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Música
A
vida na flauta
A música erudita está se tornando
uma profissão atraente no Brasil

Sérgio
Martins
Bia Parreiras
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| Neschling,
à frente da Osesp: salário de 1,2 milhão de reais por ano |
Alguém
na sua família resolveu tocar fagote, e ainda por cima pretende
tirar o sustento dessa atividade? Calma. A possibilidade de sucesso
é menos remota do que parece. Pela primeira vez na história
recente, o mercado para os profissionais da música erudita
está aquecido no Brasil. Em boa parte isso se deve à
reestruturação pela qual passou a Orquestra Sinfônica
do Estado de São Paulo (Osesp) nos últimos anos. A
instituição se propôs objetivos ambiciosos e
vem cumprindo-os, com apresentações elogiadas no Brasil
e no exterior. Para tanto, submeteu seus músicos a testes
rigorosos e recompensou os que se saíram bem com um aumento.
O salário inicial de seus integrantes é de 6.000 reais,
e eles podem ampliá-lo formando grupos de música de
câmara, dando aulas, fazendo gravações e tocando
no exterior. Mentor da reestruturação, o maestro John
Neschling é ele mesmo o símbolo máximo dessa
fase de vacas gordas: no fim de 2003, renovou seu contrato de 1,2
milhão de reais por ano, rendimento equiparável ao
dos presidentes de grandes empresas. No rastro da Osesp, outras
orquestras se mexem é o caso da Orquestra Sinfônica
Municipal (OSM), também de São Paulo, e da Orquestra
Sinfônica Brasileira, do Rio de Janeiro, que acaba de ser
encampada pela prefeitura da cidade. Existem cerca de 175 orquestras
no Brasil, e o salário inicial médio é de 2.000
reais. "Às vezes ganha-se mais numa orquestra que nas profissões
tradicionais", diz Henrique Lian, gerente artístico da Sinfônica
Municipal, que paga 4.000 reais aos seus calouros.
O violinista Cláudio Cruz, de 36 anos, é um exemplo
de como o mercado tem dado oportunidades aos bons músicos.
Cruz é spalla (líder do naipe de violinos) da Osesp.
Ele também participa do grupo instrumental Quarteto Amazônia
e desde o ano passado é regente da Sinfônica de Campinas.
Essas atividades lhe rendem até 30.000 reais por mês
e luxos como o carrão importado na garagem. Aos 24 anos,
Pablo de Leon tenta seguir os passos de Cruz. Spalla da Sinfônica
Municipal, ele ganha até 10.000 reais por mês entre
salário, remuneração por aulas e cachê
em pequenos concertos. A orquestra em que trabalha lhe serve como
vitrine para uma carreira internacional. Em maio do ano passado,
ele se apresentou em São Petersburgo, na Rússia, sob
a regência de Valery Gergiev. "Estive sob o comando de um
dos principais maestros do mundo e toquei ao lado de instrumentistas
das filarmônicas de Viena e Israel", alegra-se Pablo de Leon.
Ana Lima
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| Cruz:
carro importado na garagem |
Para conseguir vaga numa orquestra que se preze é preciso
ter passado por uma boa escola. O país possui 273 conservatórios,
que vão do dó-ré-mi básico aos estudos
mais avançados e cujos cursos duram entre seis e oito anos.
Nos últimos anos, aumentou a procura por esses cursos. O
Conservatório de Música de Tatuí, um dos mais
tradicionais do Brasil, recebeu, no fim de 2003, 5.000 pedidos de
inscrição desses, apenas 800 serão acolhidos.
Têm mais chances aqueles que não optam por instrumentos
óbvios como o piano e o violino. "Um bom oboísta terá
emprego em qualquer orquestra brasileira", diz Henrique Lian. Há
casos de músicos que encontraram a sorte grande nos tais
instrumentos "difíceis". O trompista Luiz Garcia é
um deles. Ele começou seus estudos em Tatuí aos 9
anos. Hoje, está na Orquestra Sinfônica da Rádio
da Baviera, da Alemanha, e no grupo instrumental German Brass.
Se existe um porém nessa história, é o fato
de a melhora das orquestras brasileiras coincidir com um período
difícil para a música erudita no cenário mundial.
Num artigo recente, o crítico inglês Norman Lebrecht
fez uma previsão sombria: "O ano de 2004 será o último
para a indústria de gravações clássicas".
Depois disso, só restarão poucos ecos, diz ele. Orquestras
da Europa e dos Estados Unidos encontram dificuldades para sobreviver.
Ano após ano, instituições como as sinfônicas
de Londres e Chicago registram prejuízos. Os executivos dessas
orquestras lutam para encontrar fontes de financiamento. Nos Estados
Unidos a maior parte do dinheiro vem de doações privadas,
enquanto na Europa os conjuntos sinfônicos são financiados
pelo governo. A Osesp funciona nesse esquema. Custa anualmente 18
milhões de reais aos cofres do Estado pode-se dizer
que John Neschling é o funcionário público
mais bem pago do país. Há projetos para transformá-la
numa sociedade anônima, o que abriria as portas para novos
provedores e lhe daria mais chances de sobreviver a longo prazo.
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