|
|
Entrevista:
Romário de Souza Faria
"Vou
fazer mil gols"
O jogador diz que joga por prazer, recusa-se
a indicar Ronaldo como seu sucessor e admite
entrar para a política no futuro

José Eduardo Barella
|
Fabio Motta/AE

|
"Nunca
fui atleta. Se eu tivesse levado uma vida regrada, teria
feito mais gols. Mas não sei se
seria feliz como sou hoje" |
|
Entre os jogadores de futebol em atividade, ninguém fez mais
gols que Romário. Segundo a Fifa, são 458 anotados
em campeonatos da primeira divisão. Ou cerca de 900 pela
contagem do jogador, que inclui amistosos, jogos pela seleção
brasileira e nas categorias de base, numa carreira pelo Vasco, PSV
(Holanda), Barcelona e Valencia (Espanha), Flamengo e seu atual
clube, o Fluminense ele despreza a passagem no ano passado
pelo Catar, onde ficou três meses, faturou 1,5 milhão
de dólares e não marcou uma vez sequer. Romário
foi campeão e estrela da seleção brasileira
na Copa de 1994, ano em que foi escolhido o melhor jogador do mundo.
Aos 38 anos, polêmico e irreverente, o atacante desafia a
decadência física em busca de seu último objetivo
no futebol: chegar aos 1.000 gols. Em entrevista a VEJA, diz que
tem vários planos para quando pendurar as chuteiras. Um deles
é ficar mais perto dos quatro filhos, Mônica (13 anos),
Romarinho (10), Danielle (6) e Isabella (7 meses), de três
casamentos. Outro é se dedicar à fundação
que leva seu nome. Ele garante que não sai mais do Rio, onde
está tudo de que gosta as mulheres, a praia, os amigos
e a vida noturna.
Veja
Você completa 38 anos neste mês, nunca gostou
de treinar e vive o espectro da decadência. Não é
hora de pendurar as chuteiras?
Romário
Há dez anos que venho anunciando que vou me aposentar, mas
sempre acabo desistindo. O ano passado foi muito ruim, um dos piores
da minha carreira. Tive problemas dentro e fora de campo, dei uma
relaxada, me contundi várias vezes e cheguei a pensar: vou
parar. Mas agora estou novamente me sentindo bem. Estou com 890
gols e meu objetivo é chegar aos 1.000. É para isso
que continuo jogando. Não tenho mais ambição
de ser o melhor em campo ou de dar espetáculo. Também
não sonho mais com seleção brasileira. Quero
apenas continuar colocando a bola na rede. Gol é uma coisa
pessoal. É o momento mais interessante de todos os esportes.
Há a cesta do basquete, o recorde do atletismo, mas nada
se compara à emoção que o gol proporciona.
Sinceramente, posso até dizer hoje que vou parar neste ano.
Mas daqui a um mês posso mudar de idéia.
Veja
A rotina de treino, viagens e concentração
cansa?
Romário
Nunca fui atleta. Não gosto de treinar, mas posso garantir
que hoje treino mais que antes. Se eu tivesse levado uma vida regrada,
certamente teria feito mais gols. Mas não sei se ainda estaria
jogando ou se seria feliz como sou hoje. Jogar futebol é
simples e me dá prazer. No ano passado, o campeonato brasileiro
teve uma pausa de dez dias e tive de jogar umas peladas por aí
para matar a saudade da bola. O duro, mesmo, é a rotina fora
de campo. A concentração, por exemplo, é inútil.
O objetivo alegado é unir o grupo, mas na prática
não funciona. Você encontra os outros jogadores durante
as refeições e na hora da preleção do
técnico. E só. O resto do tempo, cada um fica no seu
quarto vendo TV. A concentração só serve para
impedir que o atleta caia na farra. Mas, felizmente, a mentalidade
do jogador está mudando por causa de um fato novo: a maioria,
hoje, tem empresário. Eles atrapalham muito, mas também
orientam o jogador a se cuidar. Caso contrário, os dois perdem
dinheiro.
Veja
Como conciliar a vida de atleta com a de dono de casa
noturna?
Romário
É
fácil. Como nunca fui atleta, no sentido de me empenhar a
fundo nos treinos, a vida noturna não me causa problemas.
Quando se fala em boemia, porém, as pessoas logo ligam a
cigarro, bebidas e drogas. Disso tudo estou fora. O que eu curto
na noite é dançar, olhar para a mulherada, encontrar
os amigos.
Veja
Fazer sexo na véspera do jogo é benéfico?
Romário
Não só na véspera como no dia do jogo. Não
há nada melhor que fazer sexo com uma mulher. Se pudesse,
sairia da cama direto para o campo. Para mim, não atrapalha
em nada. Ao contrário, fico leve. Mas muita coisa que falam
a meu respeito é lenda. A facilidade que eu tenho de atrair
mulheres é a mesma que qualquer homem público teria.
E, hoje em dia, as coisas fáceis não são as
mais interessantes para mim. Essa sede passou. É claro que
eu pensava diferente entre os 17 e 28 anos de idade. Nunca fui fiel,
mas estou melhorando.
Veja
Você usa camisinha?
Romário
Todos
temos de usar...
Veja
Seu pai teve problemas com alcoolismo e você nunca
bebeu. É trauma?
Romário
Meu
pai está passando por um momento difícil, mas, se
Deus quiser, vai se levantar. Ele teve problemas com bebida, sempre
fumou muito e chega uma hora em que o organismo não agüenta.
Mas ele sempre deu bons conselhos a mim e ao meu irmão, e
não me arrependo de tê-los seguido: não soltar
pipa, não roubar, não usar drogas, não beber,
não fumar e não virar gay.
Veja
Qual foi a maior loucura romântica que você
já fez?
Romário
Recentemente, peguei um helicóptero e fui até a cidade
da Isabella, mãe de minha última filha, no interior
do Rio, para convencer o sogro que eu queria mesmo ficar com ela.
É claro que a Isabella adorou, mas a estratégia não
deu certo: até hoje o pai não fala com a filha. Ela
é uma mulher diferente de todas com quem eu convivi. Isabella
morou muitos anos na Suíça e a conheci logo que ela
se mudou para o Rio. Estamos separados, pois ela voltou para a Suíça
com nossa filha. Mas não desisti. Isso está mal resolvido
para mim.
Veja Você se dá bem com suas ex-mulheres?
Romário
Não
tenho problemas com minhas ex-mulheres, elas é que têm
comigo. Eu nunca ligo para elas, mas basta atrasar a pensão
para que elas me procurem. Como vou pagá-las se eu não
recebo em dia?
Veja
Você se considera uma pessoa sofisticada?
Romário
Não sei o que isso significa. Nasci na favela do Jacarezinho
e fui criado na Vila da Penha. Talvez por causa disso muita gente
me ache brega ou cafona. Sempre tive hábitos simples, mas
fui conhecendo coisas novas ao longo da vivência que tive
no exterior. Morei seis anos na Holanda e dois na Espanha. Descobri
que comer bem é uma arte, coleciono relógios e passei
a apreciar um bom charuto. Além disso, tenho paixão
por carros esportivos. Cheguei a ter doze. Hoje tenho uma Ferrari
360 Modena, um Hummer, aquele jipe que parece um tanque, uma perua
Volvo e um Porsche 90, meu xodó. Sempre gostei de correr,
mas tirei o pé do acelerador depois que meus filhos nasceram.
Tenho ainda duas motos: uma BMW e uma Kawasaki Ninja, que uso para
passear perto de casa.
Veja
Você não teme ser seqüestrado?
Romário
Tenho medo de apenas três coisas: avião, cachorro e
espinha de peixe. Quem tem medo de ir aos lugares não vive.
Já fui assaltado duas vezes, pelo mesmo grupo. Na primeira,
levaram meu carro. Na segunda, os caras falaram: "Pô, você
de novo!", e me liberaram. Nunca tive esquema de segurança
grandioso. Meus carros não são blindados. Mas sempre
ando acompanhado.
Veja
Qual a sua fortuna?
Romário
Juntei
um patrimônio que é suficiente para meus pais, meus
filhos, para mim e, talvez, para meus netos viverem confortavelmente.
Tenho uma empresa que cuida de meus negócios, vários
imóveis e no ano passado abri uma casa noturna, Move, no
mesmo lugar onde antes funcionava o Café do Gol. Sempre administrei
pessoalmente meu dinheiro, com a ajuda de poucos amigos de confiança.
O Café do Gol foi minha primeira experiência como empresário.
Não deu certo, tive prejuízo, mas aprendi a lição.
Também fui sócio num bingo que já fechou. Há
três anos, cheguei a pensar em investir no futebol, mas desisti.
Sempre ganhei meu dinheiro de forma honesta e não vou botar
tudo a perder só para ficar no meio. Aliás, meus maiores
amigos são de fora do futebol. Não costumo nem ver
jogos na TV.
Veja
Os clubes brasileiros estão falidos. Você
não está cansado de tantos erros dentro do futebol?
Romário
O grande charme do futebol brasileiro é ser errado dessa
forma. Se fosse organizado como o europeu, o Brasil não teria
vencido cinco Copas. É uma bagunça, faltam estrutura
e planejamento. Como os dirigentes querem cobrar profissionalismo
dos atletas se atrasam salários? Desde que voltei do Catar,
há sete meses, não recebi um tostão do Fluminense.
O Vasco e o Flamengo também me devem dinheiro de contratos
anteriores. Não são apenas os cartolas que desorganizam
o futebol. A maioria dos cronistas esportivos não entende
de futebol e só se preocupa em falar da vida pessoal dos
jogadores. Nós, jogadores, também temos culpa pela
atual situação do futebol brasileiro. É preciso
mudar a atitude. Se a categoria fosse unida, não estaríamos
nessa situação. Não pagou, não joga.
É lei, ninguém é obrigado a trabalhar de graça.
Veja
Você não teme ser esquecido depois que pendurar
as chuteiras?
Romário
Nunca pensei muito a respeito, mas sei que vai ser difícil.
Imagino que depois de vinte anos vivendo esse ambiente sentirei
falta. Sei apenas que nunca serei técnico, não teria
paciência de lidar com um jogador como o Romário. No
futuro, pretendo me dedicar ao Instituto Romário de Souza
Faria, que eu criei há alguns anos para desenvolver projetos
com crianças carentes. O governo Lula, com o Programa Fome
Zero, está me inspirando a mergulhar nessa área. Não
votei no Lula, mas acho que ele está no caminho certo ao
atacar o maior problema do país, que é a miséria.
Se for necessário entrar para a política para tocar
esse meu projeto social, posso até me candidatar a vereador
ou deputado estadual. Nada que me tire do Rio, pois me identifico
demais com essa cidade. Toda vez que morei fora fiquei menos feliz
e um pouco mais rico. O Rio tem muitos problemas. Falta segurança,
há muita pobreza, mas o carioca é um povo feliz.
Veja
Os outros jogadores não se sentem incomodados com
seus privilégios? Você treina em separado, não
viaja junto com o time e tem várias regalias.
Romário
É
claro que muitos jogadores não gostam, principalmente os
mais novos. Só que sempre especifiquei minhas exigências
em todos os contratos que assinei. E o acordado não sai caro.
Não vejo isso como privilégio, e sim como direito
adquirido. Como exemplo posso citar um caso envolvendo o holandês
Johan Cruyff, que era meu técnico no Barcelona. Tínhamos
um jogo fora de casa e, depois, o campeonato seria paralisado. Pedi
a ele quatro dias de folga após aquela partida. Ele disse
que topava se eu fizesse três gols. Fiz quatro e, no vestiário,
ele anunciou folga para o time de quatro dias. "Mas para o Romário
será de uma semana: ele mora mais longe e, além disso,
perdi uma aposta. Alguém tem algo a dizer?" Ninguém
contestou.
Veja
Você gosta de apostar valendo dinheiro?
Romário
Sim,
mas nada que tenha de matar para ganhar. Na Copa de 1994, apostei
30 000 dólares com três amigos que jogavam em outras
seleções: Koeman (Holanda), Stoitchkov (Bulgária)
e Salinas (Espanha). Quem fosse campeão do mundo levava 10.000
dólares de cada um. Ganhei a aposta, mas eles nunca me pagaram.
Veja
Qual foi o melhor jogador que você viu jogar?
Romário
Não cheguei a ver o Pelé, mas ele é mesmo um
caso à parte. Depois, para mim, vem o Maradona. Era um jogador
fantástico e não merecia ter o fim que teve. Cheguei
a conhecê-lo, é uma ótima pessoa. Em seguida,
entre os que vi jogar, fico com o Laudrup, atacante dinamarquês
que jogou comigo no Barcelona.
Veja
Sua lista não inclui nenhum craque brasileiro...
Romário
Sempre gostei do Reinaldo, atacante do Atlético Mineiro nos
anos 70 e 80, e adoraria ter jogado com ele. O Zico também
foi um excelente jogador, talvez o melhor que eu tenha visto jogar
com a camisa de um clube. Considero o Ronaldinho Gaúcho o
melhor jogador brasileiro que surgiu nos últimos dez anos:
é rápido, inteligente, passa bem e não corre
do pau.
Veja
E o Ronaldo Fenômeno?
Romário
Ronaldo surgiu depois da Copa de 94 como um dos grandes nomes do
futebol mundial. Não sei por que seria considerado um fenômeno.
Talvez pelo fato de fazer muitos gols. Respeito o Ronaldo e nada
tenho contra ele. Mas acho errado fazer comparações
entre mim e ele. A única coisa em comum é que já
jogamos nos mesmos clubes no exterior, o PSV e o Barcelona.
Veja
Atribui-se a raros jogadores a façanha de ter decidido
uma Copa do Mundo. Um deles é Pelé, em 1958, Maradona
em 1986 e você em 1994. Você concorda?
Romário
O grupo de 94 era tecnicamente inferior ao que foi campeão
em 2002. Mas não ganhei sozinho. Todos estavam mentalizados
para ganhar, do roupeiro ao técnico. Minha carreira decolou
de vez depois do jogo contra o Uruguai, em 1993, no Maracanã,
pelas eliminatórias. Até aquele jogo, eu era considerado
um bom jogador, mas problemático. Após a partida,
o conceito mudou: o cara realmente é problemático,
mas joga demais e faz muitos gols. Na Copa, arrebentei.
Veja
Você tem vários desafetos no futebol, entre
eles alguns técnicos, como Wanderley Luxemburgo, Zagallo
e Felipão. Você guarda mágoas?
Romário
Tive atrito com todos eles, mas já resolvi as diferenças.
Meu problema com o Zagallo é na Justiça. Ele me processou
porque não gostou de ver uma charge na porta do banheiro
da minha casa noturna na qual ele aparecia sentado numa privada.
Chegamos a conversar, mas o Zagallo preferiu manter a ação.
Também nada tenho contra o Wanderley. Ele não me convocou
para as Olimpíadas de Sydney, em 2000, apesar da minha ótima
forma na época. Não sei se eu evitaria o fiasco. Quanto
ao Felipão, que não quis me levar para a Copa de 2002,
considero gente boa. Ele achou que eu não seria importante,
como não fui, e que ele iria ganhar a Copa do mesmo jeito
como de fato ganhou. Parabéns para ele.
|