Edição 1837 . 21 de janeiro de 2004

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Entrevista: Romário de Souza Faria
"Vou fazer mil gols"

O jogador diz que joga por prazer, recusa-se
a indicar Ronaldo como seu sucessor e admite
entrar para a política no futuro


José Eduardo Barella

 

Fabio Motta/AE

"Nunca fui atleta. Se eu tivesse levado uma vida regrada, teria feito mais gols. Mas não sei se seria feliz como sou hoje"

Entre os jogadores de futebol em atividade, ninguém fez mais gols que Romário. Segundo a Fifa, são 458 anotados em campeonatos da primeira divisão. Ou cerca de 900 pela contagem do jogador, que inclui amistosos, jogos pela seleção brasileira e nas categorias de base, numa carreira pelo Vasco, PSV (Holanda), Barcelona e Valencia (Espanha), Flamengo e seu atual clube, o Fluminense – ele despreza a passagem no ano passado pelo Catar, onde ficou três meses, faturou 1,5 milhão de dólares e não marcou uma vez sequer. Romário foi campeão e estrela da seleção brasileira na Copa de 1994, ano em que foi escolhido o melhor jogador do mundo. Aos 38 anos, polêmico e irreverente, o atacante desafia a decadência física em busca de seu último objetivo no futebol: chegar aos 1.000 gols. Em entrevista a VEJA, diz que tem vários planos para quando pendurar as chuteiras. Um deles é ficar mais perto dos quatro filhos, Mônica (13 anos), Romarinho (10), Danielle (6) e Isabella (7 meses), de três casamentos. Outro é se dedicar à fundação que leva seu nome. Ele garante que não sai mais do Rio, onde está tudo de que gosta – as mulheres, a praia, os amigos e a vida noturna.

Veja – Você completa 38 anos neste mês, nunca gostou de treinar e vive o espectro da decadência. Não é hora de pendurar as chuteiras?
Romário – Há dez anos que venho anunciando que vou me aposentar, mas sempre acabo desistindo. O ano passado foi muito ruim, um dos piores da minha carreira. Tive problemas dentro e fora de campo, dei uma relaxada, me contundi várias vezes e cheguei a pensar: vou parar. Mas agora estou novamente me sentindo bem. Estou com 890 gols e meu objetivo é chegar aos 1.000. É para isso que continuo jogando. Não tenho mais ambição de ser o melhor em campo ou de dar espetáculo. Também não sonho mais com seleção brasileira. Quero apenas continuar colocando a bola na rede. Gol é uma coisa pessoal. É o momento mais interessante de todos os esportes. Há a cesta do basquete, o recorde do atletismo, mas nada se compara à emoção que o gol proporciona. Sinceramente, posso até dizer hoje que vou parar neste ano. Mas daqui a um mês posso mudar de idéia.

Veja – A rotina de treino, viagens e concentração cansa?
Romário – Nunca fui atleta. Não gosto de treinar, mas posso garantir que hoje treino mais que antes. Se eu tivesse levado uma vida regrada, certamente teria feito mais gols. Mas não sei se ainda estaria jogando ou se seria feliz como sou hoje. Jogar futebol é simples e me dá prazer. No ano passado, o campeonato brasileiro teve uma pausa de dez dias e tive de jogar umas peladas por aí para matar a saudade da bola. O duro, mesmo, é a rotina fora de campo. A concentração, por exemplo, é inútil. O objetivo alegado é unir o grupo, mas na prática não funciona. Você encontra os outros jogadores durante as refeições e na hora da preleção do técnico. E só. O resto do tempo, cada um fica no seu quarto vendo TV. A concentração só serve para impedir que o atleta caia na farra. Mas, felizmente, a mentalidade do jogador está mudando por causa de um fato novo: a maioria, hoje, tem empresário. Eles atrapalham muito, mas também orientam o jogador a se cuidar. Caso contrário, os dois perdem dinheiro.

Veja – Como conciliar a vida de atleta com a de dono de casa noturna?
Romário – É fácil. Como nunca fui atleta, no sentido de me empenhar a fundo nos treinos, a vida noturna não me causa problemas. Quando se fala em boemia, porém, as pessoas logo ligam a cigarro, bebidas e drogas. Disso tudo estou fora. O que eu curto na noite é dançar, olhar para a mulherada, encontrar os amigos.

Veja – Fazer sexo na véspera do jogo é benéfico?
Romário – Não só na véspera como no dia do jogo. Não há nada melhor que fazer sexo com uma mulher. Se pudesse, sairia da cama direto para o campo. Para mim, não atrapalha em nada. Ao contrário, fico leve. Mas muita coisa que falam a meu respeito é lenda. A facilidade que eu tenho de atrair mulheres é a mesma que qualquer homem público teria. E, hoje em dia, as coisas fáceis não são as mais interessantes para mim. Essa sede passou. É claro que eu pensava diferente entre os 17 e 28 anos de idade. Nunca fui fiel, mas estou melhorando.

Veja – Você usa camisinha?
Romário – Todos temos de usar...

Veja – Seu pai teve problemas com alcoolismo e você nunca bebeu. É trauma?
Romário – Meu pai está passando por um momento difícil, mas, se Deus quiser, vai se levantar. Ele teve problemas com bebida, sempre fumou muito e chega uma hora em que o organismo não agüenta. Mas ele sempre deu bons conselhos a mim e ao meu irmão, e não me arrependo de tê-los seguido: não soltar pipa, não roubar, não usar drogas, não beber, não fumar e não virar gay.

Veja – Qual foi a maior loucura romântica que você já fez?
Romário – Recentemente, peguei um helicóptero e fui até a cidade da Isabella, mãe de minha última filha, no interior do Rio, para convencer o sogro que eu queria mesmo ficar com ela. É claro que a Isabella adorou, mas a estratégia não deu certo: até hoje o pai não fala com a filha. Ela é uma mulher diferente de todas com quem eu convivi. Isabella morou muitos anos na Suíça e a conheci logo que ela se mudou para o Rio. Estamos separados, pois ela voltou para a Suíça com nossa filha. Mas não desisti. Isso está mal resolvido para mim.

Veja – Você se dá bem com suas ex-mulheres?
Romário – Não tenho problemas com minhas ex-mulheres, elas é que têm comigo. Eu nunca ligo para elas, mas basta atrasar a pensão para que elas me procurem. Como vou pagá-las se eu não recebo em dia?

Veja – Você se considera uma pessoa sofisticada?
Romário – Não sei o que isso significa. Nasci na favela do Jacarezinho e fui criado na Vila da Penha. Talvez por causa disso muita gente me ache brega ou cafona. Sempre tive hábitos simples, mas fui conhecendo coisas novas ao longo da vivência que tive no exterior. Morei seis anos na Holanda e dois na Espanha. Descobri que comer bem é uma arte, coleciono relógios e passei a apreciar um bom charuto. Além disso, tenho paixão por carros esportivos. Cheguei a ter doze. Hoje tenho uma Ferrari 360 Modena, um Hummer, aquele jipe que parece um tanque, uma perua Volvo e um Porsche 90, meu xodó. Sempre gostei de correr, mas tirei o pé do acelerador depois que meus filhos nasceram. Tenho ainda duas motos: uma BMW e uma Kawasaki Ninja, que uso para passear perto de casa.

Veja – Você não teme ser seqüestrado?
Romário – Tenho medo de apenas três coisas: avião, cachorro e espinha de peixe. Quem tem medo de ir aos lugares não vive. Já fui assaltado duas vezes, pelo mesmo grupo. Na primeira, levaram meu carro. Na segunda, os caras falaram: "Pô, você de novo!", e me liberaram. Nunca tive esquema de segurança grandioso. Meus carros não são blindados. Mas sempre ando acompanhado.

Veja – Qual a sua fortuna?
Romário – Juntei um patrimônio que é suficiente para meus pais, meus filhos, para mim e, talvez, para meus netos viverem confortavelmente. Tenho uma empresa que cuida de meus negócios, vários imóveis e no ano passado abri uma casa noturna, Move, no mesmo lugar onde antes funcionava o Café do Gol. Sempre administrei pessoalmente meu dinheiro, com a ajuda de poucos amigos de confiança. O Café do Gol foi minha primeira experiência como empresário. Não deu certo, tive prejuízo, mas aprendi a lição. Também fui sócio num bingo que já fechou. Há três anos, cheguei a pensar em investir no futebol, mas desisti. Sempre ganhei meu dinheiro de forma honesta e não vou botar tudo a perder só para ficar no meio. Aliás, meus maiores amigos são de fora do futebol. Não costumo nem ver jogos na TV.

Veja – Os clubes brasileiros estão falidos. Você não está cansado de tantos erros dentro do futebol?
Romário – O grande charme do futebol brasileiro é ser errado dessa forma. Se fosse organizado como o europeu, o Brasil não teria vencido cinco Copas. É uma bagunça, faltam estrutura e planejamento. Como os dirigentes querem cobrar profissionalismo dos atletas se atrasam salários? Desde que voltei do Catar, há sete meses, não recebi um tostão do Fluminense. O Vasco e o Flamengo também me devem dinheiro de contratos anteriores. Não são apenas os cartolas que desorganizam o futebol. A maioria dos cronistas esportivos não entende de futebol e só se preocupa em falar da vida pessoal dos jogadores. Nós, jogadores, também temos culpa pela atual situação do futebol brasileiro. É preciso mudar a atitude. Se a categoria fosse unida, não estaríamos nessa situação. Não pagou, não joga. É lei, ninguém é obrigado a trabalhar de graça.

Veja – Você não teme ser esquecido depois que pendurar as chuteiras?
Romário – Nunca pensei muito a respeito, mas sei que vai ser difícil. Imagino que depois de vinte anos vivendo esse ambiente sentirei falta. Sei apenas que nunca serei técnico, não teria paciência de lidar com um jogador como o Romário. No futuro, pretendo me dedicar ao Instituto Romário de Souza Faria, que eu criei há alguns anos para desenvolver projetos com crianças carentes. O governo Lula, com o Programa Fome Zero, está me inspirando a mergulhar nessa área. Não votei no Lula, mas acho que ele está no caminho certo ao atacar o maior problema do país, que é a miséria. Se for necessário entrar para a política para tocar esse meu projeto social, posso até me candidatar a vereador ou deputado estadual. Nada que me tire do Rio, pois me identifico demais com essa cidade. Toda vez que morei fora fiquei menos feliz e um pouco mais rico. O Rio tem muitos problemas. Falta segurança, há muita pobreza, mas o carioca é um povo feliz.

Veja – Os outros jogadores não se sentem incomodados com seus privilégios? Você treina em separado, não viaja junto com o time e tem várias regalias.
Romário – É claro que muitos jogadores não gostam, principalmente os mais novos. Só que sempre especifiquei minhas exigências em todos os contratos que assinei. E o acordado não sai caro. Não vejo isso como privilégio, e sim como direito adquirido. Como exemplo posso citar um caso envolvendo o holandês Johan Cruyff, que era meu técnico no Barcelona. Tínhamos um jogo fora de casa e, depois, o campeonato seria paralisado. Pedi a ele quatro dias de folga após aquela partida. Ele disse que topava se eu fizesse três gols. Fiz quatro e, no vestiário, ele anunciou folga para o time de quatro dias. "Mas para o Romário será de uma semana: ele mora mais longe e, além disso, perdi uma aposta. Alguém tem algo a dizer?" Ninguém contestou.

Veja – Você gosta de apostar valendo dinheiro?
Romário – Sim, mas nada que tenha de matar para ganhar. Na Copa de 1994, apostei 30 000 dólares com três amigos que jogavam em outras seleções: Koeman (Holanda), Stoitchkov (Bulgária) e Salinas (Espanha). Quem fosse campeão do mundo levava 10.000 dólares de cada um. Ganhei a aposta, mas eles nunca me pagaram.

Veja – Qual foi o melhor jogador que você viu jogar?
Romário – Não cheguei a ver o Pelé, mas ele é mesmo um caso à parte. Depois, para mim, vem o Maradona. Era um jogador fantástico e não merecia ter o fim que teve. Cheguei a conhecê-lo, é uma ótima pessoa. Em seguida, entre os que vi jogar, fico com o Laudrup, atacante dinamarquês que jogou comigo no Barcelona.

Veja – Sua lista não inclui nenhum craque brasileiro...
Romário – Sempre gostei do Reinaldo, atacante do Atlético Mineiro nos anos 70 e 80, e adoraria ter jogado com ele. O Zico também foi um excelente jogador, talvez o melhor que eu tenha visto jogar com a camisa de um clube. Considero o Ronaldinho Gaúcho o melhor jogador brasileiro que surgiu nos últimos dez anos: é rápido, inteligente, passa bem e não corre do pau.

Veja – E o Ronaldo Fenômeno?
Romário – Ronaldo surgiu depois da Copa de 94 como um dos grandes nomes do futebol mundial. Não sei por que seria considerado um fenômeno. Talvez pelo fato de fazer muitos gols. Respeito o Ronaldo e nada tenho contra ele. Mas acho errado fazer comparações entre mim e ele. A única coisa em comum é que já jogamos nos mesmos clubes no exterior, o PSV e o Barcelona.

Veja – Atribui-se a raros jogadores a façanha de ter decidido uma Copa do Mundo. Um deles é Pelé, em 1958, Maradona em 1986 e você em 1994. Você concorda?
Romário – O grupo de 94 era tecnicamente inferior ao que foi campeão em 2002. Mas não ganhei sozinho. Todos estavam mentalizados para ganhar, do roupeiro ao técnico. Minha carreira decolou de vez depois do jogo contra o Uruguai, em 1993, no Maracanã, pelas eliminatórias. Até aquele jogo, eu era considerado um bom jogador, mas problemático. Após a partida, o conceito mudou: o cara realmente é problemático, mas joga demais e faz muitos gols. Na Copa, arrebentei.

Veja – Você tem vários desafetos no futebol, entre eles alguns técnicos, como Wanderley Luxemburgo, Zagallo e Felipão. Você guarda mágoas?
Romário – Tive atrito com todos eles, mas já resolvi as diferenças. Meu problema com o Zagallo é na Justiça. Ele me processou porque não gostou de ver uma charge na porta do banheiro da minha casa noturna na qual ele aparecia sentado numa privada. Chegamos a conversar, mas o Zagallo preferiu manter a ação. Também nada tenho contra o Wanderley. Ele não me convocou para as Olimpíadas de Sydney, em 2000, apesar da minha ótima forma na época. Não sei se eu evitaria o fiasco. Quanto ao Felipão, que não quis me levar para a Copa de 2002, considero gente boa. Ele achou que eu não seria importante, como não fui, e que ele iria ganhar a Copa do mesmo jeito – como de fato ganhou. Parabéns para ele.

 
 
 
 
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