Edição 1837 . 21 de janeiro de 2004

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Empresas

A pioneira da foto amadora anuncia
sua grande guinada digital com o fim
da venda
de câmeras tradicionais nos
EUA, no Canadá e na Europa


Carlos Rydlewski

 
Divulgação

2004
Até o fim deste ano, equipamentos digitais serão as
únicas câmeras Kodak à venda
nos mercados de ponta

"Aperte o botão. Nós fazemos o resto." O hábito quase universal de sacar uma câmera e registrar em filme os primeiros passos do bebê, a festinha de aniversário e, principalmente, as viagens da família começou em 1888 nos Estados Unidos com esse slogan poderoso criado pela empresa Kodak, de um então desconhecido escriturário de 34 anos de idade chamado George Eastman. Pouco mais de um século depois de dar o primeiro passo na revolução que tornou a fotografia acessível a bilhões de pessoas em todo o mundo, a Kodak anunciou, na semana passada, o começo do fim do filme de celulóide, que fez dela a 144ª maior empresa americana, com faturamento anual de 12,8 bilhões de dólares. Em um comunicado seco, a empresa divulgou que vai interromper totalmente a produção e venda de câmeras analógicas nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa, seus principais mercados, para se concentrar nas câmeras digitais, que não utilizam filme e registram imagens em anteparos eletrônicos sensíveis à luz. "Embora a empresa viesse falando nisso desde setembro passado, o anúncio foi um salto dramático que marca o fim de uma era. A Kodak antecipou-se ao declínio inevitável das câmeras e filmes tradicionais", diz Shannon Cross, analista americano de Wall Street.

A Kodak vai seguir produzindo máquinas que usam filme fora dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa, mercados que serão abastecidos enquanto houver demanda. O anúncio da estratégia digital da lendária companhia lembra outras viradas épicas de empresas pioneiras que, vendo desaparecer seus mercados tradicionais, se apressaram em conquistar outros criados pelo avanço tecnológico. Na década de 50, a IBM abandonou o até então lucrativo segmento de caixas registradoras para se tornar um gigante do processamento digital. A Kodak vem se arrastando desde meados dos anos 90, quando passou por dramático corte de custos e racionalização. Mal executado, esse processo desidratou a empresa, deixou-a em profundo coma criativo e minou o valor de suas ações, o que lhe rendeu o apelido de "a bruxa de Wall Street".

Com a guinada digital, a Kodak espera voltar aos dias de glória em que ditava o ritmo das inovações. Criar produtos revolucionários sempre foi a obsessão da empresa. Trabalho duro também. O pioneiro George Eastman inventava seus modelos de câmeras na cozinha da casa onde morava com a família, trabalhando até altas horas da noite, após cumprir expediente no banco. Muitas vezes, George despencava de cansaço e dormia ao lado do fogão. Doze anos depois de lançar a primeira máquina portátil com rolo de filme, em 1888, a Kodak colocou no mercado talvez seu mais bem-sucedido produto, a Brownie, que custava apenas 1 dólar. Nos anos 60, outro sucesso estrondoso veio com o lançamento mundial da Kodak Instamatic, que dominaria a cena da fotografia doméstica por mais de trinta anos. A marca se orgulha também de ter produzido a primeira câmera digital do mundo, um protótipo feito em 1976 mas que nunca se tornou produto comercial. "Chegou o momento de nos reinventar. Nosso avanço está se dando sobre terreno seguro. Não é uma aventura", diz o brasileiro Jaime Cohen, chefe da divisão de fotografia para amadores e profissionais da Kodak nos Estados Unidos. Para os analistas, já estava passando da hora. No último Natal, de cada dez máquinas fotográficas vendidas para americanos, seis eram digitais. A venda de CDs regraváveis que permitem estocar com segurança centenas de fotos de alta qualidade quadruplicou em relação ao ano anterior.

A dramática mudança de rumo da Kodak foi recebida com ceticismo em Wall Street. A estratégia da empresa de se concentrar em câmeras digitais, embora não houvesse outra opção, não pareceu aos analistas uma medida capaz de livrar a companhia do destino de outra pioneira do ramo, a Polaroid. Há dois anos, a conhecida fabricante de câmeras de revelação instantânea pediu falência. Os analistas lembram que as margens de lucro dos produtos digitais são incomparavelmente menores que as dos convencionais. A Kodak rebate dizendo que em mais de 100 anos no mercado jamais teve lucro vendendo câmeras analógicas. Tirava a maior parte de seu lucro da comercialização de filmes para amadores, profissionais e o cinema e de sua divisão de produtos científicos e hospitalares. A companhia lembrou que no último trimestre de 2003 o setor de produtos digitais registrou seu primeiro lucro na história. A Kodak tentou acalmar os ânimos dos que prevêem dificuldades para a empresa com a informação de que continuará agressiva na venda de seus filmes e câmeras tradicionais nos mercados da América Latina e Ásia. A companhia calcula que na China apenas três de cada dez pessoas com renda que permita tornar-se fotógrafo amador comprem câmeras e filmes. O potencial do mercado chinês, portanto, seria suficiente para cobrir os altos custos da guinada digital.

Divulgação
O Prius, da Toyota: um híbrido à espera da solução definitiva


Para a Kodak, a alternativa híbrida de manter para sempre um pé no mundo analógico e outro no digital foi considerada mortal. Exemplo de tecnologia híbrida, as máquinas e filmes no formato APS foram o mais recente fracasso da companhia. Os filmes APS são embalados em cartuchos lacrados que trazem no exterior uma pequena trilha magnética cuja leitura por meio de um dispositivo na câmera informa dados como o tipo de filme e seu grau de sensibilidade. Nos últimos anos, a venda de filmes APS caiu assustadores 30% ao ano. "Os clientes se mantiveram fiéis aos filmes tradicionais de 35 milímetros ou pularam direto para a fotografia digital", disse na semana passada Charles Smith, porta-voz da companhia.

O hibridismo é sempre uma saída provisória. As grandes montadoras de automóveis estão enfrentando o mesmo dilema. Elas se preparam para o ocaso da era do petróleo, com data impossível de ser prevista, mas cujo desfecho é óbvio: um dia acaba. A melhor tentativa até agora é o Prius, da Toyota, que funciona alternadamente movido a gasolina e a eletricidade. Vendido a 20.000 dólares nos Estados Unidos, o veículo foi um sucesso de mercado no ano passado. Os analistas acreditam, porém, que, a exemplo do que ocorreu com os filmes APS, a grande massa de consumidores vai se manter fiel aos carros a gasolina até que se firme a tecnologia das células de hidrogênio ou outra qualquer que vá dominar o futuro da indústria automobilística.

 
As digitais mais populares

Nos Estados Unidos, seis de cada dez câmeras vendidas são digitais. No Brasil, elas já fazem sucesso

Fotos divulgação
OLYMPUS D-390

Modelo com resolução razoável, tem o preço de 999 reais como aliado


SONY CYBER-SHOT P32

Está em todas as listas das campeãs do Natal e custa 1 399 reais


CANON A300

Da linha PowerShot, boa de vendas, por 1 398 reais

 
 
 
 
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