Edição 1837 . 21 de janeiro de 2004

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Música
A vida na flauta

A música erudita está se tornando
uma profissão atraente no Brasil


Sérgio Martins

 
Bia Parreiras
Neschling, à frente da Osesp: salário de 1,2 milhão de reais por ano

Alguém na sua família resolveu tocar fagote, e ainda por cima pretende tirar o sustento dessa atividade? Calma. A possibilidade de sucesso é menos remota do que parece. Pela primeira vez na história recente, o mercado para os profissionais da música erudita está aquecido no Brasil. Em boa parte isso se deve à reestruturação pela qual passou a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) nos últimos anos. A instituição se propôs objetivos ambiciosos e vem cumprindo-os, com apresentações elogiadas no Brasil e no exterior. Para tanto, submeteu seus músicos a testes rigorosos e recompensou os que se saíram bem com um aumento. O salário inicial de seus integrantes é de 6.000 reais, e eles podem ampliá-lo formando grupos de música de câmara, dando aulas, fazendo gravações e tocando no exterior. Mentor da reestruturação, o maestro John Neschling é ele mesmo o símbolo máximo dessa fase de vacas gordas: no fim de 2003, renovou seu contrato de 1,2 milhão de reais por ano, rendimento equiparável ao dos presidentes de grandes empresas. No rastro da Osesp, outras orquestras se mexem – é o caso da Orquestra Sinfônica Municipal (OSM), também de São Paulo, e da Orquestra Sinfônica Brasileira, do Rio de Janeiro, que acaba de ser encampada pela prefeitura da cidade. Existem cerca de 175 orquestras no Brasil, e o salário inicial médio é de 2.000 reais. "Às vezes ganha-se mais numa orquestra que nas profissões tradicionais", diz Henrique Lian, gerente artístico da Sinfônica Municipal, que paga 4.000 reais aos seus calouros.

O violinista Cláudio Cruz, de 36 anos, é um exemplo de como o mercado tem dado oportunidades aos bons músicos. Cruz é spalla (líder do naipe de violinos) da Osesp. Ele também participa do grupo instrumental Quarteto Amazônia e desde o ano passado é regente da Sinfônica de Campinas. Essas atividades lhe rendem até 30.000 reais por mês e luxos como o carrão importado na garagem. Aos 24 anos, Pablo de Leon tenta seguir os passos de Cruz. Spalla da Sinfônica Municipal, ele ganha até 10.000 reais por mês entre salário, remuneração por aulas e cachê em pequenos concertos. A orquestra em que trabalha lhe serve como vitrine para uma carreira internacional. Em maio do ano passado, ele se apresentou em São Petersburgo, na Rússia, sob a regência de Valery Gergiev. "Estive sob o comando de um dos principais maestros do mundo e toquei ao lado de instrumentistas das filarmônicas de Viena e Israel", alegra-se Pablo de Leon.

Ana Lima
Cruz: carro importado na garagem


Para conseguir vaga numa orquestra que se preze é preciso ter passado por uma boa escola. O país possui 273 conservatórios, que vão do dó-ré-mi básico aos estudos mais avançados e cujos cursos duram entre seis e oito anos. Nos últimos anos, aumentou a procura por esses cursos. O Conservatório de Música de Tatuí, um dos mais tradicionais do Brasil, recebeu, no fim de 2003, 5.000 pedidos de inscrição – desses, apenas 800 serão acolhidos. Têm mais chances aqueles que não optam por instrumentos óbvios como o piano e o violino. "Um bom oboísta terá emprego em qualquer orquestra brasileira", diz Henrique Lian. Há casos de músicos que encontraram a sorte grande nos tais instrumentos "difíceis". O trompista Luiz Garcia é um deles. Ele começou seus estudos em Tatuí aos 9 anos. Hoje, está na Orquestra Sinfônica da Rádio da Baviera, da Alemanha, e no grupo instrumental German Brass.

Se existe um porém nessa história, é o fato de a melhora das orquestras brasileiras coincidir com um período difícil para a música erudita no cenário mundial. Num artigo recente, o crítico inglês Norman Lebrecht fez uma previsão sombria: "O ano de 2004 será o último para a indústria de gravações clássicas". Depois disso, só restarão poucos ecos, diz ele. Orquestras da Europa e dos Estados Unidos encontram dificuldades para sobreviver. Ano após ano, instituições como as sinfônicas de Londres e Chicago registram prejuízos. Os executivos dessas orquestras lutam para encontrar fontes de financiamento. Nos Estados Unidos a maior parte do dinheiro vem de doações privadas, enquanto na Europa os conjuntos sinfônicos são financiados pelo governo. A Osesp funciona nesse esquema. Custa anualmente 18 milhões de reais aos cofres do Estado – pode-se dizer que John Neschling é o funcionário público mais bem pago do país. Há projetos para transformá-la numa sociedade anônima, o que abriria as portas para novos provedores e lhe daria mais chances de sobreviver a longo prazo.

 
 
 
 
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