Edição 1837 . 21 de janeiro de 2004

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Diogo Mainardi
Para evitar o
2020 da CIA

"Da mesma forma que os restaurantes
entregam a terceiros o serviço de manobristas,
o governo deveria terceirizar a assistência aos
miseráveis.
O 'valet parking' da fome"

Futuro? Que futuro? O Brasil não tem futuro. Daqui a quinze anos, estaremos no mesmo buraco de agora. O Bananão continuará sendo um Bananão: corrupto, dominado pelo narcotráfico, tecnologicamente atrasado e com o meio ambiente devastado. O resto do mundo irá adiante, o Brasil ficará para trás. Pior do que nós, na América Latina, só o Haiti.

Foi o que previu a CIA, o serviço secreto americano, num relatório sobre as perspectivas globais para 2020. A CIA acha que as mudanças no Brasil serão menores e mais lentas do que deveriam. Não conseguiremos diminuir as injustiças sociais e a distância entre ricos e pobres. Por causa de uma dívida pública impagável e de uma mão-de-obra desqualificada, cresceremos menos que os outros países. Em compensação, a agricultura será beneficiada pelo fim das barreiras comerciais. Pelo relatório da CIA, o Brasil deve apostar tudo no campo. Já tivemos o ciclo do pau-brasil, o ciclo da cana, o ciclo da borracha, o ciclo do café. Chegou a hora do ciclo do farelo de soja. Nosso destino é a monocultura. O único modelo que vingou por aqui foi o da economia colonial. Temos de olhar para o passado, não para o futuro.

A CIA atribui o subdesenvolvimento brasileiro aos políticos. Claro que os políticos não concordam. Eles sempre lançam projeções otimistas para 2020. No primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, o ministro João Paulo dos Reis Velloso publicou o documento "Brasil 2020", estabelecendo metas ambiciosas para o país. Depois veio o ministro Ronaldo Sardemberg, que apresentou o "Projeto Brasil 2020". No governo Lula, o pensamento estratégico ficou a cargo do ministro Tarso Genro, no seminário "Visão Brasil 2020". Nos três casos, os políticos argumentaram que o Brasil está no caminho certo e que iremos crescer de maneira sustentada e com justiça social. Eles continuam a vender a ilusão de que o desenvolvimento nacional é uma inevitabilidade histórica. E nós, estupidamente, continuamos a acreditar.

Não há por que confiar na CIA. Como lembrou o senador Aloizio Mercadante, se a CIA soubesse prever o futuro, teria evitado os atentados de 11 de setembro. Ao contrário dos terroristas islâmicos, porém, o Brasil é tristemente previsível. Qualquer funcionário de segundo escalão do governo americano pode adivinhar que nosso país não tem a menor chance do jeito que está. O Estado custa caro demais e é ineficiente demais. Sem diminuir o Estado, nunca iremos crescer. Não foi apenas o comunismo que morreu na queda do Muro de Berlim: a social-democracia também morreu. Nenhum país subdesenvolvido tem dinheiro suficiente para montar e sustentar um aparato de proteção social. O poder público brasileiro oferece educação e saúde de má qualidade. Então é melhor não oferecer nada, delegando essas funções à sociedade. O poder público também não sabe cuidar dos miseráveis. Da mesma forma que os restaurantes entregam a terceiros o serviço de manobristas, o governo deveria entregar a terceiros a assistência aos miseráveis. O "valet parking" da fome.

O ano de 2020 fica longe demais. O pensamento estratégico do governo brasileiro chega apenas até as eleições municipais, com Maluf e Quércia no palanque de Marta Suplicy.

 
 
 
 
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