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Diogo
Mainardi
Para
evitar o
2020 da CIA
"Da
mesma forma que os restaurantes
entregam a terceiros o serviço de manobristas,
o
governo deveria terceirizar a
assistência aos
miseráveis. O
'valet parking' da fome"
Futuro?
Que futuro? O Brasil não tem futuro. Daqui a quinze anos,
estaremos no mesmo buraco de agora. O Bananão continuará
sendo um Bananão: corrupto, dominado pelo narcotráfico,
tecnologicamente atrasado e com o meio ambiente devastado. O resto
do mundo irá adiante, o Brasil ficará para trás.
Pior do que nós, na América Latina, só o Haiti.
Foi o que previu a CIA, o serviço secreto americano, num
relatório sobre as perspectivas globais para 2020. A CIA
acha que as mudanças no Brasil serão menores e mais
lentas do que deveriam. Não conseguiremos diminuir as injustiças
sociais e a distância entre ricos e pobres. Por causa de uma
dívida pública impagável e de uma mão-de-obra
desqualificada, cresceremos menos que os outros países. Em
compensação, a agricultura será beneficiada
pelo fim das barreiras comerciais. Pelo relatório da CIA,
o Brasil deve apostar tudo no campo. Já tivemos o ciclo do
pau-brasil, o ciclo da cana, o ciclo da borracha, o ciclo do café.
Chegou a hora do ciclo do farelo de soja. Nosso destino é
a monocultura. O único modelo que vingou por aqui foi o da
economia colonial. Temos de olhar para o passado, não para
o futuro.
A CIA atribui o subdesenvolvimento brasileiro aos políticos.
Claro que os políticos não concordam. Eles sempre
lançam projeções otimistas para 2020. No primeiro
mandato de Fernando Henrique Cardoso, o ministro João Paulo
dos Reis Velloso publicou o documento "Brasil 2020", estabelecendo
metas ambiciosas para o país. Depois veio o ministro Ronaldo
Sardemberg, que apresentou o "Projeto Brasil 2020". No governo Lula,
o pensamento estratégico ficou a cargo do ministro Tarso
Genro, no seminário "Visão Brasil 2020". Nos três
casos, os políticos argumentaram que o Brasil está
no caminho certo e que iremos crescer de maneira sustentada e com
justiça social. Eles continuam a vender a ilusão de
que o desenvolvimento nacional é uma inevitabilidade histórica.
E nós, estupidamente, continuamos a acreditar.
Não há por que confiar na CIA. Como lembrou o senador
Aloizio Mercadante, se a CIA soubesse prever o futuro, teria evitado
os atentados de 11 de setembro. Ao contrário dos terroristas
islâmicos, porém, o Brasil é tristemente previsível.
Qualquer funcionário de segundo escalão do governo
americano pode adivinhar que nosso país não tem a
menor chance do jeito que está. O Estado custa caro demais
e é ineficiente demais. Sem diminuir o Estado, nunca iremos
crescer. Não foi apenas o comunismo que morreu na queda do
Muro de Berlim: a social-democracia também morreu. Nenhum
país subdesenvolvido tem dinheiro suficiente para montar
e sustentar um aparato de proteção social. O poder
público brasileiro oferece educação e saúde
de má qualidade. Então é melhor não
oferecer nada, delegando essas funções à sociedade.
O poder público também não sabe cuidar dos
miseráveis. Da mesma forma que os restaurantes entregam a
terceiros o serviço de manobristas, o governo deveria entregar
a terceiros a assistência aos miseráveis. O "valet
parking" da fome.
O ano de 2020 fica longe demais. O pensamento estratégico
do governo brasileiro chega apenas até as eleições
municipais, com Maluf e Quércia no palanque de Marta Suplicy.
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