingar-se da falta de pêlos mais acima,
cultiva um bigode, no qual os fios brancos já travam acirrada
disputa com os negros pela maioria. No todo, esse homem de 53 anos
exibe um ar sério. Mais do que sério, circunspecto.
Como é que foi soltar aquele dedo bobo? Supõe-se em
Mr. Hersh um americano de manual, temente a Deus, bom pai e bom
vizinho, exímio piloto também no comando da máquina
de aparar grama em sua casa de subúrbio. Como pôde
escapar-lhe o gesto sem-vergonha? Como vai se explicar em casa?
De que forma encaixar em sua figura sisuda aquele dedo médio
insolentemente ereto, como a vingar, com a fúria estupradora
da potência, a pretensão à reciprocidade de
um país que, entre outras atrações, e não
a menor, presenteia os estrangeiros com as delícias do turismo
sexual?
Lição,
para proveito da Polícia Federal. Diante de um americano
tatuado, brinco na orelha, calça rasgada, camisa aberta e
cabelo em tumulto, deixar passar, sem se dar ao trabalho de fichá-lo.
O perigo reside nos Mr. Hersh da vida.
Esta história nem deveria ser contada, tal o mau gosto que
exala é com um pedido de desculpas que se passa a
recapitulá-la. Um desempregado pulou a cerca da Praça
da República, no centro do Rio de Janeiro, e investiu contra
o pavão que ali habitava, numa madrugada da semana passada.
Matou o bicho e pretendia saciar com ele a fome, mas deu-se mal.
Um grupo de travestis que faz plantão na calçada em
frente tomou-se de fúria e pôs-se a agredir o homem
a socos e pontapés, quando ele pulou de volta a cerca. Ele
tentou fugir, pulando de novo para dentro, mas teve mais azar ainda
ficou com o braço preso numa das lanças pontudas
que permeiam a cerca. O caso foi parar na delegacia, mas na verdade
não deveria parar em lugar algum. Nem nesta página.
Não, não e não. Ele não é só
de mau gosto. É óbvio, gritantemente óbvio,
na alusão à indigência brasileira. Tem desempregado,
travesti, fome. E, no centro, tem um pavão nada misterioso,
rebaixado da condição de rei das aves, dado a petulante
exibicionismo, para a de repasto, no qual faz figura de primo pobre
do frango e do peru.
Lição.
Há acontecimentos diante dos quais a única reação
possível é implorar: "Por favor, desaconteçam!".
|