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Livros
O
lado escuro da América
Livro mostra como cientistas
dos
Estados Unidos foram pioneiros
nas práticas de "limpeza racial"

Jerônimo
Teixeira
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| O
biólogo Davenport: papa da eugenia americana |
Carrie
Buck (à esq.), com sua mãe: guerra aos
"inferiores" |
Em
1934, quando Hitler completava um ano no poder, um médico
americano protestava em um jornal da Virgínia: "Os alemães
estão nos vencendo em nosso próprio jogo". O nome
do jogo era eugenia, e suas regras eram simples: "incapazes" e membros
de raças "inferiores" deveriam ser impedidos de se reproduzir,
em prol dos melhores espécimes humanos, previsivelmente de
olhos claros e cabelos louros. O placar a favor dos alemães
era mantido pelas cifras de esterilização. O obscuro
médico que elogiou os nazistas estava certo sobre a vitória
deles: o programa de esterilização na Alemanha vitimava
em média 5.000 pessoas por mês. Mas ele também
estava certo em afirmar que aquele era um jogo dos americanos. Em
A Guerra contra os Fracos (tradução
de Tuca Magalhães; A Girafa; 860 páginas; 68 reais),
o jornalista Edwin Black demonstra que os Estados Unidos foram pioneiros
no racismo científico que conduziria ao holocausto europeu.
Black é conhecido por IBM e o Holocausto, no qual
revelava que a IBM prestou serviços de processamento de dados
fundamentais para os levantamentos raciais do nazismo. A Guerra
contra os Fracos é uma empreitada histórica mais
alentada. Black coordenou uma equipe de mais de cinqüenta pesquisadores,
que devassaram arquivos e bibliotecas na Europa e nos Estados Unidos,
reunindo mais de 50.000 documentos. O resultado final é um
painel surpreendente da pseudociência racista no século
XX.
A palavra "eugenia" foi cunhada pelo cientista inglês Francis
Galton no fim do século XIX. Primo de Charles Darwin, Galton
acreditava que o talento era hereditário. Sua utopia era
a implementação de uma eugenia positiva, que encorajasse
os mais talentosos a cruzar entre si. Os americanos desenvolveriam
essas idéias em outro sentido. Investiram na eugenia negativa,
cujo objetivo era impedir a reprodução dos supostamente
inferiores. O papa da eugenia americana foi o biólogo Charles
Davenport. Fruto de uma rígida educação puritana,
ele traduziria seus preconceitos em linguagem científica,
erguendo a raça nórdica como padrão de qualidade
genética. Em 1904, Davenport montou um laboratório
experimental em Cold Spring Harbor, Long Island, no qual muita pesquisa
genética legítima seria realizada o laboratório
existe até hoje e já teve até James Watson,
um dos descobridores da hélice dupla do DNA, entre seus diretores.
Mas Cold Spring Harbor também abrigou um escritório
de registro dedicado a coletar dados sobre linhagens humanas. Seus
pesquisadores percorriam o país, visitando prisões
e hospícios, na tentativa de descobrir padrões hereditários
para o crime e até mesmo para a pobreza. Orientadas por uma
paródia de método científico, essas pesquisas
foram amparadas por algumas das maiores fortunas americanas
a Fundação Rockefeller estava entre os financiadores
de Davenport.
A eugenia conseguiu se infiltrar na sociedade americana ao longo
das primeiras décadas do século XX, exercendo influência
sobre várias políticas públicas. Nos anos 20,
por exemplo, a legislação do Estado da Virgínia
proibiu índios, negros e mestiços de contrair matrimônio
com brancos "puros". Pela mesma época, Harry Laughlin, um
dos mais raivosos colaboradores de Davenport, tornou-se consultor
científico do Congresso para assuntos relacionados à
imigração. Em 1922, ele apresentou um relatório
em que dizia: "Particularmente no campo da insanidade, as estatísticas
indicam que os Estados Unidos, nos últimos anos, têm
sido um despejadouro para os habitantes mentalmente instáveis
de outros países. Essas degenerações e incapacidades
hereditárias são inerentes ao sangue". Seu trabalho
foi fundamental para dar respaldo à lei que, em 1924, impôs
cotas raciais à imigração. A nova lei restringiu
a entrada de italianos, judeus e eslavos, privilegiando os imigrantes
de cepa nórdica.
Até Hollywood se rendeu à eugenia: o filme The
Black Stork (A Cegonha Negra), de 1917, defendia a eutanásia
de bebês com defeitos congênitos. O astro principal
era Harry Haiselden, médico de Chicago polêmico por
ter admitido publicamente que negava cuidados a recém-nascidos
deficientes. O carro-chefe da campanha eugenista era a esterilização
compulsória. Em 1927, a Suprema Corte, órgão
máximo do Judiciário americano, ratificou a determinação
de esterilizar Carrie Buck, mãe solteira de 18 anos que os
médicos tacharam de "débil mental" (a classificação
era muito elástica, incluindo qualquer um que não
tivesse educação formal). O caso fixou a jurisprudência
sobre o tema e abriu as comportas para vários programas estaduais
de esterilização, alguns dos quais seguiram em atividade
até os anos 70. Black calcula que cerca de 60.000 americanos
foram esterilizados.
Com essas realizações, não é de surpreender
que os americanos trocassem figurinhas com seus colegas alemães.
Nos anos que antecederam a II Guerra, o Eugenical News, órgão
oficial da eugenia americana, estampava artigos elogiando as políticas
raciais do nazismo alguns chegavam quase a lamentar a existência
da democracia, incômodo obstáculo para as mais saudáveis
práticas eugênicas adotadas pelo totalitarismo alemão.
No pós-guerra, os campos de concentração seriam
fonte de constrangimento para muitos cientistas, dos dois lados
do Atlântico. Hoje, a própria palavra "eugenia" tem
uma aura maldita.
| "Três
gerações de imbecis são suficientes"
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"Em
2 de maio de 1927, no julgamento da Suprema Corte, com
uma única discordância, a do juiz Pierce
Butler, o juiz Holmes escreveu a sentença.
'É melhor para todos que, em vez de esperar para
executar descendentes degenerados por crimes, ou deixar
que morram de fome por causa de sua imbecilidade, a
sociedade possa impedir os que são claramente
incapazes de continuar a espécie. O princípio
que sustenta a vacinação compulsória
é amplo o bastante para cobrir o corte das trompas
de Falópio. Três gerações
de imbecis são suficientes.'
Ponto final. Carrie Buck foi esterilizada antes do meio-dia,
em 19 de outubro de 1927. Daquele momento em diante,
a esterilização eugenista tornou-se a
lei da terra. As comportas ficaram completamente abertas."
Trecho
de A Guerra contra os Fracos
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